Monday, February 5, 2007

OLHAR SOBRE 2006: AS IMAGENS

As imagens que mais guardo de 2006 vêm destas cabeças: Miranda July, Pedro Costa, Woody Allen, Sofia Coppola, Jonathan Demme (com o compadrio de Neil Young) e Amadeo de Souza-Cardozo.

FILMES MARCANTES

Me and You and Everyone You Know, de Miranda July

Brilhante retrato da vida familiar americana disfuncional, através de um misto descomprometido entre cinema, arte perfomativa e música. Maravilhoso!

 

 

 

Juventude em Marcha, de Pedro Costa

Este é mais um dia dos restos da tua vida: ao observar o inóspito dia-a-dia do personagem central do filme, Ventura, lembrei-me daquele trocadilho à célebre canção de Sérgio Godinho. Com a dedicação fora-de-horas que um documentarista deve ter, Pedro Costa deixa que seja a realidade a contar a história de um desintegrado africano. A isto, chama-se também cinema de intervenção social. E é muito bom

 

 

Match Point, de Woody Allen

Woody Allen redescobre a criatividade, com uma nova identidade, a britânica, através de uma excelente reflexão sobre a sorte com foco na classe alta londrina. Num filme que vale pelos detalhes, Woody Allen provou que foi até agora o melhor a polir um diamante em bruto: Scarlett Johansson .

 

 

  

Marie Antoinette, de Sofia Coppola

Sofia Coppola aderiu ao lado vencido da história da Revolução Francesa e, mais uma vez, à vida da donzela cercada por estar no local errado, com as companhias erradas.  O vazio narrativo do filme é o triunfo do cinema feminino intuitivo. Para quê dizer-se uma coisa que se sente?

 

 

DVD DO ANO

Heart of Gold, de Jonathan Demme, sobre Neil Young

Mais um extraordinário filme-concerto de Jonathan Demme (depois de ter tratado tão bem os Talking Heads e Robyn Hitchcock), em que a máxima discrição e o olhar cinéfilo milimétrico se estão a transformar numa imagem de marca sua neste género. Desta vez, o autor de Silêncio dos Inocentes (1991) fixa-se num concerto de Neil Young em Nashville, no histórico Ryman Auditorium.

Heart of Gold apanha Neil Young numa fase de descompressão, em que o músico, na ressaca do mais belo álbum dos seus últimos dez anos (Prairie Wind), e de um aneurisma que lhe ia tirando a vida, se encontra mais seduzido pelas raízes country e gospel do que pela electricidade rock dos Crazy Horse.

Heart of Gold é o mais delicioso documento sobre a entrada do rock na terceira idade.

Em youtubês, isto quer dizer:

www.youtube.com/watch?v=NoaIeBdTNpQ&mode=related&search=

EXPOSIÇÃO DO ANO

Amadeo de Souza-Cardozo, na Fundação Calouste Gulbenkian

A maior e mais impressionante exposição do pioneiro da arte moderna em Portugal, com um progresso artístico rapidíssimo que a morte prematura interrompeu. Impressionou-se mais o trabalho de desenho, bem ilustrativo das suas mãos de ouro. O que a arte portuguesa teria ganho se Amadeo de Souza-Cardozo tivesse tido uma duração de vida normal?

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Saturday, February 3, 2007

OLHAR SOBRE 2006: AS NOVAS DICAS

Revelações, para mim, houve sobretudo duas: o enérgico quinteto Tilly & The Wall e o produtor de electrónica Burial.

 

Tilly & The Wall, Bottoms of Barrels

A canção pop encontrou mais uma forma nova de abordagem: a de um invulgar rancho folclórico indie que dá pelo nome de Tilly & The Wall, que além das excelentes harmonias vocais femininas, tem peculiaridades interessantes como a amplificação do sapateado da bailarina do grupo como potencialidade percussiva. 

A criação de algumas das melhores canções de 2006 por parte do grupo norte-americano desvaloriza a enorme inconsistência estética de outras faixas (perdidas em formatos mais supérfluos). Mas o álbum anterior (e estreante), Wild Like Children, nada ficar a dever a Bottoms of Barrels. Pelo contrário, a ainda maior simplicidade de meios só os favorece.

No dia 4 de Abril, lá estarei no Lux para os ver. Os Tilly & The Wall estão apresentados como a banda de 1ª parte do espectáculo dos Cansei de Ser Sexy. Para mim, serão os Cansei de Ser Sexy que farão a 2ª parte do espectáculo dos Tilly & The Wall.

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=XZCZRTcY3uA&mode=related&search=

 

Burial, Burial

Criativamente, o ano de 2006 foi mais generoso para a electrónica do que para o hip hop. O álbum de estreia do produtor londrino Burial denuncia essa percepção, graças à autoria de uma viagem mais cerebral e profunda ao sub-consciente do apocalíptico Maxinquaye (1995) - o disco seminal de Tricky -, ao qual as vozes já não chegam. Burial ajudou a pôr a corrente do dubstep nas bocas do mundo.

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Thursday, February 1, 2007

OLHAR SOBRE 2006: CLASSE SUB-30

Entre a nova fornada, selecciono os Clap Your Hands Say Yeah, os Midlake, os Walkmen, os Young Knives, os Brightblack Morning Light e os Band of Horses para os louvores e para as adjectivações afins.

 

 

 

 

 

 

 

Clap Your Hands Say Yeah, Clap Your Hands Say Yeah

Aquela que é a melhor sucessão de canções do ano passado possui um esplendor na relva muito especial. O pecado de uma influência muito denunciada, os Talking Heads, é cedo perdoado pela frescura de alma e por uma ingenuidade do colectivo nova-iorquino que dá um charme único a uma idade supostamente verde. 

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=HKTEri8FdQQ

 

 

 

 

 

 

 

 

Midlake, The Trials of van Occupanther

Este quinteto texano revelou-se ao mundo com este segundo disco, muito alteado por um rock freak de charme clássico, perfumado por uma sedutora passividade bucólica e por uma predilecção por contos fantásticos. Além de afilhados de Neil Young, os Midlake provaram que podem ser muito mais do que um consolo para os desgostosos com o fim dos Grandaddy.     

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=Un_55LrZnCo

 

 

 

 

 

 

 

 

Walkmen, A Hundred Miles Off

Imaginem Bob Dylan a responder ao novo som punk dos Stooges e dos MC5… Eis os Walkmen, banda que com uma sua curiosidade experimental digna de uns Wire ou de uns Television, voltou a acrescentar novas pistas à sua engrenagem frenética. 

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=WNQVJsbmmp0

 

 

 

 

 

 

 

 

Young Knives, Voices of Animals and Men

Além de ser a melhor estreia britânica da década, Voices of Animals and Men é talvez o álbum mais inglês desde Parklife (1994) dos Blur e Different Class (1995) dos Pulp. O disco do power trio é um trajecto pelo melhor que se fez na música do Reino Unido, desde os Kinks aos Jam, com uma irreverência, um humor e um descomprometimento tão saudáveis.

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=zNuBIohaRf4

 

 

 

 

 

 

 

 

Brightblack Morning Light, Brightblack Morning Light

O segundo disco do grupo americano é um sonho pastoral ininterrupto de cerca de uma hora, uma linha musical contínua de uma ideia espalhada por 10 faixas. Esta continuidade harmoniosa que omite interrupções dá-lhes uma identidade que não os pode reduzir apenas ao freak-folk.

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=Uxz8uucCz2o

 

 

 

 

 

 

 

 

Band of Horses, Everything All the Time

Everything All the Time é o grande álbum que os Flaming Lips não fazem desde The Soft Bulletin (1999): pop psicadélica encantada e grandiosa, em delírio consigo mesma, ainda que elaborada de forma mais orgânica e com os pés mais assentes na Terra.

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=hAZhYX6i5nU

 

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Monday, January 29, 2007

OLHAR SOBRE 2006: VENTOS DA ESCANDINÁVIA

A Suécia continua a exportar talento. Houve dois que me sensibilizaram: Jenny Wilson e Frida Hyvönen.

 

 

 

 

 

 

Jenny Wilson, Love & Youth

Delicioso cruzamento entre Anja Garbarek e Cat Power, com uma sensibilidade pop invulgar e promissora. Love & Youth é o baptismo internacional merecido.

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=ao_NVUCyz-0

 

 

 

 

 

 

Frida Hyvönen, Until Death Comes

Com uma estreia tão poderosa como esta, o destino de Frida Hyvönen é irreversível: uma agenda sobrecarregada de concertos em qualquer parte do planeta à sua escolha, artigos de imprensa às pazadas sempre que lance um álbum, o reconhecimento cada vez maior sempre que faça qualquer coisa. Porque, segundo prenuncia Until Death Comes, dali virá sempre talento.

Com a capacidade de dramatismo de uma Shannon Wright ou de uma Beth Gibbons, mas sempre mantendo uma leveza pop tipicamente sueca, Frida Hyvönen consegue devorar as teclas de piano que toca ao mesmo tempo que nos dá doces.  

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=oNGnLN8plB8

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Thursday, January 25, 2007

OLHAR SOBRE 2006: A MALTA DA FOLK

Dos filhos bastardos da folk, são estes os discos que privilegio.

 

 

 

 

 

 

 

Howe Gelb, Sno Angel Like You

O degelo dos pólos vai prosseguindo, Bush vai-se enterrando no Iraque, Howe Gelb vai fazendo grandes álbuns. Desta vez a grandeza das canções do líder dos Giant Sand encontra par no numero de músicos envolvidos: a participação de um coro gospel. O casamento multi-color correu às mil maravilhas.

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=wj9t6Ujd-f0

 

 

 

 

 

 

 

The Be Good Tanyas, Hello Love

Este trio de meninas canadianas está a tornar-se num caso sério. Baladeiras de ligação umbilical à folk mais tradicional, as Be Good Tanyas apuraram em Hello Love o seu charme natural e a sua lucidez, sabendo tratar temas de Neil Young, Prince, ou o velho bluesman Mississipi John Hurt, com a mesma filtragem de blues-country-pop que lhes é característico. Hello Love, tecido de mistérios, é um álbum de uma só tendência na relação com o ouvinte: o crescimento.

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=v8U_fdiSoaI

 

 

Bonnie Prince Billy, The Letting Go

Conduzia o automóvel com a velocidade disponibilizada por uma A2 toda por minha conta, o pôr-de-sol rematava um dia de semana estupendo, e já tinha por cenário a maravilhosa planície alentejana no regresso do Algarve, enquanto a minha namorada e a minha bebé repousavam num sono sereno lá atrás…

A segunda ou terceira audição deste disco - correspondente ao acto de rendição - não podia ter ocorrido em contexto mais propício. O manto etéreo que cobre The Letting Go (alimentado pelo contraponto vocal feminino de Dawn McCarthy, dos Faun Fables, e pela influência da paisagem lunar islandesa que serviu de base às gravações do disco), e aquela que é uma das melhores colheitas de canções de sempre de Bonnie Prince Billy (também conhecido como Will Oldham, ex-Palace), tornaram ainda mais privilegiada esta sensação de rendição.   

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=8VhOTHHNmKI

 

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Wednesday, January 24, 2007

OLHAR SOBRE 2006: CLASSE SUPRA-30

Entre a classe supra-30, destaco os últimos discos de Beck e dos Mojave 3.

 

Beck, The Information

É quase impossível a proporcionalidade entre a projecção mediática de um artista e a valia do seu trabalho. Que o diga Beck.

Quando em 1999 - na edição de Midnight Vultures - foi olhado como o artista do momento, Beck já não merecia tamanha atenção. Ainda que acabado de fazer um disco em que preenchia os requisitos mínimos, Beck iniciara um caminho de vulgarização, através de uma despersonalização pontual em prol da submissão estética ao seu ídolo Prince.

Hoje Beck é novamente Beck. O músico californiano continua como o grande filósofo branco do ritmo, mas já sem o frenesim e a voracidade dos tempos áureos de Odelay (1996) e de Mellow Gold (1994). Abrandou um pouco (sem perder o diabo no corpo), agarrou conceitos ambientais e de tempo de Brian Eno e deixou a música respirar mais, passando-se a sentir com isso, o perfume de um maior amadurecimento.

Sem darmos muito por isso, Beck fez um dos melhores álbuns do ano.   

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=KGsKb_9eMTs

Mojave 3, Puzzles Like You

Quando a curva descendente dos Mojave 3 parecia um dado adquirido, Neil Halstead (vocalista e líder) surpreendeu e devolveu aos Mojave 3 a dinâmica de banda e as harmonias mistas de vozes masculina e feminina de outrora (ironicamente no período em que a disponibilidade da baixista Rachel Goswell passou a assumir uma maior ambiguidade).

De repente, toda a história de Neil Halstead e seus pares apoderou-se deste disco, recuperando-se o rasto shoegazer da ex-banda Slowdive, sem romper com o trabalho de singer-songwriter folk há muito desenvolvido pelos Mojave 3.

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=4CHbJ2Y2WKU

 

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Tuesday, January 23, 2007

OLHAR SOBRE 2006: CLASSE SUPRA-40

 

Yo La Tengo, I’m Not Afraid of You and I’ll Beat Your Ass

Os Yo La Tengo fizeram um excelente best of de carreira, mas com temas originais. Nesta sumário de carreira (que muito adivinham como a despedida), o trio de Hoboken deu mais uma prova de uma elasticidade de composições que vai muito além do núcleo inspirador dos Velvet Underground ou dos Sonic Youth.

Ao contrário da linha estética contínua dos crepusculares Summer Sun (2003) e And Then Nothing Turned Itself Inside-Out (2000), cada silêncio de separação entre faixas deste novo álbum anuncia uma ruptura estética, tornando cada canção completamente autónoma face às restantes. Seja na harmonia outonal à Big Star, no punk melódico, ou nas longas odisseias instrumentais de sensações, os Yo La Tengo nunca perdem de vista a canção.

Mais do que terem feito o melhor álbum depois da sua obra-prima I Can Hear the Heart Beating As One (1997), os Yo La Tengo demonstram-nos que são ainda um dos melhores no vasto circuito da pop/rock.   

Sugestão Youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=qkyiy9mT-Sk

Stephin Merritt, Showtunes

Pedir a Stephin Merritt (a persona dos Magnetic Fields) para musicar uma opereta não é a incumbência de um dever profissional, mas sim a dádiva de um prazer.

Showtunes - um zapping entre três operetas, duas delas chinesas, que o encenador Chen Shi-Zeng encomendou - é o encaixe para aquilo que Stephin Merrit tanto gosta de fazer: enquadrar uma forma tão simples como a pop num projecto de conceito mais grandioso com princípio, meio e fim, como é uma opereta.

O trabalho com várias vozes (capazes de dignificar bem melhor a qualidade exímia das composições do que a voz do próprio autor), o namoro com os antecedentes da canção pop e um certo exotismo, que é representado no caso pela sonoridade oriental, fazem de Showtunes um objecto delicioso que só engrandece o músico.

 

Sonic Youth, Rather Ripped

O que mais impressiona neste disco é a sobrevivência de um estado de espírito (rebelde), mais do que as canções novas, a perseverança do idealismo na música, mais do que as ideias aqui apresentadas.

A energia expressa em Rather Ripped confunde-os com uma banda nova e promissora, pronta para iniciar uma nova revolução. Se os Sonic Youth só começassem agora (com idades compreendidas entre os 43 e os 53 anos de idade), aindam teria fôlego para fazer de novo história - é essa a sensação saudável que o disco dá.  

Sugestão youtube (videoclip gravado no CBGB’s, o mítico clube nova-iorquino, berço do punk e do no-wave e um dos berços do new wave)

http://www.youtube.com/watch?v=NayLWsw0Qvg

 

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Monday, January 22, 2007

OLHAR SOBRE 2006: CLASSE SUPRA-50

Entre a avalanche do bons discos internacionais do generoso 2006, contam-se resistentes da velha guarda. Bob Dylan, Tom Waits e Neil Young não levaram para os discos só o nome.

Bob Dylan, Modern Times

«The Times They Are A-Changin», cantava Dylan.

Mas não foram só os tempos que mudaram. Também o próprio músico mudou, e muito. Dylan já não é o eterno nómada da primeira metade da década de sessenta que o belíssimo documentário de Martin Scorsese, No Direction Home, captou. O Bob Dylan de hoje está rendido à vida sedentária e afeiçoado às rotinas de uma terra pequena, onde os mesmos hábitos se repetem às mesmas horas. A dedicação à horta do seu quintal, o ensaio exaustivo com a guitarra, a ida ao bar mais familiar e a leitura mais aprofundada lá mais para a noite - os rituais quotidianos repetem-se mais ou menos à mesma hora, sem grandes sobressaltos.  

Modern Times é um retrato exemplar de um homem com mais de sessenta anos. As dez músicas que compõem o último álbum de Dylan reflectem a vida de um homem que escolheu a comodidade do lar: cada música com uma base estrutural fixa, com solos instrumentais espaçados de uma forma tão matemática que já os adivinhamos. Tudo isto seria um tédio se a banda que acompanha Dylan na Never Ending Tour não fosse de eleição, se cada minuto de cada música não tivesse impregnado em si a síntese da história da música América, se o homem que testemunhou a transição entre a velha América rural e a América das novas ideias não se chamasse Bob Dylan. Recuperou o gozo em tocar há alguns anos e com isso emergiram um novo fulgor e novas ideias. Enquanto isso, a experiência foi crescendo e ditando com cada vez mais autenticidade e autoridade a harmonia entre o blues, o bluegrass, o country, um certo jazz e o rock & roll, como se fossem uma só família. E, pelos vistos de Dylan, são.

Modern Times pode ser um disco mais conformista que os anteriores Time Out of Mind (1997)e Love Theft (2001). Mas neste contexto, o conformismo é uma valia, uma prova de mestria de quem não necessita de arrasar almas. Basta mostrar serviço.

Tom Waits, Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards 

«Basta Tom, é demais, já não aguentamos»… dá vontade de dizer, depois de bombardeado por um CD triplo de restos (de aproveitamentos díspares) como este.

Depois de cumprir as expectativas no primeiro CD (Brawlers) dedicado ao blues-rock desengonçado do cantor, Orphans passa a surpreender… Primeiro pela positiva, com a razia de melodias jazzísticas embebidas em piano no disco especializado para o efeito (Bawlers). Depois, pela negativa, exactamente na faceta que mais ansiedade gerava: o lado mais rudimentar e contra-regulamentar de Tom Waits (Bastards), apresentado-nos rascunhos (uns melhores que outros) que desta vez justificaram o estatuto de sub-aproveitados.

No entanto, Orphans consolida a relação do fã com a obra de Tom Waits. A forma luxuriante com que se despeja músicas deste calibre chega a ser um atrevimento.

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=SbgMS_uvwqg

Neil Young, Living with War

Depois de ter estado às portas da morte, e de ter feito um álbum celeste sob os tecidos rupestres americanos (músicas folk e coros gospel) intitulado Prairie Wind, Neil Young politizou-se e foi à guerra (contra George W Bush). Pegou na sua arma, a guitarra eléctrica, e gravou no espaço de 24 horas o álbum de rock mais frontal dos últimos anos, que se distingue mais pela atitude do que pelos detalhes. Living with War é o álbum mais político de sempre de Young. A canção «Let’s Impeach the President» é o momento mais explícito de contra-poder de toda a sua carreira.

Sugestão youtube:

http://www.youtube.com/watch?v=O_O8YthjrhY&mode=related&search=

 

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Friday, January 19, 2007

OLHAR SOBRE 2006: OBITUÁRIO

Não é possível rever um ano sem pensarmos em quem partiu.

Até logo. E obrigado.

Grant McLennan (Go-Betweens) - O poeta, como lhe chamava Robert Forster (a outra metade dos Go-Betweens).

Arthur Lee (Love) - O retratista genial do lado obscuro de Los Angeles. Inconstante como só os génios são.

Ali Farka Touré - Trazia o aroma de África. A título póstumo, o álbum Savane foi a sua ressurreição. Enorme!

James Brown - O Rei do funk só podia morrer no dia do Senhor - 25 de Dezembro. E agora Deus, onde o meter?

Syd Barrett (Pink Floyd) - Nunca andou bem por cá, mesmo quando as luzes da ribalta o iluminavam. O seu fantasma ficou a pairar para sempre nos Pink Floyd, nunca deu para escapar.

 

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Thursday, January 18, 2007

OLHAR SOBRE 2006: O MAU DA MÚSICA EM PORTUGAL

Dados negativos a reter:

O afunilamento do mercado discográfico na FNAC. É cada vez menor, pior e menos diversa a oferta de produtos musicais, piorando igualmente a própria FNAC, que carece de concorrência directa a olhos vistos. Basta olhar para as prateleiras de discos cada vez menos atractivas das lojas da cadeira francesa, ou sentir o cada vez pior atendimento das respectivas (por impossibilidade de recursos, por falta de especialização mas, também e às vezes, por má educação).

A previsibilidade dos cartazes dos grandes festivais. A decrescente ousadia de eventos como o SBSR ou o Sudoeste torna-os cada vez mais hipermercados portáteis, com muita movimentação de pessoas e de comércio, mas com a música como mero pano de fundo. O Rock in Rio-Lisboa chega a ser uma caricatura disso tudo, ao ponto de apresentar um programa que é quase um decalque da edição anterior - já dá para adivinhar que Sting, Xutos e Rui Veloso estarão presentes no Rock in Rio-Lisboa 2008.

Poucas edições na música portuguesa. Neste caso, quantidade é sinónimo de qualidade. É tão pouca a quantidade de edições lusas, que a qualidade geral da música portuguesa tem que se ressentir. Chegam-se a passar seis meses sem se ouvir um disco português que nos obrigue a parar de fazer tudo o resto. É muito tempo. E o problema da música portuguesa não é o de criatividade mas de acção.

A morte do Blitz. Passei mais de quatro anos naquela casa e foi, das várias por que passei, a que mais me marcou humana e profissionalmente. Ganhei sapiência, qualidades, recordações e amigos. Mas, em 2006, foi a música ouvida e feita em Portugal que perdeu. Desapareceu uma forma de fazer jornalismo musical de causas colectivas que sobreviveu mais de vinte anos. E o mais irónico é que esse vazio de hoje ainda reforça mais a sua memória. Mas esse vazio pode ser ocupado…  

 

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