Monday, February 18, 2008

MÚM + PERE UBU: A GALHOFA E O AMUO

                              A noite de sábado na Sala 2 da Casa da Música do Porto, intitulada de “Clubbing”, foi bipolar: da galhofa dos islandeses Múm ao amuo que levou David Thomas, líder dos históricos existencialistas Pere Ubu, a abandonar o palco a meio do concerto e a quase desistir.
O segundo concerto da noite, o dos Pere Ubu, foi de tal forma rocambulesco que podia dar por si só um livro. Não um romance dos bons mas um relato biográfico sensacionalista.
alt : http://www.youtube.com/v/sYX6sSZMnvY&rel=1

A actuação dos Pere Ubu podia ter durado vinte minutos - quando ocorre o abandono de David Thomas - como podia ter durado mais de três horas - quando o cantor, num estado ébrio mais avançado e bonacheirão, parecia maleável a qualquer pedido de mais outro encore. Mas o esgotamento físico do baterista obrigou o concerto a ficar-se pelas duas horas.
O número de incidências merece uma lista:
- A entrada de David Thomas pela sala nos minutos anteriores ao concerto é de impossível indiscrição. O homem atravessa a arena com a sua figura espaçosa e carismática a lembrar o forte Orson Welles, vestindo gabardina e um chapéu e puxando uma maleta de rodas. Chamou a atenção de todos, mesmo aqueles que o desconheciam (que talvez não fossem assim tão poucos).
- Após a primeira música, David Thomas, com o escudo dos seus modos teatrais, refila contra o som: “só consigo ouvir os malditos sintetizadores!”. O público ficou indeciso, sem saber se rir seria o mais conveniente. Talvez ainda desse para rir.

- Após a quarta música da noite, David Thomas chama todos os elementos da banda para uma reunião em roda a que todo o público assistiu: os músicos mais experientes ouviam com uma calma de humildes servidores, mas o baterista, mais jovem, parecia assustado. O episódio lembrava a rudeza dos famigerados “talks” do manipulador Captain Beefheart para com os seus subordinados de banda. O dilema quanto à certeza do dramatismo de David Thomas começava a esbater-se. A banda, irreconhecível, estava a tocar mal demais para a escala a que Thomas nos tinha habituado.
- A meio da quinta música, David Thomas sai do palco e a banda continua a tocar… até a música acabar. Os súbditos de Thomas ficam a olhar uns para ou outros e, às tantas, saem também. O palco fica vazio.
- Durante o amuo, outro momento degradante: um engraçadinho sobe ao palco, rouba as duas latas de cerveja alinhadas para consumo do mestre de cerimónias e ergue-as para o povo aplaudir.    
- Pouco tempo após o regresso ao palco, quando ainda se sentiam sinais de tempestade, uma baqueta foge das mãos do baterista e David Thomas, de frente para o público, sente de imediato uma falta de ritmo naqueles segundos, virando a sua teatralidade para cima do amedrontado baterista que já se encontrava à beira de um colapso nervoso. Assim que a música terminou, o jovem instrumentista não aguentou mais e levantou-se, farto de tudo aquilo. Mas não saiu de palco.
- Após a ingestão de várias latas de cerveja e de um líquido de um frasquinho metalizado tirado do bolso das suas calças, David Thomas confessa o seu estado ébrio à multidão, e apresenta-o como a razão da sua tolerância para com “a péssima acústica, mas não desistimos”.
- David Thomas acrescenta à letra de uma das suas músicas um raspanete a uma mais distraída e conversadora espectadora na fila da frente: “presta atenção!”
- A mesma fã sobe ao palco e emite um berro enorme diante do grande e estupefacto David Thomas. Não teve graça.
- A confissão de impotência sexual do cantor é um momento de delicioso mas assustador humor, com um aviso à multidão: “o tempo apanhar-vos-á”.
- Além de referências com piada a Justin Timberlake e a Britney Spears, houve insultos baratos contra Thom Yorke, “Fuck Thom Yorke!”, e uma pergunta que tenta limpar o seu orgulho: “Acham que ele alguma vez seria capaz de abandonar um concerto a meio?”.
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Mas houve muito mais, num concerto que investiu a sério naquela que é a obra-prima do grupo, Ray Gun Suitcase (de 1995), e que não ignorou outros clássicos como «Non Alignment Pact» (a música mais célebre do álbum que revelou os Pere Ubu ao mundo, The Modern Dance).
O absurdo da música dos Pere Ubu, no seu melhor, tomou conta da realidade daquele concerto, no seu pior. A desafinação e alguma desconexão entre os cinco músicos tornavam irreconhecíveis os padrões exigentes a que as bandas de David Thomas nos habituaram e esta formação que passou pela Casa da Música provocou saudades de outras equipas de músicos que responderam pelo nome de Pere Ubu no passado. E David Thomas não tem fair-play para dar maus concertos e amuou.
Antes, passou pela Sala 2 da Casa da Música a folia mais inocente dos simpáticos Múm, que, espicaçados pelo ambiente receptivo, divertiram-se à grande. Tanto que, na metade final do concerto, divertiram-se mais do que divertiram.
O grupo actuou em septeto com um arsenal que incluía piano, melódica, violoncelo, violino, violinhas compradas nalguma loja de brinquedos ou os portáteis Mackintosh. E demonstrou merecer hoje aquela atenção que tiveram no passado, quando corriam os dias de Yesterday Was Dramatic ­ Today Is OK (de 2000) e de Finally We Are No One (de 2002).
Num alinhamento que passou muito ao lado do reportório mais antigo e que favoreceu as músicas de Go Go Smear the Poison Ivy (o último álbum), os Múm não ofereceram apenas aquela dose musical idílica que os identifica com a ilha da Utopia musical: a Islândia. Às canções pop de embalo desenhadas num cenário electrónico ambiental, acrescentaram novos ares, como uma pop mais orelhuda e efusiva a lembrar bandas indie suecas como os Wannadies, e uma ou outra excentricidade pontual, como o toque balcânico devedor das bandas sonoras compostas por Goran Bregovic ou os aromas de electro-tango.
As evasões à sua pop mais compenetrada e circunspecta ajudaram a glorificar a sua actuação portuense e desculparam os excessos de galhofa do grupo.
Pode ler artigo mais resumido no site Cotonete.

 

Posted by Gonçalo Palma at 22:41:50 | Permalink | Comments (2)

Monday, July 23, 2007

ÁLBUM DE RECORDAÇÕES #11: PERE UBU, «RAY GUN SUITCASE» (1995)

                                                                                 Desobedeçam neste caso em particular ao que os guias de música dizem, (demasiado) consensuais em tomar os dois primeiros álbuns, Modern Dance (1978) e Dub Housing (1978), como as obras maiores dos Pere Ubu. E não se fiem tanto na história do rock, que tende a elevar a feitos hercúleos, e com discriminação, as conjunturas e os arranques de carreira - pelo menos, neste caso em particular.

David Thomas, o crânio do projecto, desobedeceu ao percurso normal de um artista rock, distribuindo saúde artística para muito mais do que os primeiros anos de criação, e em várias frentes (Pere Ubu, Pale Orchestra, Two Pale Boys, Pedestrians). E não se fiou na máxima do experimentalismo (em que os Pere Ubu são inseridos) do quanto mais obscuro melhor: Ray Gun Suitcase é o mais acessível dos álbuns dos Pere Ubu e é o melhor (minha opinião particular, claro).

A leva de surrealismo sinistro, de visão do oculto da América e de crítica metafórica incisiva apanhou na rede de Ray Gun Suitcase alguns padrões rock mais convencionais (incluindo um radio friendly «Memphis» que só passou na nossa XFM), viagens sónicas mais deambulatórias e um delírio criativo que faz do álbum uma autêntica obra-prima. Não é preciso fazer a contagem de discípulos para se avaliar a qualidade do trabalho de David Thomas. Os anos passam e a excelência continua. (Cooking Vinyl)

Posted by Gonçalo Palma at 11:42:24 | Permalink | No Comments »

Monday, May 28, 2007

RECORDAR UM ENTREVISTADO: DAVID THOMAS

O vocalista David Thomas é tão arrasador e inteligente nas respostas que dá como na música cria - nos já históricos Pere Ubu ou nos seus pequenos satélites mais individualistas, com os Two Pale Boys ou a Pale Orchestra, entre outros devaneios.

Entrevistei-o duas vezes, em ocasiões muito distintas: a primeira poucas semanas antes do concerto dos Pere Ubu (um terramoto!) na Aula Magna, em Setembro de 2000; a segunda logo depois do terceiro álbum de David Thomas & The Two Pale Boys, 18 Monkeys on a Dead Man’s Chest, em 2004.

Infelizmente, a primeira entrevista está perdida no mundo fugaz e sem arquivo da internet (resta-me a fita da gravação que está arrumada em parte incerta). A segunda está melhor preservada, da qual selecciono (com muita dificuldade) apenas cinco citações que, como sempre, são luminosas.

Como DT distingue os Pere Ubu do seu trabalho com os Two Pale Boys: «Os Pere Ubu funcionam como um filme hollywoodesco de elevado orçamento, através do qual há coisas que se conseguem fazer muito bem. Os Two Pale Boys funcionam como um filme independente de baixo orçamento, através do qual há uma série de coisas diferentes que se conseguem fazer muito bem. A minha experiência com os Two Pale Boys é muito mais íntima e pessoal da que ocorre com os Pere Ubu que são uma grande banda de rock que lida com um grande potencial e com uma dose considerável de excitação. Com os Two Pale Boys, há mais tempo para desenvolver determinados aspectos das canções».

«É uma questão de números. Se contarem comigo, nos Two Pale Boys há dois músicos e meio; nos Pere Ubu, há cinco: é como comparar uma motorizada com um carro de quatro rodas. A motorizada pode desviar-se para várias direcções mais facilmente porque a sua estrutura é mais flexível. É mais fácil mudar o curso de uma canção com duas pessoas do que com quatro».

É um rebelde? «Um rebelde? (Risos) Não, não sou rebelde, sou um tradicionalista. A minha abordagem à música é conservadora. Situo-me no rock mainstream tradicionalista que não é nada rebelde. Pertenço a uma forma folk tradicional que se tem desenvolvido ao longo de muitas décadas. Não me rebelo contra nada, apenas acredito na habilidade do rock para tomar outras formas e atingir propósitos superiores à simples canção pop. Mas isso não faz de mim um rebelde. Não tenho culpa que grande parte da música seja tão má.

É um artista ou um entertainer? «Ambos. É como me perguntarem: “és uma laranja ou uma laranja?”. Sempre considerei a arte como uma forma de entretenimento inteligente. Quando alguém vive uma experiência que tenha significado, esse alguém está a ser automaticamente entretido».

Após viver mais de vinte anos em Inglaterra, por que razão esse país ainda não entra no imaginário das suas canções? «Porque sou americano e o que sou está ligado à paisagem e à geografia americana. Nada aqui em Inglaterra me desperta verdadeiras paixões, é uma terra estrangeira. A paisagem americana fala comigo. Todas as outras paisagens falam comigo numa língua estrangeira que não entendo. Como a Inglaterra, que não é a América. A língua não é a mesma, as tradições não são as mesmas. Mas gosto dos ingleses (risos). Às vezes».

Como vê a América politicamente? «Não gosto muito de músicos que abordem questões políticas. Os músicos são a última classe à qual se deve confiar alguma coisa. Politicamente, a América mantém-se: há pessoas que são eleitas, há outras que não são. Pessoalmente, considero o George W Bush um homem decente. Não me importo nada que ele seja político. Ele parece ser um homem bom e honesto, por essa razão os americanos gostam dele. O resto é política».

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