Friday, October 26, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO #14: ZECA BALEIRO

Zeca Baleiro é uma pessoa de trato adorável. Entrevistei-o num hotel lisboeta quando o músico promovia o seu terceiro álbum, Líricas.

Não me lembro de um músico citar e venerar tanto o seu ídolo, Bob Dylan no caso, como Zeca Baleiro. Todas as suas explicações e teorias encontravam o mesmo exemplo a seguir, o autor de «Blowin’ in the Wind».

E eu que me atreveria a encontrar mais semelhanças no disco fresco de então em Scott Walker. Claro que não insisti.

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Tuesday, September 25, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO #13: THE STROKES

                                                                  Diz o estereótipo que às bandas rock anglo-saxónicas de idade muito jovem a quem a fama abriu cedo as portas para o Jardim do Éden, o sucesso lhes sobe à cabeça. E que depois, espatifam televisões de quartos do hoteis luxuosos, que lançam um olhar enfadado aos membros do povo incógnitos e que têm uma educação ténue que lhes faz estalar o verniz à segunda pergunta mais complicada de um jornalista.

Esqueçam os estereótipos por uma vez: os Strokes não são assim. Nada assim. Num hotel em Madrid onde os encontrei, não havia músico (dos cinco da banda) que não nos cumprimentasse (a nós, comitiva de simpáticos jornalistas portugueses) e que não lançasse dois dedos de conversa (por mais circunstancial que fosse). Por exemplo, no terraço do hotel, o vocalista Julian Casablancas tentava falar-nos de qualquer coisa relacionada com o tempo daquele dia enquanto os outros quatros sorriam e aguardavam pacientemente por uma sessão fotográfica que nunca mais começava.

O músico que me calhou em mãos foi o mesmo Julian Casablancas. A gentileza, a docilidade e a humildade do tímido rapaz mantiveram-se. O terceiro álbum, First Impressions on Earth, estava fresco.

Gravação de Room on Fire: «Sentimo-nos como um animal preso numa gaiola que não compreende que está na gaiola. A editora fez-nos sentir que a nossa carreira estaria terminada se não cumpríssemos os nossos prazos».   

O modo de vida: «Vejo-me a falar tanto de mim que, ao final do dia, começo a ter dúvidas sobre quem eu sou. Em vez de ter aquele desejo de gozar a noite e descobrir a cidade em que estou, sinto que o mundo vai desabar sobre mim e que o meu tempo está a acabar. Imagino pessoas a terem pensamentos estranhos sobre mim. O dia-a-dia à volta de aeroportos, carrinhas e hotéis pode provocar coisas destas».

O sucesso precoce: «Senti que estávamos preparados para ter sucesso. Conseguimos aguentarmo-nos na mó de cima mais tempo do que muita gente julgava».

As letras: «Interessa-me mais o comportamento humano. A política capta a minha atenção, mas desconfio das potencialidades da mensagem panfletária de uma banda rock. Não sei até que ponto isso muda o mundo ou os políticos».

11 de Setembro: «Esse acontecimento teve um efeito duplo na minha pessoa. Por um lado, fez-me sentir numa região mais louca do mundo onde tragédias dessa escala costumam acontecer, parecia que estávamos numa zona de guerra - a minha visão mais negativa sobre a actualidade foi despertada. Por outro lado, perturbou a inocência dos meus sonhos. Já sabia que ia morrer, mas ainda não tinha uma imagem definida disso - passei a tê-la a partir de 11 de Setembro».

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Tuesday, August 7, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO #12: ICE-T

                                                                                                            Ice-T vinha a Portugal por ocasião do festival itinerante de cultura suburbana Vans Warped Tour (que incluía desportos radicais), que passaria pela Praça Sony, em Lisboa. Uma entrevista face-a-face surge na calha. E seria eu a enfrentar a «fera».

11:30 am é a hora marcada da entrevista. 11.30 pm é a hora em que a entrevista realmente se concretiza. Adiamentos sucessivos por causa de caprichos de estrela, avisos cada vez mais pessimistas quanto ao seu mau humor, idas e voltas à redacção a que então pertencia (a finada revista Voice), miradas desinteressadas às artimanhas dos skaters que pululavam pelo recinto e um dia inteiro esbanjado a olhar para o relógio.

Mas o homem aparece (com o seu fato de treino). Fecharam-nos os dois no camarim, eu e ele. O forcado sozinho na arena diante do touro. O jornalista branco ao jugo de um gansta-rapper que se imagina com uma arma de bom calibre nalgum bolso interior - um crime à vista sem testemunhas.

O forcado avança, avança. As perguntas pertinentes fazem-se, e arrisca-se algumas provocações. Mas o touro mantém-se manso. América, racismo (branco e negro), cinema, hip hop, Marilyn Manson (que Ice-T afirmou gostar!), a conversa seguiu fluente. Ice-T estava bem disposto e eu sobrevivi. Guardei a cassete no bolso, contei os meus anos de vida e continuo a contar os que se seguiram.

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Tuesday, July 10, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO #11: ADOLFO LUXÚRIA CANIBAL

Adolfo Luxúria Canibal, o rosto principal dos Mão Morta, que vai mostrando serviço paralelo em colaborações ou em projectos como os Mécanosphère, é dos entrevistados mais cordatos que conheço. As mais diversas situações o confirmaram, fosse para entrevistas promocionais ou para notícias, fosse a propósito dos Mão Morta ou dos Mécanosphère.

Mas a imagem mais forte que guardo dos encontros com Adolfo Luxúria Canibal decorre de uma situação que antecede uma entrevista feita em formato de blindfold test (teste de recolha de opiniões sobre as músicas postas a tocar pelo entrevistador, sem denunciar imediatamente os autores das mesmas), e acontece com outra pessoa. Quando conto o que iria fazer na hora seguinte a um membro não-jornalístico da redacção a que então pertencia (a malograda revista Voice), dizendo-lhe «vou à casa do Adolfo Luxúria Canibal entrevistá-lo», a sua reacção foi de pavor, como se eu fosse para uma residência isolada de algum Charles Manson, com hipóteses de sobrevivência remotas.

A imagem de Adolfo enquanto pessoa cordial e calma não é pública, é de pertença exclusiva dos jornalistas e dos seus próximos.

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Tuesday, June 19, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO #10: COLDPLAY

                                                                                           Paris, 27 de Agosto de 2002, dia de chuva a cântaros. O letreiro luminoso da porta do mítico Olympia anuncia os Coldplay para aquela noite. A banda de Chris Martin, que iria apresentar o novo A Rush of Blood to the Head, está preparada para conquistar o mundo - pressentia-se isso.

A meio da tarde, entrevisto num quarto de hotel, em mesa redonda, o correctíssimo guitarrista Johnny Buckland - suspeita-se que seja uma jóia de rapaz. O único que não dava entrevistas era Chris Martin, para, ao que se dizia, não desgastar a voz para o concerto daquele dia - que mereceria transmissão em directo em várias rádios espalhadas pelo mundo. O ambiente optimista que rodeia a entrevista (e tudo o resto) é interrompido por uma pergunta final minha que dizia mais do que os milhares de adjectivos que fui espalhando a louvar… o seu profissionalismo. «Então e o que é que os Coldplay trazem de novo à cena musical?». A resposta seria ainda mais concludente. «Essa é uma pergunta difícil (risos)… A forma sincera com que a nossa música toca as pessoas?, suponho. (Pausa) Espera, essa é mesmo uma pergunta difícil (mais risos)».

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Monday, May 28, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: DAVID THOMAS

O vocalista David Thomas é tão arrasador e inteligente nas respostas que dá como na música cria - nos já históricos Pere Ubu ou nos seus pequenos satélites mais individualistas, com os Two Pale Boys ou a Pale Orchestra, entre outros devaneios.

Entrevistei-o duas vezes, em ocasiões muito distintas: a primeira poucas semanas antes do concerto dos Pere Ubu (um terramoto!) na Aula Magna, em Setembro de 2000; a segunda logo depois do terceiro álbum de David Thomas & The Two Pale Boys, 18 Monkeys on a Dead Man’s Chest, em 2004.

Infelizmente, a primeira entrevista está perdida no mundo fugaz e sem arquivo da internet (resta-me a fita da gravação que está arrumada em parte incerta). A segunda está melhor preservada, da qual selecciono (com muita dificuldade) apenas cinco citações que, como sempre, são luminosas.

Como DT distingue os Pere Ubu do seu trabalho com os Two Pale Boys: «Os Pere Ubu funcionam como um filme hollywoodesco de elevado orçamento, através do qual há coisas que se conseguem fazer muito bem. Os Two Pale Boys funcionam como um filme independente de baixo orçamento, através do qual há uma série de coisas diferentes que se conseguem fazer muito bem. A minha experiência com os Two Pale Boys é muito mais íntima e pessoal da que ocorre com os Pere Ubu que são uma grande banda de rock que lida com um grande potencial e com uma dose considerável de excitação. Com os Two Pale Boys, há mais tempo para desenvolver determinados aspectos das canções».

«É uma questão de números. Se contarem comigo, nos Two Pale Boys há dois músicos e meio; nos Pere Ubu, há cinco: é como comparar uma motorizada com um carro de quatro rodas. A motorizada pode desviar-se para várias direcções mais facilmente porque a sua estrutura é mais flexível. É mais fácil mudar o curso de uma canção com duas pessoas do que com quatro».

É um rebelde? «Um rebelde? (Risos) Não, não sou rebelde, sou um tradicionalista. A minha abordagem à música é conservadora. Situo-me no rock mainstream tradicionalista que não é nada rebelde. Pertenço a uma forma folk tradicional que se tem desenvolvido ao longo de muitas décadas. Não me rebelo contra nada, apenas acredito na habilidade do rock para tomar outras formas e atingir propósitos superiores à simples canção pop. Mas isso não faz de mim um rebelde. Não tenho culpa que grande parte da música seja tão má.

É um artista ou um entertainer? «Ambos. É como me perguntarem: “és uma laranja ou uma laranja?”. Sempre considerei a arte como uma forma de entretenimento inteligente. Quando alguém vive uma experiência que tenha significado, esse alguém está a ser automaticamente entretido».

Após viver mais de vinte anos em Inglaterra, por que razão esse país ainda não entra no imaginário das suas canções? «Porque sou americano e o que sou está ligado à paisagem e à geografia americana. Nada aqui em Inglaterra me desperta verdadeiras paixões, é uma terra estrangeira. A paisagem americana fala comigo. Todas as outras paisagens falam comigo numa língua estrangeira que não entendo. Como a Inglaterra, que não é a América. A língua não é a mesma, as tradições não são as mesmas. Mas gosto dos ingleses (risos). Às vezes».

Como vê a América politicamente? «Não gosto muito de músicos que abordem questões políticas. Os músicos são a última classe à qual se deve confiar alguma coisa. Politicamente, a América mantém-se: há pessoas que são eleitas, há outras que não são. Pessoalmente, considero o George W Bush um homem decente. Não me importo nada que ele seja político. Ele parece ser um homem bom e honesto, por essa razão os americanos gostam dele. O resto é política».

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Wednesday, May 16, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: JUNE TABOR

«Não sou uma cantora folk. Não sou uma cantora jazz. Não sou uma cantora pop. Sou uma cantora». E é uma autêntica senhora, acrescento eu.

Entrevistei-a por telefone, para o site da Voxpop, pouco tempo antes do seu maravilhoso concerto no Centro Cultural de Belém, em 2000. 

A agradabilíssima conversa que tive com Tabor passou pelo seu contacto de infância com a folk britânica, pelo amor que tem pela vida de campo (a vivência londrina foi para si uma fatiga), pela auto-crítica corrosiva e humorada face à sua efémera tentativa de compor, e pela letra A que abre quase todos os títulos dos seus álbuns a solo (começou por ser uma coincidência, dizia-me). A sua confessa admiração por Richard Thompson (legado a que persistentemente recorre como intérprete) foi um assunto recorrente - muitas vezes, por vontade da própria.

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Sunday, April 29, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: DAMON ALBARN

Poucas horas antes do concerto dos Gorillaz na zona da Torre de Belém, no decurso do festival Isle of MTV, encontrei-me com Damon Albarn para uma entrevista que me deu imenso prazer. Do outro lado da mesa, sentado num largo sofá, estava um homem inteligente, bem mais maduro, que tinha vivido fases bem distintas nos Blur, que experimentou o hip hop nos Gorillaz (e em projectos associados a Dan Nakamura como o fantástico álbum homónimo dos Deltron 3030), que fundou a sua própria editora, a Honest John’s, que viajou ao continente africano para gravar um disco com músicos do Mali e que compôs uma banda sonora cinematográfica em co-autoria com Michael Nyman. Quando o entrevistei, em Julho de 2002, Damon Albarn estava a debater-se com as complicações do processo de gravação do novo álbum dos Blur que provocaria uma saída de peso: o guitarra Graham Coxon. O álbum, que chamar-se-ia Think Tank, tinha então o título provisório de Don’t Bomb When You’re the Bomb. Curiosamente, Damon Albarn descrevia o disco como uma aproximação dos Blur ao som dos Clash - hoje, cinco anos depois, Damon Albarn toca com o baixista Paul Simonon (ex-Clash) no colectivo The Good, The Bad & The Queen.

Falou-se do 11 de Setembro, do Mali, de fado, e até da ciumeira dos músicos dos Blur face ao empenho de Albarn nos Gorillaz - «compreendo-os, quando o seu vocalista se envolve num projecto que vende mais de cinco milhões de cópias… Não é essa a escala de vendas dos Blur».

O que me impressionou mais foi a sua declaração anti-estrela contra uma possível carreira a solo.

«Não estou interessado em carreiras a solo. Prefiro sempre trabalhar com outras pessoas, para mim esse é um ponto fulcral para se ser músico. Nunca quererei ter nas lojas um álbum de Damon Albarn. Os álbuns serão sempre meus, porque as canções são escritas por mim, o que tenho feito desde sempre. Mas a carreira a solo não é uma questão para mim. Sinto-me bem mais à-vontade não sendo o centro das atenções; terei sempre isso de qualquer das formas, faz parte do meu emprego. Não acordo propriamente de manhã a rezar para ter as atenções em meu torno. Quanto muito, rezo de manhã para ir para estúdio descobrir novas formas de música. É a música que me atrai e não tanto a celebridade. Penso que os álbuns a solo são mais derivativos da pretensão da celebridade e não da boa música».

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Wednesday, April 11, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: STEPHIN MERRITT

Stephin Merritt, a figura central dos Magnetic Fields (e de muitos outros projectos), pode ser um entrevistado dificílimo, mas a sua inteligência e o seu espírito torcido são um desafio que motiva qualquer jornalista a secundar obstáculos incómodos para uma conversação como os silêncios do inquirido, o seu pouco à-vontade ou o seu mau feitio. O que poderá dizer a seguir será sempre mais importante que tudo o resto. Compensa sempre.

Conversei com Stephin Merritt em duas situações diferentes (e ambas para a página online da Voxpop): a primeira numa entrevista telefónica centrada no álbum obrigatório dos Magnetic Fields 69 Love Songs; a segunda através de um encontro face-a-face num hotel dos arredores de Lisboa, aquando da passagem dos Magnetic Fields pelo CCB (em 2001), mas com foco de entrevista no álbum Hyacinths and Thistles de um dos seus projectos paralelos, os 6ths. Não posso dizer que tenha havido uma entrevista mais fácil que a outra. Mas adorei ambas.

Para cada entrevista, destaco duas citações.

Entrevista sobre 69 Love Songs, dos Magnetic Fields

«Muitas das minhas canções abordam relações desiguais, porque contêm mais drama, ao contrário dos relacionamentos estáveis e felizes. Há uma expressão inglesa que diz que as famílias felizes são todas iguais, mas que qualquer família infeliz é sempre diferente. Há portanto mais maneiras de me poder referir a amores infelizes do que a amores felizes».

«Os ingleses apreciam mais as piadas picantes do que os norte-americanos, a ideia de se fazer 69 canções é-lhes mais familiar».

Entrevista sobre Hyacinths and Thistles, dos 6ths.

«A minha vida privada não aparece muito nas letras das minhas canções. Mesmo se aparecesse, a minha vida privada já estaria mudada quando o disco fosse editado».

«Vou agora para um estúdio de televisão tocar num programa [HermanSic], ainda não saí deste hotel e amanhã vou partir às seis da manhã. Não estive sequer na Baixa lisboeta. Só conheço o caminho do aeroporto para o hotel. Percebe-se por que não gosto de tocar ao vivo. Preferiria estar aqui a gravar um disco, sempre daria para ficar a conhecer Lisboa e para estar sentado numa casa de fados a escrever canções».

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Wednesday, March 28, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: CARLINHOS BROWN

Em 2001, contactei com o músico brasileiro Carlinhos Brown, um dos entrevistados mais genuínos que tive, que demonstrou ter uma abordagem de vida típica de um profeta.

O Carlinhos Brown que conheci assumia-se como um morador orgulhoso da favela e, apesar do sucesso musical, recusava-se a mudar para o estatuto de rico (para ele, uma despromoção moral). As teorias sociais sucediam-se e, mais do que curiosas, eram declarações fortes.

«A polícia é um agregado do alto poder aquisitivo a quem dá satisfações. Vendem a ideia de que os bandidos moram na favela. Os bandidos vivem em mansões cercadas por polícias que os defendem. Esse é o problema do Brasil».

«O que o poder queria era que eu, quando me tornasse rico, passasse para o mundo deles. Eu continuo a morar na favela e isso é uma dor que eles têm».

«A televisão chama você não para dizer uma coisa social bonita, mas para dizer que carro você tem, com quem você dormiu, quanto dinheiro você ganhou. Essa é a realidade do opressor, é por isso que o rico não me compreende».

«Tenho dinheiro e vivo no meio dos pobres. Dos pobres como eu. Não é o facto de ter passado a ter dinheiro que me faz deixar de ser pobre. Tenho vários familiares que se encontram em situação difícil e lá estou eu para os ajudar. E familiar para mim é gente vizinha, não é só o filho que pari».

Custou acabar a conversa. A sensação deixada por Carlinhos Brown como sendo uma pessoa pura e especial mantém-se até hoje. Com aquele espírito, não voltei a conhecer ninguém.

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