Monday, May 5, 2008

NO MEU CINEMA: DOIS ÍCONES NOVA-IORQUINOS

                                                                                          

Despedi-me desta edição do IndieLisboa vendo dois documentários sobre duas referências da música popular urbana: Patti Smith e Lou Reed.

Guardo com mais carinho o filme sobre Patti, Dream of Life, de Steven Sebring. A dedicação de 11 anos do documentarista permitiu um belo pedaço de cinema sobre a vida real de Patti Smith: música, livros, as desventuras da vida. Ali está um ser especial e generoso. Palpita-me que aquela espiritualidade da cantora poderia ser compatível com uma bela amizade com Joe Strummer, alma boa que o IndieLisboa também exibiu.

alt : http://www.youtube.com/v/9pTYrFoXp6s&hl=en

Como me parece que vai ser impossível estar ao mesmo tempo no Passeio Marítimo de Algés (a ver Leonard Cohen) e no Campo Pequeno (a ver Lou Reed) no dia 19 de Julho, achei obrigatório compensar essa ausência do dom da omnipresença vendo o filme-concerto Lou Reed’s Berlin, de Julian Schnabel (que convivia no círculo de Andy Warhol), que tem tudo a ver com o que se vai passar na digressão que o traz: a interpretação ao vivo da sua obra mais ambiciosa, Berlin, acompanhado por uma orquestra. O filme, demasiado estático, não compensou de todo.

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Thursday, May 1, 2008

NO MEU CINEMA: «JOE STRUMMER: THE FUTURE IS UNWRITTEN» de JULIEN TEMPLE

                                                                     Um dos filmes mais aguardados da secção IndieMusic, do IndieLisboa, era o documentário biográfico sobre o mítico líder dos Clash, Joe Strummer, realizado por Julien Temple: Joe Strummer: The Future Is Unwritten.

Os documentários de Julien Temple parecem adaptar-se ao carácter do seu personagem central. Os documentários sobre os Sex Pistols que Temple realizou, The Great Rock ‘n’ Roll Swindle (1980) e The Filth and the Fury (2000), são provocadores, corrosivos e até arrasadores. Tal e qual como eram os Sex Pistols.

Joe Strummer: The Future Is Unwritten é um documentário mais pacifista. Tal e qual o foi Joe Strummer.

   alt : http://www.youtube.com/v/xg3md__8IaQ&hl=en

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Sunday, December 30, 2007

2007: OS MELHORES FILMES

À Prova de Morte (Death Proof), de Quentin Tarantino

O Caimão (Il Caimano), de Nanni Moretti

Inland Empire, de David Lynch

Lady Chatterley, de Pascale Ferran

Promessas Perigosas (Eastern Promisses), de David Cronenberg

Na imagem: Quentin Tarantino.

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Monday, November 19, 2007

NO MEU CINEMA: «CONTROL» DE ANTON CORBIJN

                                                                          Está a surpreender-me a vaga de críticas positivas (que evidentemente respeito) em torno de Control, o filme biográfico sobre a vida de Ian Curtis (líder dos Joy Division que se suicidou em 1980). Achei-o profundamente mediano.

Nota 1: Control lembra-me que Anton Corbijn é um excelente fotógrafo e um realizador de videoclips com obra de autor, e não um realizador de cinema. As perspicazes opções de filmagem a preto e branco, o desenho cenográfico e quase poético dos subúrbios cinzentões de Manchester alusivos a um período cinzentão da vida social britânica (prenúncio e confirmação da chegada ao poder de Thatcher) ou aquelas captações musicais ao vivo quase reais, não fizeram Corbijn inventar a pólvora de modo a criar repentinamente ele mesmo cinema de corpo inteiro.

Nota 2: Control fica encravado durante as suas duas horas entre a opção de cinema de autor e a do filme biográfico encomendado. E de lá não saiu. Nunca foi bem uma coisa, nem outra. Control não é carne, nem peixe - o contrário do que se poderia dizer da música dos Joy Division.

Nota 3: Outro contraste muito chato com a realidade histórica é o actor que interpreta Ian Curtis, Sam Riley. Tem sido elogiado pelas parecenças físicas com o lendário cantor, mas a mim lembrou-me desde o início o baixista dos Ramones, Dee Dee Ramone (que apesar de mítico, era a caricatura do homem banal). A ausência de uma expressão forte de Sam Riley faz do Ian Curtis interpretado uma sombra apática daquele que existiu, que era brindado por um olhar marcante e por uma aura especial que fazia dele uma figura alienígena.    

Nota 4: A direcção de actores é, aliás, um dos pontos mais fracos do filme. As personagens parecem marionetas passivas, órfãs de vida própria, que se limitam a cumprir os clichés da história.

Nota 5: Que faceta desconhecida da personalidade complexa de Ian Curtis nos deu Corbijn a conhecer, além das suas famosas depressões e dos seus problemas de epilepsia? Onde está o lado mais humorado que os seus ex-colegas lembram, por exemplo? É talvez esse apoio na visão humorística que faz 24 Party People (o filme de Michael Winterbottom sobre a Factory) ganhar aos pontos este taciturno Control.

Nota 6: Para se seguir com um decalque rigoroso a linha factual tentando reproduzi-la com o máximo realismo, como acontece em Control, é preciso uma dinâmica profissional típica de uma indústria de topo como aquela que ergueu o biopic de Johnny Cash, Walk the Line, que tão bons resultados colheu. Entregar um filme desta natureza a um cineasta aprendiz como Anton Corbijn, mesmo que tivesse conhecido pessoal e profissionalmente Ian Curtis, tem efeitos poucos interessantes.

Nota 7: Há um desvio de salutar ao livro de Deborah Curtis, Touching from a Distance - Ian Curtis and Joy Division, que inspira este filme: o retrato que Corbijn faz de Annick Honoré, a amante belga de Curtis, é um pouco mais humano. Ao menos isso. 

PS - Abrandamento bloguista necessário por motivos alheios. A ver se não dura muito tempo…

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Friday, September 21, 2007

NO MEU CINEMA: «MALA NOCHE», DE GUS VAN SANDT

                                 Não começou mal a filmografia de Gus Van Sandt - que nos últimos anos realizou filmes como Elephant (sobre o ataque homicida em série num liceu americano) ou Last Days (inspirado no suicídio de Kurt Cobain, líder dos Nirvana). O baptismo cinematográfico dá pelo nome de Mala Noche (1985), um olhar sobre inadaptados que Van Sandt nunca mais largou.

Reza assim a história: Walt é um jovem branco oriundo de uma classe média cultivada que ganha a vida como empregado da mercearia da Rua 6 de Portland. O rapaz mexicano Johnny é a paixão homossexual de Walt. Roberto é o amigo de Johnny. E os três dão-se.

O filme é uma espécie de diário de Walt - baseado numa semi-autobiografia do escritor Walt Curtis com o mesmo título -, feito de dilemas, de olhares desconfortáveis e de acções errantes destes três rebeldes sem causa.

Talvez Mala Noche encontre cinco anos antes um parente próximo (e hetero), na estreia cinematográfica de Jim Jarmusch em  Permanent Vacation (1980). Também há ali um porta-voz juvenil e divagante, um tal de Allie, que expressa muito mais por imagens (igualmente a preto e branco) do que por palavras o desencanto na sua relação com o que está ali diante. O desconforto é o mesmo.

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Tuesday, July 31, 2007

MICHELANGELO ANTONIONI, A NUVEM DE ONTEM TAMBÉM O LEVOU

A nuvem de ontem levou outro monstro da sétima arte, o italiano Michelangelo Antonioni. O seu último filme de corpo inteiro (feito com o amparo de Wim Wenders) é o lindíssimo Para Lá das Nuvens (1995). É para lá das nuvens que se encontra neste preciso momento o cineasta italiano, que terá seguramente muito para discutir com o seu colega Bergman que o aguardou pacientemente horas a fio.

Ao contrário de Ingmar Bergman, que pôs em prática na grande tela os ensinamentos da performance teatral, Antonioni é um produto mais puro, e em bruto, do cinema. Como outros, aprendi com os filmes dele a ter uma visão cinéfila mais desapegada da estrutura narrativa. As obras de excelência do seu cinema contemplativo são muitas, das quais destaco O Grito (1957), A Aventura (1960), O Eclipse (1962), Deserto Vermelho (1964), o britânico Blow Up (1967) e Profissão: Repórter (1975).

Em baixo, um trailer do filme O Eclipse. alt : http://www.youtube.com/v/6ergGP0OI8E

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Monday, July 30, 2007

INGMAR BERGMAN: A CÂMARA DE FILMAR DESLIGOU-SE

                                                                                         A partir de hoje, Ingmar Bergman deixou de poder gritar acção. A partir de hoje, já não teremos a secreta esperança de o ver a interromper o exílio na sua ilha de estimação para voltar a filmar. Quando quebrou a promessa de não voltar a realizar uma longa-metragem após Fanny e Alexander (1982), fê-lo de forma bela e arrojada em Saraband, epílogo de Cenas Conjugais (série televisiva dos anos 70 e também, por adaptação, filme de cinema), e por isso não importou. Antes pelo contrário.

Transportou para o cinema a sua experiência de encenador de teatro e foi Mestre nos dramas das relações humanas. Foi talvez o primeiro cineasta moderno e somou obras brutais ao longo das décadas de 40, 50, 60, 70, 80 e mesmo nesta.

Ingmar Bergman foi o maior dos maiores do cinema.

Recomenda-se a leitura da sua auto-biografia, A Lanterna Mágica. Recomenda-se ainda mais os seus filmes.

Em baixo, imagens de Persona (1966), uma das suas maiores longas-metragens.

alt : http://www.youtube.com/v/RLR5_xeqOqM

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NO MEU CINEMA: «SEMENTES DE VIOLÊNCIA», de RICHARD BROOKS (1955)

                                                                                  Era um filme obrigatório que me faltava ver. A longa-metragem de Richard Brooks é a primeira grande semente a ser lançada para a criação do sub-género dos filmes de violência escolar. A acção (a batalha) decorre num liceu especial de um bairro degradado, um autêntico campo de guerra entre os professores e os alunos delinquentes que os últimos levam sadicamente a melhor.

Mais impressionante que o golpe de antecipação que o filme impõe na história do cinema, é a extrema crueldade da turma e a insanidade daquele ambiente a que nem um professor novo, um tal de Richard Dadier, dotado de vocação, carisma e vontade de melhorar as coisas, consegue pôr ordem.

Ao longo da evolução do drama e da progressão das personagens, um enigma persiste até ao fim, e o filme felizmente não resolve: o que revoltava tanto aqueles jovens?

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Thursday, July 26, 2007

NO MEU CINEMA: «À PROVA DE MORTE», de QUENTIN TARANTINO

                                                                       Há agricultores que nasceram para ser agricultores, há engenheiros que nasceram para ser engenheiros, Quentin Tarantino nasceu para ser cineasta. De corpo e alma.

A sua mais recente declaração de amor ao cinema, À Prova de Morte (Death Proof, 2007, metade do projecto Grindhouse dividido com Roberto Rodriguez), incide nos filmes de série b sobre carros de corrida, e homenageia (entre outros) o mítico Vanishing Point (a maior celebração cinematográfica de ligação da cultura dos ácidos à adrenalina do asfalto), dirigida nos anos 70 por Richard Sarafian. Mulheres boazonas prontas para a festa, um duplo mitra (Kurt Russell), um bar de frequência curiosa, rock & roll demoníaco saído da jukebox, opções de imagem suja e granulada e, claro, carros de corrida de imagem datada são dados que ajudam a construir um filme que testa os cinco sentidos do espectador à prova de morte.

O filme reúne as várias artes do realizador em prol de uma só, a Sétima.

Está lá a arte de reciclar (e recriar) o enorme e remexido arquivo cinematográfico instalado na cabeça de Tarantino (secção memória), respigando o lixo e transformando-o em ouro. 

Está lá a imensa cultura musical do cineasta, emprestando-a, também enquanto arqueólogo, ao serviço dos seus filmes como autêntico talismã.

Está lá a arte de saber dirigir os actores e de saber escolhê-los.

Está lá a arte em recuperar canastrões e lhes dar o papel das suas vidas - grande Kurt Russell! Travolta já teve a sua vez.

Está lá a ode às mulheres bonitas e carnais - mais do que um pormenor no sonho do cinema.

Está lá a reprodução fértil de grandes momentos de cinema.

Está lá o sentido de humor, outra benção de Tarantino.

Esta lá a arte de elevar um filme de acção e de entretenimento a obra de visionário estético.

A grande tela dinâmica voltou a ser amada. Agradece-se a Quentin Tarantino, mais uma vez. 

alt : http://www.youtube.com/v/u0fDnZEacmA

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Tuesday, July 17, 2007

NO MEU CINEMA: «A RAPARIGA MORTA», de KAREN MONCRIEFF

A Rapariga Morta (The Dead Girl) é um conjunto de cinco ângulos femininos (uma especialidade de Karen Moncrieff) em volta da mesma tragédia: o assassínio de uma jovem. Os cinco olhares autónomos de cinco personagens com proximidades muito diferentes para com a vítima (vai da mãe à mulher que nunca a conheceu) decorrem num ambiente sórdido, de uma América bastarda e desestruturada, onde o afecto é uma miragem.  

Mas os cinco fragmentos do filme não passam de um refinamento da arte de não contar uma história. O entendimento infantil das personagens (que seguem em cadeia e demasiado passivamente o curso previsível dos acontecimentos) e a precipitada entrega de pistas ao espectador tornam a parte final da longa-metragem redundante. A divisão em cinco fracções não passa de um camuflado que esconde um mau filme, incapaz de se desenvolver para além do facto de partida.

Em exibição no Lusomundo Forum Aveiro, no Castello Lopes Guimarães Shopping, no Saldanha Residence (Lisboa), no El Corte Inglés (Lisboa), no Lusomundo Colombo (Lisboa), no Millenium Alvaláxia (Lisboa), no UCI Arrábida (V. N. Gaia) e no Lusomundo Dolce Vita Douro (Vila Real).

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