EXCITAÇÃO DA SEMANA: LOW, «DRUMS AND GUNS»
A sobrevivência dos Low tem sido das mais consistentes da última década e meia. O estreante I Could Live in Hope (1994) ainda se afirma como o álbum-charneira do trio mas estava longe de prenunciar uma vida tão longa e saudável para o grupo, que foi sabendo deslizar para fora daquele som mais pesado e sufocante dos primeiros três álbuns, acrescentando sempre a cada etapa dois ou três pormenores inéditos, sem nunca perder a coerência e a identidade.
Funcionando cada álbum como um desafio para fazer algo de diferente em relação ao anterior, a actualização feita em Drums and Guns alveja um som mais minimal, que se serve de uma electrónica doméstica muito assente na caixa de ritmos e numa estrutura muito simples apoiada na lógica «less is more».
Desenganem-se aqueles que poderão pensar que os Low estão a soar a Young Marble Giants. O som não é tão inocente e não consegue esconder a sapiência musical adquirida ao longo dos anos pelo grupo de Mimi Parker e Alan Sparhawk - os Low já conhecem alguns subterfúgios e a sua experiência talvez os aproxime mais do disco crepuscular dos Yo La Tengo, Summer Sun.
Há pequenos truques, que os Low vão aplicando há muito, como o empurrão dos temas mais fortes e perturbadores para a segunda metade do disco, fixando as melodias menos ostensivas mas mais experimentais, que por vezes parecem esboços, na primeira metade. Respeitando o trajecto aventureiro inicial, as mais arrasadoras canções são guardadas para mais adiante, e o final tem a rendição do ouvinte por garantida e a conclusão de que as dificuldades de digestão mereceram a pena.
Acrescentem as cristalinas harmonias vocais do casal Alan/Mimi, que não há modo de embaciarem, e temos outro grande disco dos Low. (Sub Pop, 2007)
Para a pequena mas muito sólida base de fãs do grupo em Portugal, sobretudo para aqueles que desde cedo (desde o magnífico debute, I Could Live in Hope, em 1994) se começaram a familiarizar com o seu som arrastado, a noite de ontem, no Santiago Alquimista (Lisboa), foi como uma matança de um resistente borrego - segundo modos lentos e pacíficos como convém.
A lynchiana cortina avermelhada da sala foi uma coincidência cenográfica proporcional para um concerto condenado à partida ao sucesso, em que era fácil as coisas correrem bem. Mesmo sem os préstimos do baixista de longa data Zak Sally, com Matt Livingston no seu lugar, os catorze anos de disciplina produtiva exemplar que o grupo já leva, aliados ao talento (mesmo que sem pontos altos de génio), tem que produzir resultados que só podem ser bons: as brilhantes harmonias vocais entre o guitarrista e líder Alan Sparhawk e a baterista de pé Mimi Parker, a maleabilidade instrumental que os permite improvisar e corrigir os alinhamentos a meio do concerto, e um sentimento confortável com o seu estatuto de banda fúnebre. Tudo isto conduzi-os a novos louvores e a um segundo encore não previsto.
Alô fãs de Low - de Joy Division, de David Lynch, de Angelo Badalamenti, de Pixies, de Mazzy Star, de Grant Lee Buffalo… e de outros parentes!? O trio norte-americano Low vem finalmente a Portugal para perturbar o andamento natural das estações e inaugurar a época outonal no mês quente de Junho: é no dia 2, no Santiago Alquimista, em Lisboa.