ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Wednesday, October 31, 2007
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #14: JOY DIVISION, «LOVE WILL TEAR US APART» (1980)
Ian Curtis já cercava há muito a perfeição nas letras - e os Joy Division faziam o mesmo na sua música - mas nunca Curtis nunca a ameaçou tanto como em «Love Will Tear Us Apart» - os Joy Division seguiram o repto.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #13: CHICO BUARQUE, «GENI E O ZEPELIM» (1979)
Eis mais uma dança fascinante da pena de Chico Buarque - com ironia, sensibilidade e a arte de cantar um arrepiante conto. É mais um brilhante conjunto de minutos da colecção de inspirações de Chico.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #12: RAMONES, «THE KKK TOOK MY BABY AWAY» (1981)
Descodificação: Joey Ramone, o vocalista, era de esquerda; Johnny Ramone, o guitarrista, era de direita. Joey tinha uma miúda, Johnny ficou com ela.
A letra merece ser lida não por ser extraordinária mas por explicar por que razão os Ramones já não eram a família feliz que chegaram a cantar em «We’re a Happy Family» (1977). O flagelo das descombinações de Cupido atingiu em cheio, e de forma abrupta, o núcleo central da banda fundadora do punk. O silêncio entre a banda passou a ser ensurdecedor, o assunto dos Ramones passou a ser apenas profissional.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #11: JORGE PALMA, «ONDE ESTÁS TU MAMÃ (A CANÇÃO DE LISBOA)» (1984)
Numa semana em que Lisboa estará na berlinda por motivos eleitorais, eis uma visão desencantada sobre «a cidade branca», sob a pena encantada de Jorge Palma.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #10: THE DOORS, «THE END» (1967)
«The End», dos Doors, permanece como uma das odisseias espirituais mais míticas da história do rock. E tornou-se num dos mais inspirados exercícios de escrita de Jim Morrison, recheado de metáforas, alienação e controvérsia. A inspiração das linhas maiores de polémica, da tragédia familiar de sangue e incesto, são colhidas na literatura grega clássica, a partir do livro de Sófocles, Édipo O Rei.
O tema tem ganho uma vida própria, com trajecto glorificado no clássico do cinema de guerra Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola - a canção sonoriza algumas das cenas mais marcantes do filme.
Letra: Jim Morrison
Composição e interpretação: The Doors
Álbum a que pertence:The Doors
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes…again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need…of some…stranger’s hand
In a…desperate land
Lost in a Roman…wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah
There’s danger on the edge of town
Ride the King’s highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby
Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake…he’s old, and his skin is cold
The west is the best
The west is the best
Get here, and we’ll do the rest
The blue bus is callin’ us
The blue bus is callin’ us
Driver, where you taken’ us
The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and…then he
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: JOSÉ AFONSO, «A MORTE SAIU À RUA» (1972)
As letras de Zeca Afonso eram um misto brilhante de poesia popular com uma observação sensível de um país amordaçado que o cantautor conheceu bem no seu périplo pelo interior, sobretudo alentejano, como professor.
«A Morte Saiu à Rua» é das letras mais geniais e também mais corajosas, direitas à clandestinidade e à verdade mais incómoda. Mas nem diante da realidade mais deprimente e cruel de uma ditadura, Zeca deixa de lançar uma última farpa optimista, como acontece em «A Morte Saiu à Rua» - e teve razão. A pessoas como ele, devemos a liberdade de que ele nunca quis prescindir.
Letra, composição e interpretação: José Afonso
Álbum a que pertence:Eu Vou Ser Como a Toupeira
A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai.
O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu.
Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou.
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação.
Interpretação de «A Morte Saiu à Rua» naquele que foi um dos últimos concertos de Zeca Afonso, ocorrido no Coliseu dos Recreios, Lisboa, em 1983.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: PIXIES, «I’VE BEEN TIRED» (1987)
Havia nas canções dos Pixies um paralelismo explosivo de golpes de asas sucessivos entre a sua estrutura musical que inverteu os parâmetros normais, e as letras destemidas e cortantes de Black Francis.
Raras vezes se encontra na história do rock um estado de arrebatamento criativo tão selvagem como o que abençoou Black no arranque dos Pixies, com o EP Come On Pilgrim e o álbum Surfer Rosa a alterarem os códigos de então como uma lufada de ar fresco furiosa. Antes de seguir um via lírica mais surrealista (sob os ímpetos do cineasta Luis Buñuel e do pintor Salvador Dali) e mais espacial (a que se seguiram outras bem interessantes na sua carreira a solo), Black revelou-se como um mensageiro de um imaginário imprevisível de sexo, incesto e violência. Uma das muitas letras absolutamente geniais de Black é esta, «I’ve Been Tired», onde o compositor recorre a uma mestria sua enquanto escritor de canções, a criação de um diálogo, deixando frases que marcam como «loosing my penis to a whore with disease», na conversa com uma prostituta.
Letra e composição: Black Francis
Interpretação: Pixies
Disco a que pertence:Come On Pilgrim EP
One two three
She’s a real left winger ’cause she been down south
And held peasants in her arms
She said “I could tell you a story that could make you cry”
“What about you?”
I said “Me too”
“I could tell you a story that will make you cry”
And she sighed “Aaahh”
I said “I wanna be a singer like Lou Reed”
“I like Lou Reed” she said sticking her tongue in my ear
“Let’s go, let’s sit, let’s talk”
“Politics go so good with beer”
“And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?”
I said “Loosing my penis to a whore with disease”
“Just kidding” I said “Loosing my life to a whore with disease”
I said “Please… I’m a humble guy with a healthy desire”
“Don’t give me no shit because…”
I’ve been tired
I tell a tale of a girl, but I call her a woman
She’s a little bit older than me
Strong legs, strong face, voice like milk, breasts like a cluster of grapes
I can’t escape the ways she raise me
She’ll make you feel like Solomon be one of your babies even if you had no one
(And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?)
Não há registo de um fluxo tão criativo na pop portuguesa como o período dos GNR entre 1981 (o seu início) e 1986, que é abrilhantado pelos álbuns Independança (1982), Defeitos Especiais (1984), Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) e Psicopátria (1986), e por singles e maxis que nunca conseguiram a discrição pelas boas razões.
É também difícil encontrar na música moderna portuguesa uma figura criativa tão interessante como Rui Reininho - um espontâneo performer e um arrasador letrista, ou na súmula, como bem lhe caracterizou Paulo Varela Gomes, «o maior poeta português ao vivo». E se houve uma componente do trabalho que resistiu à decadência dos GNR, foi aquela que estava estritamente sob sua alçada: a escrita das letras.
Entre a sucessão de pérolas que os GNR foram dando, o público elegeu a canção «Dunas» como hino. Os GNR iam conseguindo concretizar a média invejável de uma nova forma de composição por canção, mas aquela pureza terna de «Dunas» escapou do seu berço experimental e encaminhou o grupo para um corta-mato inesperado para o sucesso, embelezando vidas de milhares de casais e testando sentimentos nostálgicos de outros corações com uma frescura primaveril ainda hoje intacta.
O cosmopolitismo dos GNR fazia interagir há muito as margens do Douro com o melhor que saiu das cave barulhentas da Nova Iorque intelectual pós-punk (os Talking Heads eram os repescados), mas a brisa nortenha de «Dunas» foi um ar que deu a Reininho na sua definição poética do humor mordaz, do atrevimento, da saudade e da inocência. Foi a penada perfeita para aquele charme sonoro de portugalidade além-fronteiras (que reclamava a entrada na CEE) da banda. Em «Dunas», ao sabor do acordeão, encontraram a chave de genialidade pop (a simplicidade) e romperam.
Letra: Rui Reininho
Composição e interpretação: GNR
Álbum a que pertence:Os Homens Não Se Querem Bonitos
Dunas, são como divãs,
Biombos indiscretos de alcatrão sujo
Rasgados por cactos e hortelãs,
Deitados nas Dunas, alheios a tudo,
Olhos penetrantes,
Pensamentos lavados.
Bebemos dos lábios, refrescos gelados
Selamos segredos,
Saltamos rochedos,
Em câmara lenta como na TV,
Palavras a mais na idade dos “PORQUÊ”
Dunas, como que são divãs
Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados
Sacos camas salgados,
Nas Dunas, roendo maçãs
A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: «SUZANNE», LEONARD COHEN (1968)
A letra da mais famosa canção de sempre de Leonard Cohen, «Suzanne», foi primeiro publicada como um poema, denominado «Suzanne Takes You Down», no seu livro Parasites of Heaven (de 1966). A canção de Cohen é primeiro revelada pela cantora folk Judy Collins, no álbum In My Life (1966). Dois anos depois, «Suzanne» é cantada pelo seu autor, no seu longo discográfico de estreia, The Songsof Leonard Cohen.
O escrito é inspirado pelos vários encontros íntimos entre o poeta canadiano e a dançarina e coreógrafa Suzanne Verdal - mulher do amigo e escultor Armand Vaillancourt - ocorridos na roulotte da última e num apartamento de hotel, em Montreal, nos anos 60. Assente na relação não-carnal repleta de desejo, a letra da canção é desenvolvida pelo hábito de Cohen em ilustrar as suas próprias experiências com referências bíblicas.
Letra, composição e interpretação: Leonard Cohen
Suzanne takes you down to her place newer the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that shes half crazy
But that’s why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from china
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you’ve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind.
And jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you’ll trust him
For he’s touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes you hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From salvation army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For she’s touched your perfect body with her mind.
Depois do êxito da canção, os dois, Leonard e Suzanne, encontrar-se-iam mais duas vezes.
Nos anos 70, Suzanne Verdal vai ver um concerto de Cohen na cidade onde vivia então, Minneapolis, e ganha coragem para ir depois aos bastidores onde vê Leonard Cohen rodeado de fãs e jornalistas. Suzanne aproxima-se dele: «Olá! Grande concerto!». «Deste-me uma grande canção, miúda». A confusão de gente à volta interrompeu o curto diálogo.
Bastantes anos mais tarde, Suzanne vê com os seus próprios olhos o cantor. Ele viu uma mulher mais velha, mas não a reconheceu.
Suzanne Verdal continua fiel à sua vida nómada de hippie e vive hoje numa carrinha - foi encontrada há um ano por jornalistas da CBS numa comunidade de Venice Beach (Califórnia) - bastante aquém do conforto financeiro do cantor. A musa manteve-se igual a si mesma, o poeta prosseguiu a sua caminhada.
Abaixo, uma curta interpretação da canção por Leonard Cohen, no histórico Festival da Ilha de Wight, de 1970.
LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: «AQUARELA», DE TOQUINHO/VINíCIUS DE MORAES
Onze anos de parceria entre o poeta e compositor (e ex-diplomata) Vinicius de Moraes e o músico e cantor Toquinho deram ao mundo maravilhas como a canção «Aquarela», um mimo de simplicidade e de genialidade no seu todo. A relação profícua entre Vinicius e Toquinho durou até ao último dia de vida do primeiro: 9 de Julho de 1980.
Letra: Vinicius de Moraes
Composição: Vinicius de Moraes e Toquinho
Interpretação: Toquinho
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul
Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul
Pinto um barco a vela branco navegando,
é tanto céu e mar num beijo azul
Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená
Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar
Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo
e se a gente quiser ele vai pousar
Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida
com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida
De uma América a outra consigo passar num segundo
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo
Um menino caminha e caminhando chega no muro
e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está
E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar
Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar
Sem pedir licença muda nossa vida,
depois convida a rir ou chorar
Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela
de uma aquarela que um dia enfim
Descolorirá
Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá)
e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá)
Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (e descolorirá)