100º Minor Threat - DC Space / Buff Hall / 9:30 Club
Reprodução de três actuações da banda hardcore, nos anos 80.
99º PJ Harvey - On Tour - Please Leave Quietly
Zapping da digressão promocional de Uh Huh Her, em 2004.
PS - Lista pessoal elaborada no dia 20 de Abril de 2008, que inclui DVDs não formatados para a Região Europeia e exclui obras de ficção (exemplos: ‘biopics’ ou musicais).
Polly Jean Harvey é a rainha musical da lucidez. Sabe muito bem o que quer e o que não quer. Reflecte. Pondera sobre o que fez. E mede muito bem os passos seguintes a dar.
Há já quinze anos que acerta. Vai-se abrigando de tempestade em tempestade, sem telhados de vidro à vista, para depois prosseguir o seu imaculado caminho. E neste momento, em 2007, Polly já vai lá muito longe.
White Chalk é um regresso ao berço, em Dorset (no sudoeste inglês), onde se reencontra e reergue, com a ajuda dos velhos amigos como o seu querido John Parish, o amparo confidente nº1 de PJ Harvey - além de velhos conhecidos como o baterista Jim White e o teclista Eric Drew Feldman, tudo gente de nomeada.
Mas Harvey ouviu sobretudo o que o fantasmagórico remate do anterior Uh Huh Her lhe suplicava: um outro instrumento que as cordas das guitarras estavam naquela altura a tentar substituir. E esse desafio tinha por nome o piano que Polly, perspicaz e corajosa como as grandes, não negou.
Passados os dilemas, a humildade, as aprendizagens e mais três anos, aí está White Chalk, no qual PJ Harvey já pode ser chamada de pianista. O novo álbum pode não ser surpreendente - atendendo aos antecedentes que formam uma cadeia de continuidade e reconhecendo as novas melodias como imediatamente suas. Mas é seguramente o álbum mais diferente de todos.
Habituámo-nos muito a uma PJ Harvey itinerante: irrequieta ao vivo, tocando, dançando e explorando a largura total do palco; e observadora nómada à recolha entre Londres (alguns dos primeiros discos), Nova Iorque (Stories from the City) e Los Angeles (Uh Huh Her). Mas nunca a ouvimos tão deliberadamente sedentária, fixada ao piano ou a Dorset (num regresso a casa a álbum inteiro que não aconteceu em Stories from the City, Stories from the Sea).
PJ Harvey não vive os tempos em que expunha as suas canções, uma a uma, com uma vaidade que nos causasse espanto. E PJ Harvey era muito boa nisso, fosse na sua vertente mais ácida e cortante (Dry, Rid of Me e o seu post-scriptum 4 Track Demos), ou engalanada (To Bring You My Love) ou exuberantemente optimista (Stories from the City, Stories from the Sea).
Outros tempos. As novas canções de PJ Harvey são ariscas, ouvem-se mas não se agarram, não nos dão tempo para as acharmos as melhores. Têm todas o charme fugidio de Is This Desire? e de Uh Huh Her em que as canções são peças inacabadas ao serviço de um puzzle que denominamos álbum. E quando o julgamos completo, não está, e descobrimos que a sua autora não nos deixou a solução-chave para o tão complexo jogo.
Ouvimo-la hoje com uma voz cada vez melhor, a brilhar ao piano, com uma melancolia desarmante que ecoa como que num sonho com alguém que se deseja e que não temos. Com um charme misterioso eremita, PJ Harvey é inatingível em White Chalk. (Universal Island, 2007)
VIDEOCLIP COM HISTÓRIA #11: NICK CAVE & THE BAD SEEDS (COM PJ HARVEY), «HENRY LEE» (1996)
Nem sempre, senão poucas vezes, o vídeo necessita de um grande orçamento, de uma grande logística ou de uma série de efeitos especiais. A beleza do videoclip de «Henry Lee» dá o mote à simplicidade de uma só ideia, de um só plano e de um só cenário.
O realizador Rocky Schenk, com passado de tarefeiro da grande indústria, nada teve mais que fazer do que dar o consentimento técnico e assistir passivo à intervenção destas duas figuras, Nick Cave e Polly Jean Harvey, absolutamente apaixonadas, que se limitam a seguir um roteiro praticamente improvisado. A troca de cumplicidades entre Cave e a sua «West Country Girl» segue intituivamente o enamoramento que resulta nas trocas de olhares, na dança e, por fim, no beijo.
A história de crime da canção ganha um epílogo imprevisto através do vídeo mais abençoado de sempre por S. Valentim, com Cave e Harvey a interpretarem sem resguardo os seus próprios papeis. A paixão foi interrompida mas o preciso momento em que as duas almas se encontram tem registo mítico.
NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: PRIMAVERA SOUND 2004
Só fui uma vez ao Primavera Sound, precisamente à quarta edição. Trata-se de um festival urbano que concretiza o seu imaginário de utopia, e por isso é um acontecimento obrigatório da agenda cultural de Barcelona. O cartaz desafia qualquer adepto da vanguarda musical a tirar férias em finais de Maio e a fazer contas para uma estada catalã.
Quando lá estive, o festival ocupou um sítio fantástico, o Poble Espanyol, que é uma espécie de Espanha dos Pequenitos, mas para gente graúda - nos dias correntes, o Poble Espanyol recria um itinerário arquitectónico e gastronómico de Espanha num área quadrada que permite comer uma sopa no bairro andaluz, o segundo prato na zona das Astúrias e a sobremesa e as bebidas espirituais na parte galega.
Naqueles três dias loucos, a preocupação não era dar dois passos entre Navarra e a Catalunha, mas sim correr entre o palco da praça central, o palco da tenda maior, o gigante palco principal e todos os outros palcos que houvesse. Era um stress de boa música, que nos obrigava a tomar decisões difíceis. De algumas, arrependi-me: o que fazia eu diante daquela banda hard-rock horrenda da actriz Julie Delpy (ainda por cima, de imagem tão desprotegida pela ausência da sua amiga película), quando, à mesma hora, Devendra Banhart pasmava as suas testemunhas na grande tenda, a trezentos metros? Também me chegaram ecos de uma grande actuação dos !!! que não pude elogiar. E olhava para a lista, e via que Smog, Fall ou Xiu Xiu eram ilusões para usufruto alheio mesmo ali ao lado.
Naquele ano, as atenções recaíam sobre o primeiro concerto dos regressados Pixies na Europa continental. O grupo de Boston comandou as expectativas de todo aquele segundo dia, que parecia reduzido à sua função de contagem decrescente, fazendo dos Raveonettes, Franz Ferdinand ou Mudhoney figurantes - agradáveis e frenéticos figurantes - que o tempo ia dobrando com paciência de chinês. Quando os quatro Pixies sobem ao palco, os sonhos dos milhares presentes concentravam-se numa sobrecarga de ansiedade do momento que matava à nascença a normal fluidez daquele concerto que ainda parecia irreal. Foi uma actuação demasiado diplomática para não ter sido estranha, em que o líder Frank Black e a sua baixista Kim Deal trocavam cortesias mas a banda não explodia como dantes. Sentiram-se uns cheirinhos de outros tempos, com algumas sequências non-stop de algumas músicas a ameaçar a raiva antiga, como o ataque brutal de «Tame». E ainda houve uma surpresa, quando Kim Deal angeliza o tema principal de Eraserhead (a primeira longa-metragem de David Lynch), «In Heaven», que Black infernizava na outra vida.
Mas as prestações com aroma de cozinhado recente, que representaram a verdadeira essência do festival, foram de outros. Dizzee Rascal deu um autêntico show de rap alienígena; os Hidden Cameras intelectualizaram o festival com festas pop; as Chick on Speed foram Barbies futuristas com vontade ir para onde as meninas más vão, para o inferno (não é, Xana?); Nina Nastasia vocalizou e tocou um cerimonial fúnebre de americana com imensa classe; Michael Gira foi um mestre da arte dramática (que grande concerto, aquele!); os Primal Scream mostraram aos Rolling Stones como é que se devia fazer de Altamont um inferno; e PJ Harvey, em excelente forma e no seu território preferido (o palco), provou que devia ser ela a estrela do festival. Mas ainda havia vontade de ver mais alguém. Os ouvidos, definitivamente, não queriam descansar.
Nas fotos, de cima para baixo, Dizzee Rascal, PJ Harvey e Michael Gira.