ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Friday, August 10, 2007
REGRESSO MARCADO PARA SETEMBRO
O ocupante vai estar longe dos fios e dos monitores, bem precisa.
Para os que podem, vejam Ornette Coleman na Gulbenkian que eu também não - só fiz o aquecimento com o delicioso documentário sobre o músico, Made in America de Shirley Clarke (uma homenagem provocadora e desalinhada à sua música), que ontem vi na Sala Polivalente da Gulbenkian.
Ou então encaminhem-se para Paredes de Coura que eu também não (também não posso).
O descanso de Verão tem duas concepções filosóficas, ambas legítimas: o do turista e o do viajante. O primeiro prefere a segurança de hábitos rotineiros (se for para a praia) ou de um pacote em que sabe de antemão o que vai fazer exactamente em cada dia (se for em excursão). O segundo dá prioridade à aventura e à surpresa, estando aberto a tudo, incluindo às contingências. O turista, quando parte, já tem as folhas do diário quase todas escritas; no momento de embarque, as folhas do diário do viajante estão quase todas por escrever.
O festival Rock in Rio Lisboa tem um perfil turístico e cumpre-o muito bem. O programa é uma confortável repetição do itinerário da edição anterior para agrado de toda a família.
Os 3 grandes festivais deste Verão (se excluirmos o Oeiras Alive! e o incluirmos na estação pertencente) estão rendidos ao conceito de viajante - que a minha disposição meramente pessoal saúda. Os seus cartazes estão à altura de um público ávido pela descoberta, sempre disponível e atento à novidade, e bem preparado para os altos e baixos que vierem do palco. Ainda que o programa de Paredes de Coura esteja incompleto, estamos diante de três cartazes bastante dignos.
Festival SBSR (Parque Tejo, Lisboa)
03 de Julho
00h00-01h30: Arcade Fire
22h25- 23h40: Bloc Party
21h05-22h05: Magic Numbers
19h45-20h45: Klaxons
18h35-19h25: The Gift
17h30-18h15: Bunnyranch
17h00-17h15: Banda Pre-Load
04 de Julho
00h20-01h35: LCD Soundsystem
22h45-00h00: The Jesus & Mary Chain
21h25-22h25: Maximo Park
20h05- 21h05: The Rapture
18h45-19h45: Clap Your Hands Say Yeah
17h45-18h25: Linda Martini
17h00-17h30: Mundo Cão
05 de Julho
00h45-00h02: Underworld
23h05-00h25: Interpol
21h20-22h35: Scissor Sisters
20h10-21h00: Tv On The Radio
19h05-19h50: The Gossip
18h10-18h50: X-Wife
17h35-17h55: Micro Audio Waves
17h00-17h20: Anselmo Ralph
Festival Sudoeste
2 de Agosto
PALCO TMN
Damian Marley
Editors
Gilberto Gil
Mayra Andrade
I’m from Barcelona
Cassius (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Rui Vargas
The Noissetes
Camera Obscura
Ojos de Brujo
3 de Agosto
PALCO TMN
Cypress Hill
The Cinematics
Just Jack
Outlandish
Armandinho
Buraka Som Sistema (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Mary Ann Hobbs
Bonde do Rolé
Data Rock
Balla
Os Lambas
Nastio
POSITIVE VIBES
General Levy + Robbo Ranx
Steel Pulse
Soldiers of Jah Army
Manif3stos
4 de Agosto
PALCO TMN
Groove Armada
The Streets
Sam The Kid
Sérgio Godinho
Air Traffic
Australian Pink Floyd (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Koop
Patrick Wolf
Sondre Lerche
Sonic Junior
Vanessa da Mata
Tiago Bettencourt
Eta Carinae
POSITIVE VIBES
Sounds Portuguese
Saian Supa Crew
Martin Jondo
Stepacide
5 DE AGOSTO
PALCO TMN
James
Mika
Phoenix
Razorlight
Babylon Circus
TENDA PLANETA SUDOESTE
The National
Of Montreal
Trail Of Dead
Tara Perdida
2008
Rui Vargas
Stereo Addiction
POSITIVE VIBES
Pow Pow Movement
Tiken Jah Fakoly
Yellowman
Alioune K
Festival de Paredes de Coura (os nomes até hoje confirmados)
Dia 12
Devotchka
Dia 13
Mando Diao
Sparta
Blasted Mechanism
Dia 14
Dinosaur Jr.
New York Dolls
Mão Morta
Architecture In Helsinki
Gogol Bordello
Spoon
Dia 15
Sonic Youth
Cansei de Ser Sexy
Sunshine Underground
Electrelane
Nas fotos, de cima para baixo: TV on the Radio, Camera Obscura e Electrelane.
NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #10: FESTIVAL PAREDES DE COURA DE 2005
Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano.
O movimento de gentes era saudável. Nunca, num festival português, me havia cruzado com tantos estrangeiros (sobretudo espanhóis), nem nunca havia sentido tanto frenesim das pessoas em descobrir bandas novas. À semelhança do que constatava lá fora, em Paredes de Coura a música esteve primeiro, e a razão da peregrinação da maior parte daqueles festivaleiros dependeu do conteúdo musical do evento e não de um gozo meramente lúdico. Havia felicidade no ar, alimentada e regenerada pelos sons que saíam do palco e que obrigavam a uma descida naquele anfiteatro natural bem maior do que o inicialmente calculado - e foram várias as vezes que acabei colado ao palco.
Cheguei ouvindo elogios convictos sobre a actuação do duo Death From Above 1979. Os !!! não me deram tempo para ficar triste quanto à perdida anterior, absolutamente intrigado que estava a ficar com aquela fusão nos mesmos acordes do som cortante e matemático da Factory com a animação “disco” de um clube nova-iorquino dos anos 70. O nível de motim manteve-se com os Kaiser Chiefs, meninos foliões da pop britânica com queda para óptimos refrões e criação de hits, e nem o tropeção que pôs a coxear o saltitante vocalista Ricky Wilson, qual Damon Albarn dos velhos tempos, quebrou o humor e o embalo daquele entusiasmado set. A actuação mais maquinal dos Bravery reduziu o nível de empatia registado até então entre palco e audiência, mas não baixou o profissionalismo, rigoroso, do grupo nova-iorquino, que não deixou passar nada do melhor da pop britânica dos anos 70/80 que figura na árvore genealógica dos Kraftwerk (Gary Numan, Human League, Depeche Mode). Quando a música se reduziu à mera vertente física, com os Foo Fighters, uma das cabeças que já não lá estava era a minha.
Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.
Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.
De cima para baixo: Nick Cave, !!!, Kaiser Chiefs (momento em que Ricky Wilson torce o pé), Pixies, Woven Hand e Arcade Fire (as duas últimas músicas do concerto).