ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Monday, May 5, 2008
NO MEU CINEMA: DOIS ÍCONES NOVA-IORQUINOS
Despedi-me desta edição do IndieLisboa vendo dois documentários sobre duas referências da música popular urbana: Patti Smith e Lou Reed.
Guardo com mais carinho o filme sobre Patti, Dream of Life, de Steven Sebring. A dedicação de 11 anos do documentarista permitiu um belo pedaço de cinema sobre a vida real de Patti Smith: música, livros, as desventuras da vida. Ali está um ser especial e generoso. Palpita-me que aquela espiritualidade da cantora poderia ser compatível com uma bela amizade com Joe Strummer, alma boa que o IndieLisboa também exibiu.
Como me parece que vai ser impossível estar ao mesmo tempo no Passeio Marítimo de Algés (a ver Leonard Cohen) e no Campo Pequeno (a ver Lou Reed) no dia 19 de Julho, achei obrigatório compensar essa ausência do dom da omnipresença vendo o filme-concerto Lou Reed’s Berlin, de Julian Schnabel (que convivia no círculo de Andy Warhol), que tem tudo a ver com o que se vai passar na digressão que o traz: a interpretação ao vivo da sua obra mais ambiciosa, Berlin, acompanhado por uma orquestra. O filme, demasiado estático, não compensou de todo.
Vivo ainda, como outras 3 mil pessoas, a ressaca de uma noite memorável de domingo no Coliseu dos Recreios por culpa de Patti Smith. Sem dúvida um dos concertos da minha vida.
Ultrapassado a custo o pasmo, e escusando-me a fazer uma descrição minuciosa de uma actuação com demasiadas incidências para isso, destaco 7 situações que muito dizem sobre a dimensão da senhora, numa ordem cronológica grosseira.
Momento 1 - Lenny Kaye, o seu guitarrista de há muito, tem os seus minutos de protagonismo vocal. Patti Smith ultrapassa o grande palco e começa a dançar sozinha junto das filas da frente. Dança freneticamente e bem com a garra de uma miúda de 16 anos. A multidão entusiasma-se e levanta-se. E consegue acompanhá-la. Patti Smith estava a declarar-se uma fã daquela banda com quem tocava. Àquilo chama-se de camaradagem. Foi bonito.
Momento 2 - Patti Smith nunca esquece os amigos. Nunca. Homenageia-os com palavras de um calor humano que nunca se esgota porque a alma de Patti é um poço que não tem fundo. Como aconteceu com Tom Verlaine (o líder dos Television) e o mítico bar nova-iorquino CBGB antes de tocar a velhinha canção «We Three». Os grandes momentos e as grandes bandas com quem Patti Smith se cruzou contarão com o agradecimento perpétuo.
Momento 3 - a força brutal da ode poética de Patti Smith a Kurt Cobain dirigido aos céus, na parte final de uma versão arrasadora de «Smells Like Teen Spirit», a música charneira dos Nirvana. Fiquei boquiaberto.
Momento 4 - a plateia do Coliseu estava composta por cadeiras, como que preparada para alguma ópera. O espectador que se sensibilizasse mais e se levantasse para prestar tributo à grandeza do que ouvia, era de imediato convidado a sentar-se por um empregado de fato e gravata mais zeloso. Típico. Normal. Mas estávamos num concerto de Patti Smith e fronteiras (limitações, timidez, vergonha) não são muito com ela. Abandona uma das músicas a meio - «Dancing Barefoot» -, a banda é obrigada a inventar uma fase instrumental mais prolongada, e aquela mulher magra de cabelos grisalhos percorre sozinha todos os corredores da plateia, acena e cumprimenta todos os espectadores e, debaixo das luzes altas do Coliseu, levanta toda uma sala que nunca mais fica no lugar.
Momento 5 - a conjuntura é esta: uma sociedade cada vez mais medrosa e oligárquica que engole silenciosamente o crescimento de desigualdades. Cada vez menos direitos e menos liberdades. E um poder de dissuasão terrível: o desemprego ou a sua ameaça. Por isso, o discurso de Patti Smith anti-«Starbucks» e contra as grandes corporações que dela ouvimos no domingo tem um impacto muito maior hoje do que em 1975, quando se revelou ao mundo com a sua obra-prima Horses. Aquilo que ela diz não é poesia, é a verdade. É por isso que Patti Smith não perde a sua importância e renova o seu público (como se viu no Coliseu): porque é destemida. O seu discurso não está sustentado em vacuidades porque é demasiado realista.
Momento 6 - «Gloria»! Eu no balcão lateral, os que me rodeavam e todos os outros já não só estávamos de pé, já não só dançávamos. Pulávamos, num estado anímico alterado pelo encadeamento do crescendo daquela música, de outras que se ouviram e que se iriam ouvir («Because the Night», «Ghost Dance», «People Have the Power», «Rock N Roll Nigger»). Patti Smith é uma das poucas que pode sempre puxar mais um bocadinho por uma música, sabe abusar dela dando-nos vontade de que ela não acabe. A glória do momento pode sempre subir um bocadinho mais alto. A seguir a um pico alto, pode-se galgar para um pico ainda maior… E Patti Smith novamente de punhos erguidos.
Momento 7 - Patti Smith pega no seu casaco e lança-o sobre as costas, despedindo-se de um público que sente ser seu compatriota espiritual (como disse noutro discurso sentido). É um momento ad eternum aquele: com aquele ar cuidadamente descuidado - figura esguia de ar atraentemente assexuado, cabelos desgrenhados, t-shirt simples, calças jeans, botas e o casaquinho à mão - que sobrevive tão fresco e carismático quanto a sua música. Até à próxima.
NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #11: PATTI SMITH, PAV. CARLOS LOPES, LISBOA (2001)
2ª edição do Número Festival. O cartaz de música electrónica estava interessantíssimo (Fisherspooner, Miss Kittin, Bentley Rhytm Ace). E gente com história na música urbana portuguesa, como Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) e Flak (Rádio Macau), mostrava à massa de curiosos um paralelismo mais maquinal, através de novos projectos que soavam excitantes como os Mécanosphère (no caso de Adolfo) e os Micro Audio Waves (no caso de Flak).
Mas no meio do turbilhão criativo digital, um grande parêntesis: Patti Smith. O seu arsenal era outro, de demarcação psicológica. Livros de Pessoa (lidos em interlúdios de spoken word), outras palavras (algumas delas suas), o namorado ao lado com a guitarra acústica, as canções, os clássicos, e ao alto o punho cerrado. Dela. Foi um furacão humano que passou e arrasou.
Patti Smith regressa a Portugal, para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 28 de Outubro.