Monday, July 2, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #10: FESTIVAL PAREDES DE COURA DE 2005

                                                                                                 Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano. alt : http://www.youtube.com/v/viEKLS1lCtE

O movimento de gentes era saudável. Nunca, num festival português, me havia cruzado com tantos estrangeiros (sobretudo espanhóis), nem nunca havia sentido tanto frenesim das pessoas em descobrir bandas novas. À semelhança do que constatava lá fora, em Paredes de Coura a música esteve primeiro, e a razão da peregrinação da maior parte daqueles festivaleiros dependeu do conteúdo musical do evento e não de um gozo meramente lúdico. Havia felicidade no ar, alimentada e regenerada pelos sons que saíam do palco e que obrigavam a uma descida naquele anfiteatro natural bem maior do que o inicialmente calculado - e foram várias as vezes que acabei colado ao palco.

alt : http://www.youtube.com/v/8HAwHd9HS4M

Cheguei ouvindo elogios convictos sobre a actuação do duo Death From Above 1979. Os !!! não me deram tempo para ficar triste quanto à perdida anterior, absolutamente intrigado que estava a ficar com aquela fusão nos mesmos acordes do som cortante e matemático da Factory com a animação “disco” de um clube nova-iorquino dos anos 70. O nível de motim manteve-se com os Kaiser Chiefs, meninos foliões da pop britânica com queda para óptimos refrões e criação de hits, e nem o tropeção que pôs a coxear o saltitante vocalista Ricky Wilson, qual Damon Albarn dos velhos tempos, quebrou o humor e o embalo daquele entusiasmado set. A actuação mais maquinal dos Bravery reduziu o nível de empatia registado até então entre palco e audiência, mas não baixou o profissionalismo, rigoroso, do grupo nova-iorquino, que não deixou passar nada do melhor da pop britânica dos anos 70/80 que figura na árvore genealógica dos Kraftwerk (Gary Numan, Human League, Depeche Mode). Quando a música se reduziu à mera vertente física, com os Foo Fighters, uma das cabeças que já não lá estava era a minha.

Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.

Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.

alt : http://www.youtube.com/v/kec42OJ28OU

De cima para baixo: Nick Cave, !!!, Kaiser Chiefs (momento em que Ricky Wilson torce o pé), Pixies, Woven Hand e Arcade Fire (as duas últimas músicas do concerto).

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Thursday, May 17, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: PIXIES, «I’VE BEEN TIRED» (1987)

Havia nas canções dos Pixies um paralelismo explosivo de golpes de asas sucessivos entre a sua estrutura musical que inverteu os parâmetros normais, e as letras destemidas e cortantes de Black Francis.

Raras vezes se encontra na história do rock um estado de arrebatamento criativo tão selvagem como o que abençoou Black no arranque dos Pixies, com o EP Come On Pilgrim e o álbum Surfer Rosa a alterarem os códigos de então como uma lufada de ar fresco furiosa. Antes de seguir um via lírica mais surrealista (sob os ímpetos do cineasta Luis Buñuel e do pintor Salvador Dali) e mais espacial (a que se seguiram outras bem interessantes na sua carreira a solo), Black revelou-se como um mensageiro de um imaginário imprevisível de sexo, incesto e violência. Uma das muitas letras absolutamente geniais de Black é esta, «I’ve Been Tired», onde o compositor recorre a uma mestria sua enquanto escritor de canções, a criação de um diálogo, deixando frases que marcam como «loosing my penis to a whore with disease», na conversa com uma prostituta. 

 

Letra e composição: Black Francis

Interpretação: Pixies

Disco a que pertence: Come On Pilgrim EP

One two three

She’s a real left winger ’cause she been down south

And held peasants in her arms

She said “I could tell you a story that could make you cry”

“What about you?”

I said “Me too”

“I could tell you a story that will make you cry”

And she sighed “Aaahh”

I said “I wanna be a singer like Lou Reed”

“I like Lou Reed” she said sticking her tongue in my ear

“Let’s go, let’s sit, let’s talk”

“Politics go so good with beer”

“And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?”

I said “Loosing my penis to a whore with disease”

“Just kidding” I said “Loosing my life to a whore with disease”

I said “Please… I’m a humble guy with a healthy desire”

“Don’t give me no shit because…”

I’ve been tired

I tell a tale of a girl, but I call her a woman

She’s a little bit older than me

Strong legs, strong face, voice like milk, breasts like a cluster of grapes

I can’t escape the ways she raise me

She’ll make you feel like Solomon be one of your babies even if you had no one

(And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?)

Took my sleep after setting my loins on fire

But that’s OK because…

I’ve been tired

I’ve been tired

T-i-r-e-d spells it

Spells it

alt : http://www.youtube.com/v/KZgYIgQ21Gk

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Saturday, May 12, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: PRIMAVERA SOUND 2004

Só fui uma vez ao Primavera Sound, precisamente à quarta edição. Trata-se de um festival urbano que concretiza o seu imaginário de utopia, e por isso é um acontecimento obrigatório da agenda cultural de Barcelona. O cartaz desafia qualquer adepto da vanguarda musical a tirar férias em finais de Maio e a fazer contas para uma estada catalã.

Quando lá estive, o festival ocupou um sítio fantástico, o Poble Espanyol, que é uma espécie de Espanha dos Pequenitos, mas para gente graúda - nos dias correntes, o Poble Espanyol recria um itinerário arquitectónico e gastronómico de Espanha num área quadrada que permite comer uma sopa no bairro andaluz, o segundo prato na zona das Astúrias e a sobremesa e as bebidas espirituais na parte galega.

Naqueles três dias loucos, a preocupação não era dar dois passos entre Navarra e a Catalunha, mas sim correr entre o palco da praça central, o palco da tenda maior, o gigante palco principal e todos os outros palcos que houvesse. Era um stress de boa música, que nos obrigava a tomar decisões difíceis. De algumas, arrependi-me: o que fazia eu diante daquela banda hard-rock horrenda da actriz Julie Delpy (ainda por cima, de imagem tão desprotegida pela ausência da sua amiga película), quando, à mesma hora, Devendra Banhart pasmava as suas testemunhas na grande tenda, a trezentos metros? Também me chegaram ecos de uma grande actuação dos !!! que não pude elogiar. E olhava para a lista, e via que Smog, Fall ou Xiu Xiu eram ilusões para usufruto alheio mesmo ali ao lado. 

Naquele ano, as atenções recaíam sobre o primeiro concerto dos regressados Pixies na Europa continental. O grupo de Boston comandou as expectativas de todo aquele segundo dia, que parecia reduzido à sua função de contagem decrescente, fazendo dos Raveonettes, Franz Ferdinand ou Mudhoney figurantes - agradáveis e frenéticos figurantes - que o tempo ia dobrando com paciência de chinês. Quando os quatro Pixies sobem ao palco, os sonhos dos milhares presentes concentravam-se numa sobrecarga de ansiedade do momento que matava à nascença a normal fluidez daquele concerto que ainda parecia irreal. Foi uma actuação demasiado diplomática para não ter sido estranha, em que o líder Frank Black e a sua baixista Kim Deal trocavam cortesias mas a banda não explodia como dantes. Sentiram-se uns cheirinhos de outros tempos, com algumas sequências non-stop de algumas músicas a ameaçar a raiva antiga, como o ataque brutal de «Tame». E ainda houve uma surpresa, quando Kim Deal angeliza o tema principal de Eraserhead (a primeira longa-metragem de David Lynch), «In Heaven», que Black infernizava na outra vida.

Mas as prestações com aroma de cozinhado recente, que representaram a verdadeira essência do festival, foram de outros. Dizzee Rascal deu um autêntico show de rap alienígena; os Hidden Cameras intelectualizaram o festival com festas pop; as Chick on Speed foram Barbies futuristas com vontade ir para onde as meninas más vão, para o inferno (não é, Xana?); Nina Nastasia vocalizou e tocou um cerimonial fúnebre de americana com imensa classe; Michael Gira foi um mestre da arte dramática (que grande concerto, aquele!); os Primal Scream mostraram aos Rolling Stones como é que se devia fazer de Altamont um inferno; e PJ Harvey, em excelente forma e no seu território preferido (o palco), provou que devia ser ela a estrela do festival. Mas ainda havia vontade de ver mais alguém. Os ouvidos, definitivamente, não queriam descansar.

Nas fotos, de cima para baixo, Dizzee Rascal, PJ Harvey e Michael Gira.

 

Posted by Gonçalo Palma at 01:46:29 | Permalink | No Comments »