OS BLUES, OS MAUS & OS VILÕES: AS LENDAS
Aquele que é tido como o maior músico de blues de sempre, Robert Johnson (1911-38), é o que acumula o maior número de lendas em seu torno, fruto de uma vivência radical e misteriosa nos circuitos rurais dos míticos “juke joints”. A falta de documentos - só se lhe conhecem três fotografias - adensam o mistério e alimentam os enigmas sobre a figura. A lenda mais célebre, popularizada pelo seu mestre Son House com quem tocou em inúmeros “juke joints”, é a de que Johnson terá feito um pacto com o demónio em troca do talento para os blues. Ike Zinnerman, outro dos seus mestres, propagou o mito de que ensinou Robert Johnson a tocar guitarra num cemitério à noite, por cima de uma sepultura. Quanto ao “olho de diabo” que se dizia que Robert Johnson tinha, há uma explicação mais prática: uma pequena catarata na vista esquerda.
Sleepy John Estes (1899-1977), ícone do country-blues, devia o seu nome de Sleepy à lenda de que conseguia dormir em pé - mas havia uma razão de saúde mais prosaica, a baixa pressão sanguínea levava-o a passar-se para o outro lado.
Uma das histórias que corre sobre a razão da cegueira aos 7 anos de idade de Blind Willie Johnson (1902-1950)- que fundiu o gospel e o blues como poucos - narra que a sua madrasta atirou à vista do miúdo água de lixívia como vingança de uma sova que sofreu do pai do músico.
O desaparecimento sem rasto de um dos grandes pioneiros dos blues Blind Blake (189?-1933) após uma sessão de gravações para a Paramount em Junho de 1932, deu azo a uma série de especulações. Uns alvitram que morreu de frio numa noite gélida. Outros defendem que foi a bebida (Blind Blake também era alcoólico) que o matou. Rumores de um assalto mortal de que Blake fora vítima numa rua de Chicago, ou de um atropelamento por um automóvel em Atlanta, são outras teses que só aumentam o mistério do seu desaparecimento.
Outro desaparecimento misterioso foi o de Blind Lemon Jefferson (1893-1929), outro dos fundadores do blues, que levantou várias teses. As mais fortes são: a de não ter sobrevivido a um nevão e ter morrido na rua; e a de ter sido largado no assento de trás de um carro pelo motorista, após um ataque cardíaco.
Fotos: Robert Johnson (em cima) e Blind Lemon Jefferson (em baixo)
Texto publicado no site Cotonente.
Os “bluesmen” contornaram condições desfavoráveis de pobreza e racismo com todas as suas virtudes musicais.
Sempre foi impressionante na história dos blues o contraste entre a falta de perspectiva de carreira e o enorme talento de muitos destes músicos.
Muitas outras histórias de vida tocantes aconteceram como o facto de um dos grandes pianistas dos blues como Big Joe Duskin (1921-), ainda vivo, só ter gravado o seu álbum de estreia aos quase 60 anos, depois de ter ganho grande parte da sua vida como polícia e carteiro. Ou Son House (1902-88), um dos maiores bluesmen de sempre, que foi recuperado nos anos 60 para a música depois de desperdiçar vinte anos a trabalhar incógnito na Estacão Central de comboios de Nova Iorque.
Houve até quem tenha coleccionado profissões como Jesse Fuller, um dos últimos grandes “one-man blues band”, que foi pastor de vacas, operário fabril, lenhador, construtor de linhas férreas, sucateiro, tarefeiro da marinha naval, mas também músico de rua.
Nunca faltou irreverência às figuras dos blues. Alguns hábitos questionavam apenas o tempo em que viviam, outros nem por isso.
A mistura dos demoníacos blues com os espirituais de gospel que Ray Charles (1930-2004) engendrou, não ofendeu apenas a comunidade cristã. A fusão que o celebrizou chocou a própria mulher e o universo dos bluesmen.
Nem mesmo o mais calminho John Lee Hooker (1917-2001), detentor de uma das maiores obras de blues, escapou a umas traquinices. Para escapar a obrigações contratuais, coleccionou nomes diferentes. Na editora King chamava-se John Lee Cooker; na Chess era John Lee Booker; na Savoy assinava como Birmingham Sam; na Staff aparecia nos discos como Johnny Williams; na Regent dava a cara como Delta John; na Acorn era The Boogie Man; e na DeLuxe respondia com o nome de Johnny Lee.
O cadastro é pesado e inclui crimes como um assalto à mão armada (que obrigou os seus pais a venderem a sua propriedade para pagarem a defesa), vida a monte durante dois anos usando o nome falso de Walter Boyd, homicídio voluntário, tentativa de homicídio, entre outros crimes. Algumas penas foram pesadas, cumpridas em prisões de alta segurança e amnistiadas através de canções que Leadbelly compôs para os governadores. Nem mesmo quando a vida lhe correu bem largou as escaramuças, tendo inclusive ameaçado de morte Alan Lomax, musicólogo que projectou com o seu pai a carreira de Leadbelly, apontando-lhe uma faca ao pescoço.
A sorte também se virou contra o próprio rebelde. Fatalmente. A estrela de rhythm & blues Johnny Ace (1929-54), em estado embriagado, terminou da pior forma um jogo perigoso de roleta russa em plena noite de Consoada num teatro de Houston, esmagando os miolos da sua cabeça, tragédia que a famosa cantora de blues Big Mama Thornton presenciou.
Os blues afirmaram-se numa América sem lei, através de músicos negros fantásticos que levaram vidas intensas ques davam autênticos filmes.