
A obra de Marc Sandman é das mais colossais da história recente do rock, comprovada num conjunto de álbuns brilhantes ao serviço dos Morphine e dos Treat Her Right, e numa criatividade tão fértil que obrigou a espalhar outras dezenas de temas (senão centenas) de semelhante qualidade por álbuns de tributo, bandas sonoras de filmes, lados-b, além de inúmeras raridades - muitas delas ainda fora do domínio público.
A compilação tripla (de dois CDs e um DVD) de restos Sandbox põe a nu, e de forma brutal, a enorme capacidade de produção do mítico inventor do baixo de duas cordas, retrospectiva das várias formações por que passou (Morphine, Treat Her Right ou os menos conhecidos Hypnosonics, entre outras bandas) que reduz todos os temas aos créditos autorais com o seu nome.
Na mesma série numerosa de músicas que pasmam por não terem sido utilizados para singles (como «Tomorrow») ou para outra natureza igualmente pública, está resguardado para o fim do 2º CD uma experiência sensorial arrasadora, de quase seis minutos, que responde pelo nome de «Middle East», gravada durante os tempos pré-jazzísticos dos Morphine.
A canção em causa mostra uma das coisas que Marc Sandman tinha de melhor: ele era um compositor exímio com experiência no terreno, bem viajado, poliglota, que fez as mais diferentes profissões, que se relacionou com as variadas mulheres e que era imensamente culto. Talvez por isso nunca estranhasse o à-vontade com que abordou ao longo da sua vida o punk, os blues, a folk, o jazz, sempre com um ponto de vista criativo e sabiamente experimental de um homem do rock. Através de impressões pessoais que retirou do seu bloco de notas na sua vivência em Beirute (a capital do Líbano), «Middle East» é uma experiência no fio da navalha, num imaginário de guerra hostil a norte-americanos, acalorada por uma das interpretações vocais intempestivas de Marc Sandman, em metamorfose para lá da pose cool que ajudou a definir o seu low rock.
Ruídos de ambulâncias, de motores de helicópetros e de tiros de metralhadora fazem a mesma música que os desabafos alarmistas da guitarra eléctrica em catarse a seguir errantemente um trajecto infernal pelo rockabilly, num ambiente sonoro que lhe é estrangeiro, orientalizado por um teclado barato e por uma trompete desafinada a simular algum instrumento árabe de sopro mais agudo.
«Middle East» é uma performance em estado de sítio que fabrica, acusticamente, um sismo, e que faz de Marc Sandman um excelente teórico militar que prova ter tido passado de combate.