NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #10: FESTIVAL PAREDES DE COURA DE 2005
Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano.
O movimento de gentes era saudável. Nunca, num festival português, me havia cruzado com tantos estrangeiros (sobretudo espanhóis), nem nunca havia sentido tanto frenesim das pessoas em descobrir bandas novas. À semelhança do que constatava lá fora, em Paredes de Coura a música esteve primeiro, e a razão da peregrinação da maior parte daqueles festivaleiros dependeu do conteúdo musical do evento e não de um gozo meramente lúdico. Havia felicidade no ar, alimentada e regenerada pelos sons que saíam do palco e que obrigavam a uma descida naquele anfiteatro natural bem maior do que o inicialmente calculado - e foram várias as vezes que acabei colado ao palco.
Cheguei ouvindo elogios convictos sobre a actuação do duo Death From Above 1979. Os !!! não me deram tempo para ficar triste quanto à perdida anterior, absolutamente intrigado que estava a ficar com aquela fusão nos mesmos acordes do som cortante e matemático da Factory com a animação “disco” de um clube nova-iorquino dos anos 70. O nível de motim manteve-se com os Kaiser Chiefs, meninos foliões da pop britânica com queda para óptimos refrões e criação de hits, e nem o tropeção que pôs a coxear o saltitante vocalista Ricky Wilson, qual Damon Albarn dos velhos tempos, quebrou o humor e o embalo daquele entusiasmado set. A actuação mais maquinal dos Bravery reduziu o nível de empatia registado até então entre palco e audiência, mas não baixou o profissionalismo, rigoroso, do grupo nova-iorquino, que não deixou passar nada do melhor da pop britânica dos anos 70/80 que figura na árvore genealógica dos Kraftwerk (Gary Numan, Human League, Depeche Mode). Quando a música se reduziu à mera vertente física, com os Foo Fighters, uma das cabeças que já não lá estava era a minha.
Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.
Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.
De cima para baixo: Nick Cave, !!!, Kaiser Chiefs (momento em que Ricky Wilson torce o pé), Pixies, Woven Hand e Arcade Fire (as duas últimas músicas do concerto).
Havia nas canções dos Pixies um paralelismo explosivo de golpes de asas sucessivos entre a sua estrutura musical que inverteu os parâmetros normais, e as letras destemidas e cortantes de Black Francis.
Só fui uma vez ao Primavera Sound, precisamente à quarta edição. Trata-se de um festival urbano que concretiza o seu imaginário de utopia, e por isso é um acontecimento obrigatório da agenda cultural de Barcelona. O cartaz desafia qualquer adepto da vanguarda musical a tirar férias em finais de Maio e a fazer contas para uma estada catalã.
Naqueles três dias loucos, a preocupação não era dar dois passos entre Navarra e a Catalunha, mas sim correr entre o palco da praça central, o palco da tenda maior, o gigante palco principal e todos os outros palcos que houvesse. Era um stress de boa música, que nos obrigava a tomar decisões difíceis. De algumas, arrependi-me: o que fazia eu diante daquela banda hard-rock horrenda da actriz Julie Delpy (ainda por cima, de imagem tão desprotegida pela ausência da sua amiga película), quando, à mesma hora, Devendra Banhart pasmava as suas testemunhas na grande tenda, a trezentos metros? Também me chegaram ecos de uma grande actuação dos !!! que não pude elogiar. E olhava para a lista, e via que Smog, Fall ou Xiu Xiu eram ilusões para usufruto alheio mesmo ali ao lado.
Mas as prestações com aroma de cozinhado recente, que representaram a verdadeira essência do festival, foram de outros. Dizzee Rascal deu um autêntico show de rap alienígena; os Hidden Cameras intelectualizaram o festival com festas pop; as Chick on Speed foram Barbies futuristas com vontade ir para onde as meninas más vão, para o inferno (não é, Xana?); Nina Nastasia vocalizou e tocou um cerimonial fúnebre de americana com imensa classe; Michael Gira foi um mestre da arte dramática (que grande concerto, aquele!); os Primal Scream mostraram aos Rolling Stones como é que se devia fazer de Altamont um inferno; e PJ Harvey, em excelente forma e no seu território preferido (o palco), provou que devia ser ela a estrela do festival. Mas ainda havia vontade de ver mais alguém. Os ouvidos, definitivamente, não queriam descansar.