
O vocalista David Thomas é tão arrasador e inteligente nas respostas que dá como na música cria - nos já históricos Pere Ubu ou nos seus pequenos satélites mais individualistas, com os Two Pale Boys ou a Pale Orchestra, entre outros devaneios.
Entrevistei-o duas vezes, em ocasiões muito distintas: a primeira poucas semanas antes do concerto dos Pere Ubu (um terramoto!) na Aula Magna, em Setembro de 2000; a segunda logo depois do terceiro álbum de David Thomas & The Two Pale Boys, 18 Monkeys on a Dead Man’s Chest, em 2004.
Infelizmente, a primeira entrevista está perdida no mundo fugaz e sem arquivo da internet (resta-me a fita da gravação que está arrumada em parte incerta). A segunda está melhor preservada, da qual selecciono (com muita dificuldade) apenas cinco citações que, como sempre, são luminosas.
Como DT distingue os Pere Ubu do seu trabalho com os Two Pale Boys: «Os Pere Ubu funcionam como um filme hollywoodesco de elevado orçamento, através do qual há coisas que se conseguem fazer muito bem. Os Two Pale Boys funcionam como um filme independente de baixo orçamento, através do qual há uma série de coisas diferentes que se conseguem fazer muito bem. A minha experiência com os Two Pale Boys é muito mais íntima e pessoal da que ocorre com os Pere Ubu que são uma grande banda de rock que lida com um grande potencial e com uma dose considerável de excitação. Com os Two Pale Boys, há mais tempo para desenvolver determinados aspectos das canções».
«É uma questão de números. Se contarem comigo, nos Two Pale Boys há dois músicos e meio; nos Pere Ubu, há cinco: é como comparar uma motorizada com um carro de quatro rodas. A motorizada pode desviar-se para várias direcções mais facilmente porque a sua estrutura é mais flexível. É mais fácil mudar o curso de uma canção com duas pessoas do que com quatro».
É um rebelde? «Um rebelde? (Risos) Não, não sou rebelde, sou um tradicionalista. A minha abordagem à música é conservadora. Situo-me no rock mainstream tradicionalista que não é nada rebelde. Pertenço a uma forma folk tradicional que se tem desenvolvido ao longo de muitas décadas. Não me rebelo contra nada, apenas acredito na habilidade do rock para tomar outras formas e atingir propósitos superiores à simples canção pop. Mas isso não faz de mim um rebelde. Não tenho culpa que grande parte da música seja tão má.
É um artista ou um entertainer? «Ambos. É como me perguntarem: “és uma laranja ou uma laranja?”. Sempre considerei a arte como uma forma de entretenimento inteligente. Quando alguém vive uma experiência que tenha significado, esse alguém está a ser automaticamente entretido».
Após viver mais de vinte anos em Inglaterra, por que razão esse país ainda não entra no imaginário das suas canções? «Porque sou americano e o que sou está ligado à paisagem e à geografia americana. Nada aqui em Inglaterra me desperta verdadeiras paixões, é uma terra estrangeira. A paisagem americana fala comigo. Todas as outras paisagens falam comigo numa língua estrangeira que não entendo. Como a Inglaterra, que não é a América. A língua não é a mesma, as tradições não são as mesmas. Mas gosto dos ingleses (risos). Às vezes».
Como vê a América politicamente? «Não gosto muito de músicos que abordem questões políticas. Os músicos são a última classe à qual se deve confiar alguma coisa. Politicamente, a América mantém-se: há pessoas que são eleitas, há outras que não são. Pessoalmente, considero o George W Bush um homem decente. Não me importo nada que ele seja político. Ele parece ser um homem bom e honesto, por essa razão os americanos gostam dele. O resto é política».