
Está a surpreender-me a vaga de críticas positivas (que evidentemente respeito) em torno de
Control, o filme biográfico sobre a vida de Ian Curtis (líder dos Joy Division que se suicidou em 1980). Achei-o profundamente mediano.
Nota 1: Control lembra-me que Anton Corbijn é um excelente fotógrafo e um realizador de videoclips com obra de autor, e não um realizador de cinema. As perspicazes opções de filmagem a preto e branco, o desenho cenográfico e quase poético dos subúrbios cinzentões de Manchester alusivos a um período cinzentão da vida social britânica (prenúncio e confirmação da chegada ao poder de Thatcher) ou aquelas captações musicais ao vivo quase reais, não fizeram Corbijn inventar a pólvora de modo a criar repentinamente ele mesmo cinema de corpo inteiro.
Nota 2: Control fica encravado durante as suas duas horas entre a opção de cinema de autor e a do filme biográfico encomendado. E de lá não saiu. Nunca foi bem uma coisa, nem outra. Control não é carne, nem peixe - o contrário do que se poderia dizer da música dos Joy Division.
Nota 3: Outro contraste muito chato com a realidade histórica é o actor que interpreta Ian Curtis, Sam Riley. Tem sido elogiado pelas parecenças físicas com o lendário cantor, mas a mim lembrou-me desde o início o baixista dos Ramones, Dee Dee Ramone (que apesar de mítico, era a caricatura do homem banal). A ausência de uma expressão forte de Sam Riley faz do Ian Curtis interpretado uma sombra apática daquele que existiu, que era brindado por um olhar marcante e por uma aura especial que fazia dele uma figura alienígena.
Nota 4: A direcção de actores é, aliás, um dos pontos mais fracos do filme. As personagens parecem marionetas passivas, órfãs de vida própria, que se limitam a cumprir os clichés da história.
Nota 5: Que faceta desconhecida da personalidade complexa de Ian Curtis nos deu Corbijn a conhecer, além das suas famosas depressões e dos seus problemas de epilepsia? Onde está o lado mais humorado que os seus ex-colegas lembram, por exemplo? É talvez esse apoio na visão humorística que faz 24 Party People (o filme de Michael Winterbottom sobre a Factory) ganhar aos pontos este taciturno Control.
Nota 6: Para se seguir com um decalque rigoroso a linha factual tentando reproduzi-la com o máximo realismo, como acontece em Control, é preciso uma dinâmica profissional típica de uma indústria de topo como aquela que ergueu o biopic de Johnny Cash, Walk the Line, que tão bons resultados colheu. Entregar um filme desta natureza a um cineasta aprendiz como Anton Corbijn, mesmo que tivesse conhecido pessoal e profissionalmente Ian Curtis, tem efeitos poucos interessantes.
Nota 7: Há um desvio de salutar ao livro de Deborah Curtis, Touching from a Distance - Ian Curtis and Joy Division, que inspira este filme: o retrato que Corbijn faz de Annick Honoré, a amante belga de Curtis, é um pouco mais humano. Ao menos isso.
PS - Abrandamento bloguista necessário por motivos alheios. A ver se não dura muito tempo…