Documentário de Jim Jarmusch sobre uma digressão de Neil Young em 1996.
95º Fela Kuti - Music Is the Weapon
Reportagem televisiva feita na Nigéria que recolhe depoimentos e actuações de Fela Kuti, em 1982.
PS - Lista pessoal elaborada no dia 20 de Abril de 2008, que inclui DVDs não formatados para a Região Europeia e exclui obras de ficção (exemplos: ‘biopics’ ou musicais).
A música canadiana tradicional tem três grandes fontes: a cultura índia inuit, a folk francófona e a folk britânica (em especial, irlandesa e escocesa).
Dos indígenas nativos têm vindo hábitos de throat singing (cantos polifónicos que puxam da garganta) e de uma música fortemente percussiva.
Quanto à influência francófona (restrita ao Quebeque), houve mestres na linha da melhor chanson française como Gilles Vigneault, Felix Leclerc e RobertCharlebois, mas no que concerne à raiz mais profunda da música gaulesa, os fogosos La Bottine Souriante têm sido a grande instituição há mais de 30 anos. Do espectro anglo-saxónico, Buffy Sainte-Marie deu alma ao período áureo da redescoberta da folk americana, na primeira metade dos anos 60, como o comprovou em acontecimentos como o Newport Folk Festival. E as harmoniosas Kate & Anna McGarrigle são há muito a grande força viva canadiana no que toca à secção de world music, e representam bem o misto linguístico da sua Montreal, que tem sido a chave da duradoira saúde criativa do duo.
No mundo extenso da pop, o papel do Canadá é subtil mas influente. Sem contar com o fenómeno de sucesso adolescente do jovem Paul Anka, que gozou vários 15 minutos de fama quando aproveitou o buraco de transição entre a elvismania e a beatlemania, o país do norte deu ao mundo gigantes da música com uma dimensão musical muito para lá das crises de borbulhas. Um dos melhores exemplos canadianos é Leonard Cohen, sem dúvida o músico mais lendário de Montreal e o grande singer-songwriter galã da história da música que, como escritor experiente, fez das suas melodias os mais belos poemas alguma vez musicados. Outra lenda tem sido Neil Young, que sempre se portou como uma autêntica formiga trabalhadora, com uma criatividade que não coube em super-bandas por onde passou como os Buffalo Springfield ou o dream-team Crosby, Stills, Nash & Young, produzindo antes uma carreira a solo de uma integridade invejável e actual. O seu habitat estende-se da garagem rock & roll (onde se reúne com os amigos Crazy Horse) ao terreno mais árido do country e do singer-songwriting, nunca renegando aventuras como o jazz, o gospel ou, como acidente de cálculo, a electrónica. Como é hábito nos seus colegas compatriotas, Neil Young passa por estado-unidense, país onde há muito reside. Mas bastou levantar a voz contra Bush no seu álbum mais político, “Living with War”, para a Casa Branca se defender e lembrar a todos que o músico não passa de um estrangeiro, de um canadiano.
Outro percurso que fez algumas tesouradas à linha da história pertence a Joni Mitchell, pela coragem e pelo estímulo que exerceu para outras mulheres seguirem a música de autor. E Mitchell nunca estagnou, parecendo que aquela jovem hippie que brilhou nos grandes festivais de música dos anos 60 e a senhora madura de hoje que exibe uma música perfumada de avant-garde pop e de jazz não são a mesma e única pessoa. Mary Margaret O’ Hara também é um nome a ser sublinhado dos últimos 20 anos nos domínios dapop artistiscamente mais ousada, assim como a andrógina KD Lang, que tem também derivado a sua paixão para o country. Mas o peso da folk canadiana é igualmente relembrado pela banda de culto Cowboy Junkies, onde enquadram o som dos Velvet Underground, com resultados memoráveis na versão de ‘Sweet Jane’. Ron Sexsmith tem sido o cavaleiro solitário das trovas folk-pop à guitarra, há uns bons 15 anos.
Em domínios mais pragmáticos, o Canadá também tem uma palavra a dizer. Seja no pop/rock orelhudo transvestido de alternativo (os Crash Test Dummies), no rock com acne (Alanis Morissette), napop (Celine Dion, Nelly Furtado), ou no rock sucedâneo de Bruce Springsteen (Bryan Adams, claro), os dólares canadianos também contam. No jazz, o Canadá não se tem distraído. É de lá que veio o maior arranjador de sempre do género, Gil Evans (quadro-superior da Columbia que gravou discos míticos de Miles Davis como Sketches of Spain). É também a norte dos Estados Unidos que vem a mais mediática cantora de jazz do mundo, Diana Krall.No hip hop mestiço e académico, através dos Bran Van 3000, ou na electrónica, através de Kid Koala, o Canadá também assinou o ponto. Fotografias de cima para baixo: Leonard Cohen, Buffy Sainte-Marie, Neil Young, Cowboys Junkies e Gil Evans. Imagens YouTube de cima para baixo: «Entre Deux Joints» de Robert Charlebois (1974), «The Stranger Song» de Leonard Cohen (1967), «Big Yellow Taxi» de Joni Mitchell (1970), «Drinkin’ in LA» dos Bran Van 3000 (1997). Texto publicado no Cotonete.
Por ordem decrescente de preferência, seguem-se outros entusiasmos recentes.
Neil Young, Chrome Dreams II (Reprise, 2007)
Já não é a primeira vez que Neil Young trabalha segundo métodos retroactivos. O seu volume de trabalho monstruoso volta a permitir-lhe esse confortável luxo, repescando em Chrome Dreams II rascunhos antigos, com mais de trinta anos, elaborados para um álbum que não chegou a sair: Chrome Dreams (em 1977), de onde foram saindo pérolas para discos subsequentes como «Sedan Delivery», «Too Far Gone», «Look Out for My Love» ou esse diabo à solta chamado «Like a Hurricane» que escapou a qualquer álbum de originais.
Outra coisa que se sabe de Young é que é um músico impulsivo. Isto é, faz aquilo que bem entende naquele preciso e imediato momento - e o recente aneurisma, que lhe permitiu ver todo o filme da sua vida, acentuou-lhe ainda mais esse capricho. Quando remexia nas suas velhinhas gravações para a compilação megalómana Archives, nasceu a ideia súbita para Chrome Dreams II.
Não se vislumbra nesta colheita algum tema candidato a ser o melhor da sua vida, mas há em Chrome Dreams II umas quantas dislexias fascinantes para ouvidos que gostam de ser surpreendidos - e, nos últimos anos, o atarefado Young tem andado muito pouco previsível:
- «Dirty Old Man» é punk sujo à medida dos Crazy Horse mas gravado sem eles (apesar de Ralph Molina a fazer a parte que lhe compete, na bateria).
- «The Believer» é mais uma homenagem funky de Young ao legado da Stax, ou uma caça à lebre sem cães, ou um desencontro com os seus amigos Booker T & The MG’s que o músico canadiano conseguiu desenrascar muito bem.
- «Shining Light» é um tema feito com indumentária country-rock mas com ambiência espiritual de gospel - ou mais um resquício do contacto de Young com o outro mundo, ocorrido em 2005.
- o fecho com «The Way», gravado com um coro infantil, poderia ser Neil Young a fazer de alma gémea, mas bem americana, de José Barata Moura. Uma lamechice e, mais importante, uma especialidade sua.
Chrome Dreams II é mais um disco irregular, virado do avesso, gravado à beira do precipício. Como Neil Young sabe fazer.
Paula Oliveira & Bernardo Moreira, Fado Roubado (Universal, 2007)
Depois da estreia discográfica do duo com Lisboa Que Amanhece, Paula Oliveira & Bernardo Moreira voltam a fazer, a partir do ninho do jazz, um voo rasante pela música e cultura portuguesas - uma espécie de declaração de amor à sua condição de portugueses, mas com o ADN do som geminado nas sub-cave fumarentas.
Sem temores, a vocalista Paula Oliveira e o arranjador e contrabaixista Bernardo Moreira pegam de estaca nalguns dos monumentos edificados por Zeca Afonso (Que Amor Não Me Engana, Índios da Meia Praia), Mário Pacheco (Há uma Música do Povo) ou Fernando Tordo (Estrela da Tarde) e nalguns escritos de peso (como os de Fernando Pessoa, Ary dos Santos e Sophia de Mello Breyner Andersen), assegurando-lhes uma sucessão honrosa num novo espaço tridimensional inventado por pequenos devaneios vocais de diva de jazz, por uns breves estilhaços de bateria (de Bruno Pedroso) ou por umas aventuras dos dedos Leo Tardin a explorar os limites do largo teclado do piano.
Ao alto, Bernardo Moreira é o faroleiro que vai vigiando os sinais sonoros dos músicos-navegantes, mas focando a luz, a da ribalta, na estrela Paula Oliveira que brilha como pode.
A pilhagem que o título do álbum alerta é muito mais abrangente do que o fado em si e volta a apanhar a memória colectiva da canção portuguesa. O beneficiário é o género popularizado por Louis Armstrong, cuja viagem iniciada em Nova Orleães volta a confirmar o abrigo de um outro porto no imaginário de Lisboa.
Paula Oliveira & Bernardo Moreira ainda não concluíram nada, mas as suas insinuações revisionistas pedem mais um capítulo.
Texto publicado no Cotonete.
Sons & Daughters - This Gift (Domino, 2008)
Ao segundo longo, os escoceses Sons & Daughters voltam a não tirar a mão da quinta, injectando mais uma dose de frenesim à sua indie pop, típico de quem teve outro despertar sôfrego por mais acção. Tocam como quem reforçam ainda mais o traço ondulado no rosto do boneco (sinónimo de felicidade para o lápis de cera iniciado) e andam aí aos trambolhões com o mesmo fogo no rabo que vai sacudindo os nova-iorquinos (e seus contemporâneos) Yeah Yeah Yeahs pelo mundo fora.
Ouvindo This Gift não conseguimos imaginar outra coisa que não a agitada vocalista Adele Bethel a cantar aos saltos. Toda esta ginástica é sincronizada por uma guitarra inesgotavelmente fresca, por um baixo veloz e indiscreto, uma bateria “workahólica” e coros em rebelião, numa sinfonia de boa-disposição.
Esta fúria juvenil de viver encontra-os a meio-caminho entre dois pontos que pareciam distantes: a raiva selvagem de Iggy Pop e a pop aguitarrada e bem feminina que os saudosos Lush propagaram num espaço etéreo acima das nuvens… Uma forma de chamar a This Gift um disco de punk-pop bastante recomendável.
NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO: FESTIVAL VILAR DE MOUROS 2001
Para ser sincero, as recordações desse festival, devo-as quase todas ao mágico e eléctrico concerto de Neil Young & Carzy Horse.
Outras recordações que resistem desse ano vêm do ambiente especial que aquele festival tem e que transcende lógicas comerciais: o charme da terra, a beleza rupestre, o público transgeracional, ou a bela viagem de comboio que começa em Lisboa e que, pouco antes da chegada a Caminha (a última estação), nos permite usufruir a bela costa minhota, a que se segue, já por transportes de quatro rodas, a apreciação do rio Minho e da paisagem galega do outro lado. Lembro-me ainda de nesse ano haver um mundo à parte e freak, uma reggaelândia, animado à noite por uma barraquinha de DJs improvisados e voluntários, no pouco iluminado campo de futebol onde está situado o palco secundário (embora histórico) e que foi recinto central de edições anteriores (1971, 1982 e 1996).
A programação do festival desse ano confirmava a progressiva tendência geral de pouco risco e de reincidência nos mesmos nomes: Ben Harper, Clã, Xutos & Pontapés ou um repetitivo Beck (em baixo de forma criativo) eram alguns exemplos que não traziam novidade ao panorama festivaleiro. A excepção era o estreante (!) Neil Young que finalmente pisava solo português. E foi uma excepção demolidora.
Com um alinhamento orgulhoso da sua história de três décadas, Neil Young e os Crazy Horse intensificavam a sua performance à medida que a chuva se tornava cada vez mais hostil. A idade dos quatro só se fazia sentir nas rugas da pele. O resto, o poderio físico e o êxtase que criavam, era uma inveja para os mais jovens.
A imagem tinha força, as fases instrumentais das canções chamavam Young para junto do baixista Billy Talbot e do guitarrista Frank Sampedro num triângulo apertado e solidário, virado de costas para o público, para um gozo intenso a três de cada música, enquanto o mais longínquo Ralph Molina fazia o que podia na bateria - sem nunca ser o elo mais fraco - para acompanhar todo aquela energia dos três músicos em pê. Quando as canções convocavam de forma desordenada Young, Sampedro e Talbot para a ribalta dos microfones, fazia-se sentir o poder das ventoinhas de palco que agitavam os cabelos e roupas dos músicos. Tudo aquilo era muito bonito.
Doses mistas de rock & roll e de country, dos velhinho bem oleados («Like a Hurricane», «Hey Hey My My») e dos temas novos mas muito pouco verdes (como o brilhante «Goin’ Home»), tudo foi servido em irmandade para um concerto memorável e imperturbável perante a chuva a cântaros. Mas, no final, a teimosa chuva cedeu. Até Deus se rendeu.
Nos dias 13 e 18, respectivamente às 19h00 e às 22h00, a Cinemateca Portuguesa exibe o mais do que recomendável documentário de Jim Jarmusch, Year of the Horse, sobre a digressão de Neil Young & The Crazy Horse, ocorrida em 1996, durante a fase promocional do álbum Broken Arrow.
Eis um cheiro similar e contemporâneo do concerto de Vilar de Mouros…