MÚM + PERE UBU: A GALHOFA E O AMUO
A noite de sábado na Sala 2 da Casa da Música do Porto, intitulada de “Clubbing”, foi bipolar: da galhofa dos islandeses Múm ao amuo que levou David Thomas, líder dos históricos existencialistas Pere Ubu, a abandonar o palco a meio do concerto e a quase desistir.O segundo concerto da noite, o dos Pere Ubu, foi de tal forma rocambulesco que podia dar por si só um livro. Não um romance dos bons mas um relato biográfico sensacionalista.
A actuação dos Pere Ubu podia ter durado vinte minutos - quando ocorre o abandono de David Thomas - como podia ter durado mais de três horas - quando o cantor, num estado ébrio mais avançado e bonacheirão, parecia maleável a qualquer pedido de mais outro encore. Mas o esgotamento físico do baterista obrigou o concerto a ficar-se pelas duas horas.
O número de incidências merece uma lista:
- A entrada de David Thomas pela sala nos minutos anteriores ao concerto é de impossível indiscrição. O homem atravessa a arena com a sua figura espaçosa e carismática a lembrar o forte Orson Welles, vestindo gabardina e um chapéu e puxando uma maleta de rodas. Chamou a atenção de todos, mesmo aqueles que o desconheciam (que talvez não fossem assim tão poucos).
- Após a primeira música, David Thomas, com o escudo dos seus modos teatrais, refila contra o som: “só consigo ouvir os malditos sintetizadores!”. O público ficou indeciso, sem saber se rir seria o mais conveniente. Talvez ainda desse para rir.

- Após a quarta música da noite, David Thomas chama todos os elementos da banda para uma reunião em roda a que todo o público assistiu: os músicos mais experientes ouviam com uma calma de humildes servidores, mas o baterista, mais jovem, parecia assustado. O episódio lembrava a rudeza dos famigerados “talks” do manipulador Captain Beefheart para com os seus subordinados de banda. O dilema quanto à certeza do dramatismo de David Thomas começava a esbater-se. A banda, irreconhecível, estava a tocar mal demais para a escala a que Thomas nos tinha habituado.
- A meio da quinta música, David Thomas sai do palco e a banda continua a tocar… até a música acabar. Os súbditos de Thomas ficam a olhar uns para ou outros e, às tantas, saem também. O palco fica vazio.
- Durante o amuo, outro momento degradante: um engraçadinho sobe ao palco, rouba as duas latas de cerveja alinhadas para consumo do mestre de cerimónias e ergue-as para o povo aplaudir.
- Pouco tempo após o regresso ao palco, quando ainda se sentiam sinais de tempestade, uma baqueta foge das mãos do baterista e David Thomas, de frente para o público, sente de imediato uma falta de ritmo naqueles segundos, virando a sua teatralidade para cima do amedrontado baterista que já se encontrava à beira de um colapso nervoso. Assim que a música terminou, o jovem instrumentista não aguentou mais e levantou-se, farto de tudo aquilo. Mas não saiu de palco.
- Após a ingestão de várias latas de cerveja e de um líquido de um frasquinho metalizado tirado do bolso das suas calças, David Thomas confessa o seu estado ébrio à multidão, e apresenta-o como a razão da sua tolerância para com “a péssima acústica, mas não desistimos”.
- David Thomas acrescenta à letra de uma das suas músicas um raspanete a uma mais distraída e conversadora espectadora na fila da frente: “presta atenção!”
- A mesma fã sobe ao palco e emite um berro enorme diante do grande e estupefacto David Thomas. Não teve graça.
- A confissão de impotência sexual do cantor é um momento de delicioso mas assustador humor, com um aviso à multidão: “o tempo apanhar-vos-á”.
- Além de referências com piada a Justin Timberlake e a Britney Spears, houve insultos baratos contra Thom Yorke, “Fuck Thom Yorke!”, e uma pergunta que tenta limpar o seu orgulho: “Acham que ele alguma vez seria capaz de abandonar um concerto a meio?”.
Mas houve muito mais, num concerto que investiu a sério naquela que é a obra-prima do grupo, Ray Gun Suitcase (de 1995), e que não ignorou outros clássicos como «Non Alignment Pact» (a música mais célebre do álbum que revelou os Pere Ubu ao mundo, The Modern Dance).
O absurdo da música dos Pere Ubu, no seu melhor, tomou conta da realidade daquele concerto, no seu pior. A desafinação e alguma desconexão entre os cinco músicos tornavam irreconhecíveis os padrões exigentes a que as bandas de David Thomas nos habituaram e esta formação que passou pela Casa da Música provocou saudades de outras equipas de músicos que responderam pelo nome de Pere Ubu no passado. E David Thomas não tem fair-play para dar maus concertos e amuou.
Antes, passou pela Sala 2 da Casa da Música a folia mais inocente dos simpáticos Múm, que, espicaçados pelo ambiente receptivo, divertiram-se à grande. Tanto que, na metade final do concerto, divertiram-se mais do que divertiram.
O grupo actuou em septeto com um arsenal que incluía piano, melódica, violoncelo, violino, violinhas compradas nalguma loja de brinquedos ou os portáteis Mackintosh. E demonstrou merecer hoje aquela atenção que tiveram no passado, quando corriam os dias de Yesterday Was Dramatic Today Is OK (de 2000) e de Finally We Are No One (de 2002).Num alinhamento que passou muito ao lado do reportório mais antigo e que favoreceu as músicas de Go Go Smear the Poison Ivy (o último álbum), os Múm não ofereceram apenas aquela dose musical idílica que os identifica com a ilha da Utopia musical: a Islândia. Às canções pop de embalo desenhadas num cenário electrónico ambiental, acrescentaram novos ares, como uma pop mais orelhuda e efusiva a lembrar bandas indie suecas como os Wannadies, e uma ou outra excentricidade pontual, como o toque balcânico devedor das bandas sonoras compostas por Goran Bregovic ou os aromas de electro-tango.
As evasões à sua pop mais compenetrada e circunspecta ajudaram a glorificar a sua actuação portuense e desculparam os excessos de galhofa do grupo.
Pode ler artigo mais resumido no site Cotonete.
A leva de surrealismo sinistro, de visão do oculto da América e de crítica metafórica incisiva apanhou na rede de Ray Gun Suitcase alguns padrões rock mais convencionais (incluindo um radio friendly «Memphis» que só passou na nossa XFM), viagens sónicas mais deambulatórias e um delírio criativo que faz do álbum uma autêntica obra-prima. Não é preciso fazer a contagem de discípulos para se avaliar a qualidade do trabalho de David Thomas. Os anos passam e a excelência continua. (Cooking Vinyl)
O vocalista David Thomas é tão arrasador e inteligente nas respostas que dá como na música cria - nos já históricos Pere Ubu ou nos seus pequenos satélites mais individualistas, com os Two Pale Boys ou a Pale Orchestra, entre outros devaneios.