Monday, October 15, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #13: MARIANNE FAITHFULL, ADELPHI THEATRE (LONDRES, 1999)

                                                                                                                                          

Estava a cumprir a última etapa de uma maravilhosa viagem de inter-rail e, como era habitual, tinha-me prevenido antecipadamente para essa oportunidade única (para qualquer português) de ver ao vivo Marianne Faithfull - isto é, não ia ter que aturar a praga de especuladores de bilhetes que contamina a olho nu as portas de entrada de cada sala de concertos britânica.

O teatro, situado na zona movimentada de Charing Cross, era o abrigo de há muito do musical Chicago. Mas aquele era o dia de descanso do clássico espectáculo. O Adelphi Theatre não era espaço adequado para outras cavalgaduras - como as de um concerto de Marianne Faithfull. A sala tentava desesperadamente compensar em altura o que lhe faltava em largura. E eu era um dos enteados que quase roçava a cabeça junto ao tecto, alguns andares acima do formigueiro que se confortava no piso do palco.

Mas Marianne Faithfull, por arte e magia de diva, fez-nos esquecer as noções de distância física. Livre de um menu promocional de um qualquer disco, vagueou pelo reportório das suas famosas interpretações, dos tempos de inocência dos anos 60 à reciclagem madura de Broken English (1979) em diante, com as garras de uma gata de sete vidas com personalidade forte. Naquela noite, nunca a vi pequena. Como que saído do cinema após um filme marcante, os momento seguintes de regresso à realidade (mesmo que no curioso metro londrino) custaram. Tinha acabado de ver alguém especial.

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Wednesday, September 12, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #12: ALI FARKA TOURÉ, ANFITEATRO KEIL DO AMARAL (2005)

Ainda a digerir o delicioso concerto de Toumani Diabaté no último Avante!, recordo a noite memorável de Ali Farka Touré na edição de África Festival de 2005 (que Diabaté, no Kora, ajudou a abrilhantar).

Desde logo, o belo anfiteatro de Monsanto surpreendia por uma sobre-ocupação de muitos milhares de curiosos (dez mil pessoas?), que contribuíram para um ambiente cosmopolita - dos mais cosmopolitas que alguma vez vi em Lisboa.

Desconhecia que Touré estivesse tão doente e que meses mais tarde desaparecesse fisicamente para sempre. A sua banda, um bando de sobredotados, não esteve lá a fazer só número. Ainda mais imponente era a alma do mestre Touré, com permissão na guitarra para repetir ad eternum aqueles acordes blues devolvidos à pureza do berço africano. Foi tudo muito, muito bonito.

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Wednesday, July 25, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #11: PATTI SMITH, PAV. CARLOS LOPES, LISBOA (2001)

2ª edição do Número Festival. O cartaz de música electrónica estava interessantíssimo (Fisherspooner, Miss Kittin, Bentley Rhytm Ace). E gente com história na música urbana portuguesa, como Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) e Flak (Rádio Macau), mostrava à massa de curiosos um paralelismo mais maquinal, através de novos projectos que soavam excitantes como os Mécanosphère (no caso de Adolfo) e os Micro Audio Waves (no caso de Flak).

Mas no meio do turbilhão criativo digital, um grande parêntesis: Patti Smith. O seu arsenal era outro, de demarcação psicológica. Livros de Pessoa (lidos em interlúdios de spoken word), outras palavras (algumas delas suas), o namorado ao lado com a guitarra acústica, as canções, os clássicos, e ao alto o punho cerrado. Dela. Foi um furacão humano que passou e arrasou.

Patti Smith regressa a Portugal, para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 28 de Outubro.

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Monday, July 2, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #10: FESTIVAL PAREDES DE COURA DE 2005

                                                                                                 Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano. alt : http://www.youtube.com/v/viEKLS1lCtE

O movimento de gentes era saudável. Nunca, num festival português, me havia cruzado com tantos estrangeiros (sobretudo espanhóis), nem nunca havia sentido tanto frenesim das pessoas em descobrir bandas novas. À semelhança do que constatava lá fora, em Paredes de Coura a música esteve primeiro, e a razão da peregrinação da maior parte daqueles festivaleiros dependeu do conteúdo musical do evento e não de um gozo meramente lúdico. Havia felicidade no ar, alimentada e regenerada pelos sons que saíam do palco e que obrigavam a uma descida naquele anfiteatro natural bem maior do que o inicialmente calculado - e foram várias as vezes que acabei colado ao palco.

alt : http://www.youtube.com/v/8HAwHd9HS4M

Cheguei ouvindo elogios convictos sobre a actuação do duo Death From Above 1979. Os !!! não me deram tempo para ficar triste quanto à perdida anterior, absolutamente intrigado que estava a ficar com aquela fusão nos mesmos acordes do som cortante e matemático da Factory com a animação “disco” de um clube nova-iorquino dos anos 70. O nível de motim manteve-se com os Kaiser Chiefs, meninos foliões da pop britânica com queda para óptimos refrões e criação de hits, e nem o tropeção que pôs a coxear o saltitante vocalista Ricky Wilson, qual Damon Albarn dos velhos tempos, quebrou o humor e o embalo daquele entusiasmado set. A actuação mais maquinal dos Bravery reduziu o nível de empatia registado até então entre palco e audiência, mas não baixou o profissionalismo, rigoroso, do grupo nova-iorquino, que não deixou passar nada do melhor da pop britânica dos anos 70/80 que figura na árvore genealógica dos Kraftwerk (Gary Numan, Human League, Depeche Mode). Quando a música se reduziu à mera vertente física, com os Foo Fighters, uma das cabeças que já não lá estava era a minha.

Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.

Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.

alt : http://www.youtube.com/v/kec42OJ28OU

De cima para baixo: Nick Cave, !!!, Kaiser Chiefs (momento em que Ricky Wilson torce o pé), Pixies, Woven Hand e Arcade Fire (as duas últimas músicas do concerto).

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Saturday, June 16, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #9: TINDERSTICKS, AULA MAGNA (1995)

                                                                                            O grito de alarme surgiu: a XFM estava em apuros financeiros. Para o plano de emergência de salvação da rádio da «imensa minoria», foram accionadas as chamadas Operações Xarme. A primeira operação, aquela que trouxe os Tindersticks à Aula Magna para uma bela noite de Setembro, foi emblemática.

Sala cheia, belas canções outonais que o público reconhecia (e aplaudia) dos dois álbuns homónimos, muito fumo de cigarro no palco, fatos de músicos sérios, ambiente cinéfilo, Stuart Staples a sussurrar apoiando-se fragilmente e em quase desequilíbrio no suporte de microfone, notas soltas no ar a fazer a síntese de Joy Division com o requinte mais pomposo de Nick Cave e de John Barry, e um concerto introspectivo cada vez mais empolgante… Ou a beleza de se assistir ao parto de um fenómeno de culto.

Àquela sala ainda se regressa para tentar inaugurar outra relação de seguidismo. Às vezes, corre bem.

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Friday, May 25, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: LULA PENA, CULTURGEST (LISBOA 2002)

Lula Pena é oscilante no ritmo das suas aparições públicas, mas não na qualidade das suas actuações. Perdemo-lhe o rasto frequentemente. Mas se ouvirmos a sua música vadia e viajada, não se lhe pode pedir uma rotina como se Lula Pena fosse uma normal sedentária. Não é.

Não me esqueço de um actuação mágica sua, ocorrida em 2002, no Grande Auditório da Culturgest (Lisboa), aquando do Festival Europa. O seu álbum Profissão de Fée (trocadilho linguístico com a palavra francesa Fée, que significa fada) estava então na berlinda. E Lula Pena trazia consigo dois músicos de cada canto do globo: o holandês Jan de Haas e o iraquiano de origem Osama Abdulrasol.

Com o charme de arisco, o fado nómada de Lula Pena mostrava a grandeza do seu mundo (bem vistas as coisas, do mundo todo) que, com o auxílio de um khanou (instrumento asiático de 70 cordas), de bongos ou do vibrafone, desfocava horizontes. Mas a dianteira daquela irreverência pertencia à voz, garra, guitarra, mãos, mistério, melancolia, saudade de Lula Pena, sem piedade para com as convenções, numa música sem passaporte.

De repente, do meio da plateia, um homem perde a vergonha e diz muito calmamente, em alto e bom som: «não saímos daqui enquanto não cantar o “Pasión”». Lula Pena sorri e responde: «não tenho ao meu lado o Rodrigo Leão». Mas a cantora, destemida, lança-se a um solo vocal do tema e faz a vontade ao espectador. Foi um momento arrasador.  

Lula Pena participa no FMM de Sines, com concerto marcado para o Centro de Artes da cidade, no dia 24 de Julho.  

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Saturday, May 12, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: PRIMAVERA SOUND 2004

Só fui uma vez ao Primavera Sound, precisamente à quarta edição. Trata-se de um festival urbano que concretiza o seu imaginário de utopia, e por isso é um acontecimento obrigatório da agenda cultural de Barcelona. O cartaz desafia qualquer adepto da vanguarda musical a tirar férias em finais de Maio e a fazer contas para uma estada catalã.

Quando lá estive, o festival ocupou um sítio fantástico, o Poble Espanyol, que é uma espécie de Espanha dos Pequenitos, mas para gente graúda - nos dias correntes, o Poble Espanyol recria um itinerário arquitectónico e gastronómico de Espanha num área quadrada que permite comer uma sopa no bairro andaluz, o segundo prato na zona das Astúrias e a sobremesa e as bebidas espirituais na parte galega.

Naqueles três dias loucos, a preocupação não era dar dois passos entre Navarra e a Catalunha, mas sim correr entre o palco da praça central, o palco da tenda maior, o gigante palco principal e todos os outros palcos que houvesse. Era um stress de boa música, que nos obrigava a tomar decisões difíceis. De algumas, arrependi-me: o que fazia eu diante daquela banda hard-rock horrenda da actriz Julie Delpy (ainda por cima, de imagem tão desprotegida pela ausência da sua amiga película), quando, à mesma hora, Devendra Banhart pasmava as suas testemunhas na grande tenda, a trezentos metros? Também me chegaram ecos de uma grande actuação dos !!! que não pude elogiar. E olhava para a lista, e via que Smog, Fall ou Xiu Xiu eram ilusões para usufruto alheio mesmo ali ao lado. 

Naquele ano, as atenções recaíam sobre o primeiro concerto dos regressados Pixies na Europa continental. O grupo de Boston comandou as expectativas de todo aquele segundo dia, que parecia reduzido à sua função de contagem decrescente, fazendo dos Raveonettes, Franz Ferdinand ou Mudhoney figurantes - agradáveis e frenéticos figurantes - que o tempo ia dobrando com paciência de chinês. Quando os quatro Pixies sobem ao palco, os sonhos dos milhares presentes concentravam-se numa sobrecarga de ansiedade do momento que matava à nascença a normal fluidez daquele concerto que ainda parecia irreal. Foi uma actuação demasiado diplomática para não ter sido estranha, em que o líder Frank Black e a sua baixista Kim Deal trocavam cortesias mas a banda não explodia como dantes. Sentiram-se uns cheirinhos de outros tempos, com algumas sequências non-stop de algumas músicas a ameaçar a raiva antiga, como o ataque brutal de «Tame». E ainda houve uma surpresa, quando Kim Deal angeliza o tema principal de Eraserhead (a primeira longa-metragem de David Lynch), «In Heaven», que Black infernizava na outra vida.

Mas as prestações com aroma de cozinhado recente, que representaram a verdadeira essência do festival, foram de outros. Dizzee Rascal deu um autêntico show de rap alienígena; os Hidden Cameras intelectualizaram o festival com festas pop; as Chick on Speed foram Barbies futuristas com vontade ir para onde as meninas más vão, para o inferno (não é, Xana?); Nina Nastasia vocalizou e tocou um cerimonial fúnebre de americana com imensa classe; Michael Gira foi um mestre da arte dramática (que grande concerto, aquele!); os Primal Scream mostraram aos Rolling Stones como é que se devia fazer de Altamont um inferno; e PJ Harvey, em excelente forma e no seu território preferido (o palco), provou que devia ser ela a estrela do festival. Mas ainda havia vontade de ver mais alguém. Os ouvidos, definitivamente, não queriam descansar.

Nas fotos, de cima para baixo, Dizzee Rascal, PJ Harvey e Michael Gira.

 

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Wednesday, April 25, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: TRICKY, COLISEU DOS RECREIOS (1997)

Nem sempre ficámos de fora do roteiro ao vivo de artistas a viver os seus dias dourados. Uma das acções oportunas de uma produtoras de espectáculos portuguesa foi sem dúvida esta: trazer a este país o grande ilustrador musical da tensão pré-milenar, Tricky, na sua fase de maior esplendor. A perturbação infligida pelos seus discos recentes Maxinquaye, Nearly God e Pre-Milennium Tension - feitos num sopro - assombrava o éter radiofónico mais vanguardista da XFM e envaidecia as prateleiras das lojas de discos mais atentas às descobertas.

Entretanto, naquele dia de Maio e noutra galáxia, Tricky passeava com lata de incógnito pelas Portas de Santo Antão, nas barbas dos seus fãs perplexos. Mesmo à frente do Coliseu dos Recreios, encontrou uma sala de jogos onde se entreteve com um amigo. Pouco depois, quis entrar pela porta principal do Coliseu, juntamente com os seus espectadores. Não havia despreocupação maior com o seu estatuto de músico em voga do que aquela.

O concerto foi memorável. Luzes escuras que anunciavam um pouco bíblico apocalipse. Uma banda de formato rock que soava à autenticidade original do trip-hop. E os últimos dias da dupla inesquecível Tricky entre Martina, que ziguezagueava entre a neura de um e calma da outra, o carácter frenético do primeiro e o charme absoluto da segunda (por onde andará ela hoje?). Típico do inconformismo de Tricky, os dois nunca conseguiam partilhar durante muito tempo os microfones. Iam alternando à vez o centro das altas luzes, e quando Martina soltava sedução com a voz, Tricky concentrava-se noutras coisas: na marijuana que provocava uma mui estética nuvem de fumo, nos teclados, no andarilho à volta do palco.

O público juntou-se ao filme e chamuscou o ambiente com uma coreografia de luzes de isqueiros que se acendiam a apagavam à velocidade alucinante da música de Tricky. Foram três horas intensíssimas, com um alinhamento de sonho a que só «Pumpkin» escapou. Segundo relatos de pessoas que o viram posteriormente, o que se seguiu não se comparou àquela noite de 1997.   

Eis um registo, suavizado pelo ambiente de estúdio, daquele tempo. 

alt : http://www.youtube.com/v/Z68rDTZT6ME

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Tuesday, April 10, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: FESTIVAL VILAR DE MOUROS 2001

                                                                                    Para ser sincero, as recordações desse festival, devo-as quase todas ao mágico e eléctrico concerto de Neil Young & Carzy Horse.

Outras recordações que resistem desse ano vêm do ambiente especial que aquele festival tem e que transcende lógicas comerciais: o charme da terra, a beleza rupestre, o público transgeracional, ou a bela viagem de comboio que começa em Lisboa e que, pouco antes da chegada a Caminha (a última estação), nos permite usufruir a bela costa minhota, a que se segue, já por transportes de quatro rodas, a apreciação do rio Minho e da paisagem galega do outro lado. Lembro-me ainda de nesse ano haver um mundo à parte e freak, uma reggaelândia, animado à noite por uma barraquinha de DJs improvisados e voluntários, no pouco iluminado campo de futebol onde está situado o palco secundário (embora histórico) e que foi recinto central de edições anteriores (1971, 1982 e 1996).

A programação do festival desse ano confirmava a progressiva tendência geral de pouco risco e de reincidência nos mesmos nomes: Ben Harper, Clã, Xutos & Pontapés ou um repetitivo Beck (em baixo de forma criativo) eram alguns exemplos que não traziam novidade ao panorama festivaleiro. A excepção era o estreante (!) Neil Young que finalmente pisava solo português. E foi uma excepção demolidora.

Com um alinhamento orgulhoso da sua história de três décadas, Neil Young e os Crazy Horse intensificavam a sua performance à medida que a chuva se tornava cada vez mais hostil. A idade dos quatro só se fazia sentir nas rugas da pele. O resto, o poderio físico e o êxtase que criavam, era uma inveja para os mais jovens.

A imagem tinha força, as fases instrumentais das canções chamavam Young para junto do baixista Billy Talbot e do guitarrista Frank Sampedro num triângulo apertado e solidário, virado de costas para o público, para um gozo intenso a três de cada música, enquanto o mais longínquo Ralph Molina fazia o que podia na bateria - sem nunca ser o elo mais fraco - para acompanhar todo aquela energia dos três músicos em pê. Quando as canções convocavam de forma desordenada Young, Sampedro e Talbot para a ribalta dos microfones, fazia-se sentir o poder das ventoinhas de palco que agitavam os cabelos e roupas dos músicos. Tudo aquilo era muito bonito.  

Doses mistas de rock & roll e de country, dos velhinho bem oleados («Like a Hurricane», «Hey Hey My My») e dos temas novos mas muito pouco verdes (como o brilhante «Goin’ Home»), tudo foi servido em irmandade para um concerto memorável e imperturbável perante a chuva a cântaros. Mas, no final, a teimosa chuva cedeu. Até Deus se rendeu. 

Nos dias 13 e 18, respectivamente às 19h00 e às 22h00, a Cinemateca Portuguesa exibe o mais do que recomendável documentário de Jim Jarmusch, Year of the Horse, sobre a digressão de Neil Young & The Crazy Horse, ocorrida em 1996, durante a fase promocional do álbum Broken Arrow. 

Eis um cheiro similar e contemporâneo do concerto de Vilar de Mouros… alt : http://www.youtube.com/v/WzJzDh9nOTg

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Tuesday, March 27, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: DEPECHE MODE, ESTÁDIO DE ALVALADE (1993)

A Lisboa veraneante dos longos dias de Julho que recebera os Depeche Mode tinha regressado ao seu estatuto sazonal de patinho feio, substituída pelas suas gentes por outras paragens com mais maresia.

O período dos mega-concertos já denunciava fadiga e o azar grande acabara de sair aos vendedores de bilhetes em segunda mão naquele exacto dia, e por isso sofriam sem silêncio com um amontoado inútil de bilhetes nas mãos - cheguei a ter pena deles mas não devia.

O velho Estádio de Alvalade em que entrara, de tão pálido de robustez humana e de tão engolido pelo palco para cima do topo norte, não parecia ser o mesmo recinto que enchera meses antes com a passagem galáctica dos U2, debaixo parafernália da Zoo TV.

A qualidade das duas bandas da primeira parte não lhes permitia mais do que queimar tempo - e ainda estou para saber por que raio me lembro do nome de uma delas, uns tais de Dada, que andavam a poluir o etér radiofónico com um rock-fm muito bera (o tempo, sempre muito criterioso, foi um péssimo juiz e ditou-lhes esquecimento perpétuo). 

Nada disso perturbou o gozo do cume a que o profissionalismo ao vivo dos Depeche Mode chegara. Os índices menores de motivação do grupo eram coisa para não ultrapassar a porta dos camarins, o que chegava ao público era um espectáculo de uma banda cada vez mais madura e versátil, que permanecia fiel ao charme kraftwerkiano de vários homens atrás de máquinas, mas que sabia experimentar o formato instrumental mais físico como se fosse um quarteto rock normal (neste caso, competentíssimo).

A garantir o efeito tridimensional perfeito para um alinhamento de sonho - bem composto pelo toque blues e gospel das músicas de Songs of Faith and Devotion e pela adrenalina das melhores memórias de Violator, Music for the Masses e de tempos mais idos -, esteve o exímio trabalho de concepção de palco do seu fiel homem da imagem Anton Corbijn, apreciável num palco dividido em dois níveis de altura (o mais próximo do público era para utilização quase exclusiva de Dave Gahan), e numa certeira distribuição de vários ecrãs feita na medida imediatamente anterior ao da excentricidade. Tudo aquilo impressionou e engalanou ainda mais um perfume sombrio e misterioso que nenhuma outra banda de estádio conseguiu ter.

Quem, em 1993, esteve em Alvalade e nas Antas, pôde ainda testemunhar os últimos dias da primeira vida dos Depeche Mode. Alan Wilder ainda lá estava para o último golpe estético que hoje falta ao grupo, e Dave Gahan ainda foi a tempo de encher aquele topo do Estádio de Alvalade com a sua imensa voz que, por causa de maus dias posteriores, nunca mais voltou a ser a mesma.    

No canal YouTube, passa um momento contemporâneo e similar ao ocorrido em Alvalade; do melhor que se viu.

alt : http://www.youtube.com/v/SjHXfteanz4

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