Sunday, May 18, 2008

OUTRA EXCITAÇÃO: SCARLETT JOHANSSON, «ANYWHERE I LAY MY HEAD»

                                                            “Pá, vai para cantora!”: duvida-se que Scarlett Johansson alguma vez tenha ouvido este conselho durante a sua fase de crescimento. Figuras tão diversas de um divisão musical superior como Bob Dylan, Joe Strummer (líder dos Clash) ou Ian Brown (vocalista dos Stone Roses), escolhidas aleatoriamente só para exemplificação, também não devem ter recebido este conselho durante a sua adolescência.

Ninguém ousará colocar Scarlett Johansson no mesmo campeonato musical de Dylan, Strummer ou Brown, mas os quatro têm dois pontos em comum essenciais: além de não terem sido abençoados com uma grande voz, são personagens cool. A aura que as suas personalidades transportam para as músicas respectivas são demasiado fascinantes para não relegarem para uma questiúncula mesquinha a limitação natural das suas cordas vocais.

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A pop, no seu sentido global, também sabe retirar a vantagem de ser a música mais democrática do mundo. Há espaço para todos serem louvados: os com grande voz e os sem ela; os com formação musical e os sem ela. E por isso é permitido a bandas como os Sex Pistols (limitados a 3 acordes) gozarem o mesmo espaço mediático que um Eric Clapton (rapaz instruído musicalmente). É essa a grandeza da pop. E nela cabem as aventuras musicais de uma celebridade como a actriz Scarlett Johansson.

Para o álbum que motiva este artigo, a grande sex-symbol da presente década escolheu a dedo o músico de quem pretendia fazer um álbum de versões. Nada mais, nada menos que Tom Waits, lenda viva americana que permite a imediata comunicação entre música e cinema, da música para o cinema. E agora, desde Anywhere I Lay My Head, Tom passou a ter um correspondente, do sexo oposto, que o homenageia, comunicando do cinema para a música.

Tendo como produtor e braço-direito David Sitek (dos TV on the Radio) e sendo apadrinhado em duas das dez versões pela voz acompanhante de David Bowie, Scarlett Johansson desilude os voyeuristas da desgraça que aguardavam mais um espalhanço de uma figura do cinema no campo da música.

Scarlett Johansson dá o corpo e a voz pela saudável metamorfose de canções que pareciam muito bem num habitat macabro e muito terreno, o de Tom Waits, e que agora passam para um cenário etéreo e não-táctil, de música pouco tocada e de canções pouco cantadas. A partir de cautelas que contornem as fraquezas de Scarlett Johansson, Anywhere I Lay My Head ganha o mérito estético de ser um álbum meticulosamente calculado e pensado.

alt : http://www.youtube.com/v/oqzwWtJvHvw&hl=en

Tudo isto dá um charme fugidio geral ao disco, em que cada tema soa a uma passagem circunstancial impossível de se agarrar, como se fosse um sonho. Por cima de um ruido de teclados e de guitarras, ecoa a voz evasiva de Scarlett Johansson (e uma breve participação vocal de Bowie de um universo sensorial ainda mais longínquo, na categoria de fantasma de que apenas se pressente e não se vê), num contexto musical que cita a pop idílica dos Cocteau Twins, a eletro-pop amosférica dos Orchestral Manoeuvres in the Dark e o romantismo sónico de bandas shoegazer como os My Bloody Valentine.

Quem não tiver uma noção de apreciação meramente técnica e se render às noções conceituais da música dos This Mortal Coil, às orgias visuais dos filmes de David Lynch ou até à película de Sofia Coppola, Lost in Translation, que cotou Scarlett Johansson para um nível irreversível de credibilidade, está habilitado a gostar deste álbum.

Anywhere I Lay My Head tem, aliás, muito de Lost in Translation. A estrutura narrativa evasiva da longa-metragem, a noção de amor impossível entre os dois personagens principais e a muralha de distorções dos Jesus & Mary Chain que assinala parte da banda sonora, encontram grande compatibilidade artística com este exercício musical de Scarlett Johansson.

A actriz soube dar um toque feminino a canções habituadas a tonalidades mais escuras, envolvendo-as em tons rosados. E venceu o exame de submissão pontual ao novo mundo da música. (Warner, 2008)

Texto publicado no site Cotonete.

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Thursday, May 15, 2008

UMA EXCITAÇÃO RECENTE: R.E.M., «ACCELERATE»

                                                                             Os R.E.M. colocaram rock & roll no despertador e acordaram. No álbum anterior, Around the Sun (2004), o trio norte-americano não foi rigoroso em relação à origem do nome: falamos do rápido movimento de olhos que corresponde à fase cerebral mais activa do sono, onde ocorrem os sonhos mais fortes. A banda foi apanhada em Around the Sun num momento de hibernação mais vegetal, em que produziu um álbum ausente, mais aborrecido que calmo e, lástima para qualquer fã dos REM, sem uma única grande canção. O disco nunca desperta.

alt : http://www.youtube.com/v/SXYI_RwyNOs&hl=en

Accelerate é diferente, tem a entrega física de um álbum do tudo ou nada. A guitarra eléctrica de Peter Buck volta a estar bem amplificada, a bateria recupera a teimosia de outros tempos e o vocalista Michael Stipe passa a ter mais dificuldades em segurar o microfone no mesmo sítio. Accelerate é um disco de alta pressão, gravado em tempo ‘record’, dentro dos parâmetros de uma banda punk (menos de um mês, sem contar com as misturas que também não duraram muito). Os REM sentiram-se sacudidos pela indiferença de Around the Sun, e que bem o desabafaram.

Mas a transpiração de Accelerate tem uma companhia essencial para os elogios: a inspiração. Ainda para mais num disco eléctrico, ao qual os REM sabem acrescentar sempre aquela meiguice pop com direito a marca de autor. Ter sobre aquela execução musical rude a poderosa voz de Michael Stipe, é como iluminar o dinamismo rockeiro com uma sensibilidade pop transcendente. Os corinhos do baixista Mike Mills a adocicar os refrões são o golpe de asa que falta para assegurarem o voo do rock para a pop ao modo rápido de servir de Accelerate.

alt : http://www.youtube.com/v/fY-1XM3M79s&hl=en

Será este álbum o verdadeiro sucessor do seu concorrente eléctrico Monster (1994)? Não. Monster é antes uma reflexão pós-grunge e uma reposta espiritual à morte imprevisível do amigo de Stipe, Kurt Cobain (o mítico líder dos Nirvana) - há uma façanha paralela de Neil Young nesse ano, Sleeps with Angels, que consegue ser ainda melhor.

Accelerate é o regresso mais genuíno dos REM ao seu percurso dos anos 80, como nunca aconteceu desde Out of Time (1991). O frenesim eléctrico da maioria das faixas de Accelerate (como ‘Horse to Water’, ‘I’m Gonna DJ’ ou o tema-título do álbum) é reconhecível naquela vontade de conquistar o mundo audível em Green (1988). E mesmo as canções pop mais contemplativas (’Hollow Man’ ou ‘Houston’) são viagens directas ao tempo dos serões de tarde melancólicos que produziram pérolas como Lifes Rich Pageant (1986) ou Document (1987).

Será Accelerate um álbum com um estado de espírito nostálgico? Não se sabe. O rock está a ficar sem data e subiu há muito um degrau para a escala de intemporal, graças a bandas da estatura dos R.E.M., que ao fim de mais de 25 anos ainda conseguem produzir álbuns da envergadura deste. (Warner Bros, 2008)

alt : http://www.youtube.com/v/S94URHnInB0&hl=en

Texto publicado no Cotonete no dia 4 de Abril.

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Monday, May 12, 2008

OUTRAS EXCITAÇÕES

Por ordem decrescente de preferência, seguem-se outros entusiasmos das últimas semanas.

Toumani Diabaté, The Mandé Variations

Regresso do músico maliano ao berço, ao começo da carreira a solo, num reencontro a sós com o kora (o instrumento tradicional de cordas da região mandé, zona centro-oeste de África) mais de vinte anos depois, mas com o complemento dos relatos das suas experiências trans-fronteiriças, incluindo o jazz. (World Circuit, 2008)

Pode ler artigo desenvolvido no Cotonete, publicado no dia 11 de Abril.

alt : http://www.youtube.com/v/-hVZ96W61Eo&hl=en


Rolling Stones, Shine a Light

Banda sonora ao vivo do filme-concerto de Martin Scorsese, e o retrato íntimo entre os Rolling Stones e o seu talento, sem as distracções do circo megalómano dos concertos de estádio. (Polydor, 2008)

Pode ler artigo desenvolvido no Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/276YvPgwGQA&hl=en


Billy Bragg, Mr. Love & Justice

Mais um valente reforço de canções para o respeitável reportório do folk-rocker britânico, mesmo que com a sensação de alguma redundância. (Cooking Vinyl, 2008)

Pode ler artigo desenvolvido no Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/o1tuQ8wKZrY&hl=en

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Monday, April 28, 2008

OUTRAS EXCITAÇÕES

Por ordem decrescente de preferência, seguem-se outras excitações recentes.

Gnarls Barkley, The Odd Couple (Atlantic, 2008)

Depois do êxito retumbante de «Crazy» e do álbum correspondente, St. Arkansas, o festim de música negra dos Gnarls Barkley ainda não arrefeceu. O sucesso de há dois anos por parte destes progressistas da soul merece sequela.

Pode ler artigo desenvolvido no site do Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/2GA3a15xF0c&hl=en

Young Knives, Superabundance (Transgressive, 2008) 

Do curioso filtro punk da herança pop dos Kinks aos coros militantes ao estilo militarizado dos Adam & The Ants, eis a segunda dose longa de falsos épicos ao melhor estilo tonto dos Monty Python. É difícil encontrar melhores caloiros dentro do indie britânico dos últimos cinco anos que os Young Knives.

Pode ler artigo desenvolvido no site do Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/-Yrlgg8Lzi0&hl=en

The B-52’s, Funplex (Astralwerks, 2008) Os costumes sci-fi-surf-billy mantêm-se, sem rupturas revolucionárias, mas também sem qualquer contraste pálido com a primeira vida. O peso da idade fica guardado para as imagens porque o som corre com a mesma garra jovem.
Pode ler artigo desenvolvido no site do Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/qEXUqWK8A4I&hl=en

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Wednesday, April 23, 2008

EXCITAÇÕES RECENTES

A Naifa, Uma Inocente Inclinação para o Mal (Lisboa, 2008)

O laboratório sonoro de portugalidade continua fascinante, apesar do débito de grandes canções.

Pode ler artigo desenvolvido no Cotonete, publicado no dia 2 de Abril.

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Sunday, April 20, 2008

EXCITAÇÕES RECENTES

                                                                     Nick Cave & The Bad Seeds, Dig!!! Lazarus Dig!!! (Mute, 2008)

Agora que o homem e o seu gangue vêm aí, relembre-se a obra que o traz: mais uma prova de forma do período pós-Blixa Bargeld (2004- ), mesmo que a menos eloquente de todas.

Pode ler artigo desenvolvido no site Cotonete, publicado no dia 4 de Março.

alt : http://www.youtube.com/v/4k2Hf6Vc2FE&hl=en

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Thursday, April 17, 2008

EXCITAÇÕES RECENTES: UMA REEDIÇÃO HISTÓRICA

Joe Higgs, Life of Contradiction (Pressure Sounds, 1975)

A obra-prima do pai do reggae, cuja influência na música foi bem maior que a carreira.

Pode ler artigo desenvolvido no site Cotonete, publicado no dia 29 de Fevereiro.

alt : http://www.youtube.com/v/Mi7JiJvfCbU&hl=en
Vídeo YouTube: «There’s a Reward»

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Wednesday, April 16, 2008

EXCITAÇÕES RECENTES

Kumpania Algazarra, Kumpania Algazarra (Ed. Autor, 2007)

A festa nómada dos ciganos modernos.

Pode ler artigo no site Cotonete, publicado no dia 22 de Fevereiro.

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Monday, April 14, 2008

EXCITAÇÕES RECENTES

Duffy - Rockferry (A&M, 2008)

Um sentido de mistério que finta épocas e uma voz sedutora colocam-na adiante da talentosíssima Adele e aproximam-na da transcendência de Amy Winehouse.

Uma das pérolas do ano que, felizmente, o grande público está a reconhecer.

Pode ler artigo mais desenvolvido no site Cotonete, publicado no dia 14 de Março.

alt : http://www.youtube.com/v/zlcRRnbqS8Y&hl=en

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Monday, January 21, 2008

OUTRA EXCITAÇÃO: JILL SCOTT, «THE REAL THING: WORDS AND SOUNDS VOL. 3»

                                                                                                      A recém-divorciada Jill Scott encheu-se de coragem e foi ao confessionário em que mais confia: o estúdio de gravação. Os resultados estão à vista, são impressionantes, e aproximam-na, como nunca, da rota sentimental de What’s Going On de Marvin Gaye.

O seu terceiro volume de canções aparece banhado em lágrimas e sem a folia dos dois álbuns anteriores, com um poder afrodisíaco mais sustentado no desejo e na saudade do que no acontecimento prático.

Quando Jill Scott sai para o flirt, numa procura condenada à partida ao fugaz, o botão do r&b do disco é então ligado, e aí os beats voltam-se a ouvir e o ritmo emerge.

Depois, vem o resto. E o resto trata de memórias, lamentos do desconforto da cama fria e esperanças vãs. Tudo isso é sacudidinho em melodias soul, nas quais Jill Scott transforma o ex-companheiro num El-Rei D. Sebastião por quem se espera que apareça debaixo de algum nevoeiro.

Enquanto ficamos a saber tudo sobre o período pós-conjugal de Jill, somos entretidos pela sensualidade da sua confidência: canções de pulmão inteiro e uma melancolia com garras.

The Real Thing eterniza uma verdadeira diva soul em toda a dimensão, porque não há filtragem entre os seus sentimentos mais íntimos e o que canta. Tudo desaba e desabafa na soul. Verdadeira e sem rodeios, como o título do álbum adverte. (Hidden Beach, 2007)

alt : http://www.youtube.com/v/Qw3Z8Oa7E3Y&rel=1

Vídeo: «Hate on Me»

Texto publicado no Cotonete.

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