OUTRA EXCITAÇÃO: SCARLETT JOHANSSON, «ANYWHERE I LAY MY HEAD»
“Pá, vai para cantora!”: duvida-se que Scarlett Johansson alguma vez tenha ouvido este conselho durante a sua fase de crescimento. Figuras tão diversas de um divisão musical superior como Bob Dylan, Joe Strummer (líder dos Clash) ou Ian Brown (vocalista dos Stone Roses), escolhidas aleatoriamente só para exemplificação, também não devem ter recebido este conselho durante a sua adolescência.
Ninguém ousará colocar Scarlett Johansson no mesmo campeonato musical de Dylan, Strummer ou Brown, mas os quatro têm dois pontos em comum essenciais: além de não terem sido abençoados com uma grande voz, são personagens cool. A aura que as suas personalidades transportam para as músicas respectivas são demasiado fascinantes para não relegarem para uma questiúncula mesquinha a limitação natural das suas cordas vocais.
A pop, no seu sentido global, também sabe retirar a vantagem de ser a música mais democrática do mundo. Há espaço para todos serem louvados: os com grande voz e os sem ela; os com formação musical e os sem ela. E por isso é permitido a bandas como os Sex Pistols (limitados a 3 acordes) gozarem o mesmo espaço mediático que um Eric Clapton (rapaz instruído musicalmente). É essa a grandeza da pop. E nela cabem as aventuras musicais de uma celebridade como a actriz Scarlett Johansson.
Para o álbum que motiva este artigo, a grande sex-symbol da presente década escolheu a dedo o músico de quem pretendia fazer um álbum de versões. Nada mais, nada menos que Tom Waits, lenda viva americana que permite a imediata comunicação entre música e cinema, da música para o cinema. E agora, desde Anywhere I Lay My Head, Tom passou a ter um correspondente, do sexo oposto, que o homenageia, comunicando do cinema para a música.
Tendo como produtor e braço-direito David Sitek (dos TV on the Radio) e sendo apadrinhado em duas das dez versões pela voz acompanhante de David Bowie, Scarlett Johansson desilude os voyeuristas da desgraça que aguardavam mais um espalhanço de uma figura do cinema no campo da música.
Scarlett Johansson dá o corpo e a voz pela saudável metamorfose de canções que pareciam muito bem num habitat macabro e muito terreno, o de Tom Waits, e que agora passam para um cenário etéreo e não-táctil, de música pouco tocada e de canções pouco cantadas. A partir de cautelas que contornem as fraquezas de Scarlett Johansson, Anywhere I Lay My Head ganha o mérito estético de ser um álbum meticulosamente calculado e pensado.
Tudo isto dá um charme fugidio geral ao disco, em que cada tema soa a uma passagem circunstancial impossível de se agarrar, como se fosse um sonho. Por cima de um ruido de teclados e de guitarras, ecoa a voz evasiva de Scarlett Johansson (e uma breve participação vocal de Bowie de um universo sensorial ainda mais longínquo, na categoria de fantasma de que apenas se pressente e não se vê), num contexto musical que cita a pop idílica dos Cocteau Twins, a eletro-pop amosférica dos Orchestral Manoeuvres in the Dark e o romantismo sónico de bandas shoegazer como os My Bloody Valentine.
Quem não tiver uma noção de apreciação meramente técnica e se render às noções conceituais da música dos This Mortal Coil, às orgias visuais dos filmes de David Lynch ou até à película de Sofia Coppola, Lost in Translation, que cotou Scarlett Johansson para um nível irreversível de credibilidade, está habilitado a gostar deste álbum.
Anywhere I Lay My Head tem, aliás, muito de Lost in Translation. A estrutura narrativa evasiva da longa-metragem, a noção de amor impossível entre os dois personagens principais e a muralha de distorções dos Jesus & Mary Chain que assinala parte da banda sonora, encontram grande compatibilidade artística com este exercício musical de Scarlett Johansson.
A actriz soube dar um toque feminino a canções habituadas a tonalidades mais escuras, envolvendo-as em tons rosados. E venceu o exame de submissão pontual ao novo mundo da música. (Warner, 2008)

Os R.E.M. colocaram rock & roll no despertador e acordaram. No álbum anterior, Around the Sun (2004), o trio norte-americano não foi rigoroso em relação à origem do nome: falamos do rápido movimento de olhos que corresponde à fase cerebral mais activa do sono, onde ocorrem os sonhos mais fortes. A banda foi apanhada em Around the Sun num momento de hibernação mais vegetal, em que produziu um álbum ausente, mais aborrecido que calmo e, lástima para qualquer fã dos REM, sem uma única grande canção. O disco nunca desperta.

Accelerate é o regresso mais genuíno dos REM ao seu percurso dos anos 80, como nunca aconteceu desde Out of Time (1991). O frenesim eléctrico da maioria das faixas de Accelerate (como ‘Horse to Water’, ‘I’m Gonna DJ’ ou o tema-título do álbum) é reconhecível naquela vontade de conquistar o mundo audível em Green (1988). E mesmo as canções pop mais contemplativas (’Hollow Man’ ou ‘Houston’) são viagens directas ao tempo dos serões de tarde melancólicos que produziram pérolas como Lifes Rich Pageant (1986) ou Document (1987).
Toumani Diabaté, The Mandé Variations

Gnarls Barkley, The Odd Couple (Atlantic, 2008)
Young Knives, Superabundance (Transgressive, 2008) 
A Naifa, Uma Inocente Inclinação para o Mal (Lisboa, 2008)
Nick Cave & The Bad Seeds, Dig!!! Lazarus Dig!!! (Mute, 2008)
Joe Higgs, Life of Contradiction (Pressure Sounds, 1975)
A recém-divorciada Jill Scott encheu-se de coragem e foi ao confessionário em que mais confia: o estúdio de gravação. Os resultados estão à vista, são impressionantes, e aproximam-na, como nunca, da rota sentimental de What’s Going On de Marvin Gaye.
Depois, vem o resto. E o resto trata de memórias, lamentos do desconforto da cama fria e esperanças vãs. Tudo isso é sacudidinho em melodias soul, nas quais Jill Scott transforma o ex-companheiro num El-Rei D. Sebastião por quem se espera que apareça debaixo de algum nevoeiro.