Friday, February 8, 2008

OS BLUES, OS MAUS & OS VILÕES: AS LENDAS

                                                                                            Aquele que é tido como o maior músico de blues de sempre, Robert Johnson (1911-38), é o que acumula o maior número de lendas em seu torno, fruto de uma vivência radical e misteriosa nos circuitos rurais dos míticos “juke joints”. A falta de documentos - só se lhe conhecem três fotografias - adensam o mistério e alimentam os enigmas sobre a figura. A lenda mais célebre, popularizada pelo seu mestre Son House com quem tocou em inúmeros “juke joints”, é a de que Johnson terá feito um pacto com o demónio em troca do talento para os blues. Ike Zinnerman, outro dos seus mestres, propagou o mito de que ensinou Robert Johnson a tocar guitarra num cemitério à noite, por cima de uma sepultura. Quanto ao “olho de diabo” que se dizia que Robert Johnson tinha, há uma explicação mais prática: uma pequena catarata na vista esquerda.

Sleepy John Estes (1899-1977), ícone do country-blues, devia o seu nome de Sleepy à lenda de que conseguia dormir em pé - mas havia uma razão de saúde mais prosaica, a baixa pressão sanguínea levava-o a passar-se para o outro lado.

Uma das histórias que corre sobre a razão da cegueira aos 7 anos de idade de Blind Willie Johnson (1902-1950)- que fundiu o gospel e o blues como poucos - narra que a sua madrasta atirou à vista do miúdo água de lixívia como vingança de uma sova que sofreu do pai do músico.

O desaparecimento sem rasto de um dos grandes pioneiros dos blues Blind Blake (189?-1933) após uma sessão de gravações para a Paramount em Junho de 1932, deu azo a uma série de especulações. Uns alvitram que morreu de frio numa noite gélida. Outros defendem que foi a bebida (Blind Blake também era alcoólico) que o matou. Rumores de um assalto mortal de que Blake fora vítima numa rua de Chicago, ou de um atropelamento por um automóvel em Atlanta, são outras teses que só aumentam o mistério do seu desaparecimento.

Outro desaparecimento misterioso foi o de Blind Lemon Jefferson (1893-1929), outro dos fundadores do blues, que levantou várias teses. As mais fortes são: a de não ter sobrevivido a um nevão e ter morrido na rua; e a de ter sido largado no assento de trás de um carro pelo motorista, após um ataque cardíaco. 

Fotos: Robert Johnson (em cima) e Blind Lemon Jefferson (em baixo)

Texto publicado no site Cotonente.

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Wednesday, January 30, 2008

OS BLUES, OS MAUS & OS VILÕES: OS DESAFORTUNADOS DE BERÇO

                                                                                                                Os “bluesmen” contornaram condições desfavoráveis de pobreza e racismo com todas as suas virtudes musicais.

A cegueira

O transversal Ray Charles (1930-2004), da velha guarda do piano blues, teve uma infância dramática que não se resumiu à miséria do seu lar na Georgia rural: testemunhou o afogamento mortal do irmão, apanhou a doença de glaucoma que lhe retirou a visão aos sete anos e perdeu muito cedo a sua mãe.

alt : http://www.youtube.com/v/fuyaf5YBGh8&rel=1

Há no blues uma lista imensa de outros músicos de elite que, desprotegidos de meios saudáveis, contraíram doenças infantis que lhes retiraram a visão. W.C. Handy (1873-1958), Blind Blake (189?-1933), Blind Lemon Jefferson (1893-1929), Rev. Gary Davis (1896-1972), Blind Willie McTell (1901-59), Blind Willie Johnson (1902-50), Blind Boy Fuller (1907-1941), Sonny Terry (1911-86) ou Sleepy John Estes (1899-1977) fazem parte de uma lista de músicos invisuais fenomenais que, incapazes de trabalharem nos campos agrícolas, tiveram que se virar para a música para sobreviverem.

Os autodidactas

                                                             

No berço pobre dos bluesmen, a necessidade fazia o engenho e por isso nasciam autodidactas no Delta do Mississippi que inventavam instrumentos e novas formas de tocar. O processo comum para o fabrico artesanal de uma guitarra implicava uma prancha de madeira, arames e a velhinha caixa de cigarros. Rev. Gary Davis, que criaria uma forma genial de dedilhar à custa de uma má recolocação de ossos após um acidente, fez a sua guitarra a partir de uma forma de bolos e de uma vassoura. O diabólico Robert Johnson (1911-38) preferiu inventar uma forma prática de tocar guitarra com harmónica que Bob Dylan generalizaria nos anos 60: a harmónica suspensa por um arame à volta do pescoço. E o histórico Gus Cannon (1883-1979), que teve que dividir o seu tempo entre o trabalho de campo (no Inverno) e os itinerantes shows medicinais (no Verão), construiu o seu bandolim a partir de apetrechos de cozinha.

alt : http://www.youtube.com/v/JdfbnwwIqZE&rel=1

Mas a paixão nata pela música dos futuros “bluesmen” implicou sacrifícios dolorosos aos próximos. Yank Rachell (1910-97), um dos maiores bandolinistas dos blues, comprou o seu primeiro bandolim em criança em troca do porco da família, o que provocou a ira da mãe que o avisou: “quando comermos porco no Outono, vais ter que comer o teu bandolim”.

O racismo

Houve outro problema que relegava os músicos de blues do sul para uma condição desfavorável: o racismo perseguidor do Ku Klux Klan. Que o diga o frenético guitarrista Hound Dog Taylor (1915-75) que por causa de um “affair” com uma mulher branca percebeu muito bem o aviso da cruz incendiada que o KKK deixou na sua propriedade agrícola de Mississippi, e por isso migrou cedo para a mais tolerante Chicago (como muitos outros da sua cor).

Fotos de músicos: Rev. Gary Davis.

Imagens YouTube: Sonny Terry (na companhia do hóspede Pete Seeger e de Brownie McGhee); Gus Cannon;

Texto publicado no Cotonete.

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Monday, January 14, 2008

OS BLUES, OS MAUS & OS VILÕES

                                                                                                              Os blues afirmaram-se numa América sem lei, através de músicos negros fantásticos que levaram vidas intensas ques davam autênticos filmes.

A afinidade deste especial com o título do famoso western de Sergio Leone, O Bom, O Mau & O Vilão, não é fortuita. Entre os ícones dos blues houve vários rebeldes e alguns vilões de conduta perigosa, mas os blues ocupam - no lugar do título deste especial - o lugar dos bons. Todos os grandes “bluesmen” o eram, muito bons.

Restringir-nos-emos a citar modos de vida daqueles que foram os melhores do género. O ambiente violento dos juke joints (os clubes nocturnos e pré-fabricados dos trabalhadores negros) e dos bordeis onde actuavam estes músicos fez dos blues um antecedente rural do gangsta-rap.

Na foto de cima: Robert Johnson
Texto publicado no Cotonete.

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