Wednesday, October 31, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #14: JOY DIVISION, «LOVE WILL TEAR US APART» (1980)

                                                                                             Ian Curtis já cercava há muito a perfeição nas letras - e os Joy Division faziam o mesmo na sua música - mas nunca Curtis nunca a ameaçou tanto como em «Love Will Tear Us Apart» - os Joy Division seguiram o repto.

Letra: Ian Curtis

Composição e interpretação: Joy Division

When routine bites hard,

And ambitions are low,

And resentment rides high,

But emotions won’t grow,

And we’re changing our ways,

Taking different roads.

Then love, love will tear us apart again.

Love, love will tear us apart again.

Why is the bedroom so cold?

You’ve turned away on your side.

Is my timing that flawed?

Our respect runs so dry.

Yet there’s still this appeal

That we’ve kept through our lives.

But love, love will tear us apart again.

Love, love will tear us apart again.

You cry out in your sleep,

All my failings exposed.

And there’s a taste in my mouth,

As desperation takes hold.

Just that something so good

Just can’t function no more.

But love, love will tear us apart again.

Love, love will tear us apart again.

Love, love will tear us apart again.

Love, love will tear us apart again.

alt : http://www.youtube.com/v/BNMbuygEju8&rel=1

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Thursday, September 27, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #13: CHICO BUARQUE, «GENI E O ZEPELIM» (1979)

                                                                                                 Eis mais uma dança fascinante da pena de Chico Buarque - com ironia, sensibilidade e a arte de cantar um arrepiante conto. É mais um brilhante conjunto de minutos da colecção de inspirações de Chico.

Letra, composição e interpretação: Chico Buarque.

Álbum a que pertence: Ópera do Malandro

 

De tudo que é nego torto

Do mangue e do cais do porto

Ela já foi namorada

O seu corpo é dos errantes

Dos cegos, dos retirantes

É de quem não tem mais nada.

Dá-se assim desde menina

Na garagem, na cantina

Atrás do tanque, no mato

É a rainha dos detentos

Das loucas, dos lazarentos

Dos moleques do internato.

E também vai amiúde

Co’os velhinhos sem saúde

E as viúvas sem porvir

Ela é um poço de bondade

E é por isso que a cidade

Vive sempre a repetir

Joga pedra na Geni!

Joga pedra na Geni!

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um Maldita Geni!

Um dia surgiu, brilhante

Entre as nuvens, flutuante

Um enorme zepelim

Pairou sobre os edifícios

Abriu dois mil orifícios

Com dois mil canhões assim.

A cidade apavorada

Se quedou paralisada

Pronta pra virar geléia

Mas do zepelim gigante

Desceu o seu comandante

Dizendo - «Mudei de ideia».

Quando vi nesta cidade

Tanto horror e iniquidade

Resolvi tudo explodir

Mas posso evitar o drama

Se aquela famosa dama

Esta noite me servir.

Essa dama era Geni

Mas não pode ser Geni

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um Maldita Geni!

Mas de fato, logo ela

Tão coitada e tão singela

Cativara o forasteiro

O guerreiro tão vistoso

Tão temido e poderoso

Era dela, prisioneiro.

Acontece que a donzela - e isso era segredo dela

Também tinha seus caprichos

E a deitar com homem tão nobre

Tão cheirando a brilho e a cobre

Preferia amar com os bichos.

Ao ouvir tal heresia

A cidade em romaria

Foi beijar a sua mão

O prefeito de joelhos

O bispo de olhos vermelhos

E o banqueiro com um milhão.

Vai com ele, vai Geni!

Vai com ele, vai Geni!

Você pode nos salvar

Você vai nos redimir

Você dá pra qualquer um Bendita Geni!

Foram tantos os pedidos

Tão sinceros tão sentidos

Que ela dominou seu asco

Nessa noite lancinante

Entregou-se a tal amante

Como quem dá-se ao carrasco

Ele fez tanta sujeira

Lambuzou-se a noite inteira

Até ficar saciado

E nem bem amanhecia

Partiu numa nuvem fria

Com seu zepelim prateado

Num suspiro aliviado

Ela se virou de lado

E tentou até sorrir

Mas logo raiou o dia

E a cidade em cantoria

Não deixou ela dormir.

Joga pedra na Geni!

Joga bosta na Geni!

Ela é feita pra apanhar

Ela é boa de cuspir

Ela dá pra qualquer um Maldita Geni!

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Wednesday, August 8, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #12: RAMONES, «THE KKK TOOK MY BABY AWAY» (1981)

                                                                               Descodificação: Joey Ramone, o vocalista, era de esquerda; Johnny Ramone, o guitarrista, era de direita. Joey tinha uma miúda, Johnny ficou com ela. 

A letra merece ser lida não por ser extraordinária mas por explicar por que razão os Ramones já não eram a família feliz que chegaram a cantar em «We’re a Happy Family» (1977). O flagelo das descombinações de Cupido atingiu em cheio, e de forma abrupta, o núcleo central da banda fundadora do punk. O silêncio entre a banda passou a ser ensurdecedor, o assunto dos Ramones passou a ser apenas profissional.

Letra: Joey Ramone

Composição e interpretação: Ramones

Álbum a que pertence: Pleasant Dreams

 

She went away for the holidays

Said she’s going to L.A.

But she never got there

She never got there

She never got there, they say

The KKK took my baby away

They took her away

Away from me

The KKK took my baby away

They took her away

Away from me

Now I don’t know

Where my baby can be

They took her from me

They took her from me

I don’t know

Where my baby can be

They took her from me

They took her from me

Ring me, ring me ring me

Up the President

And find out

Where my baby went

Ring me, ring me, ring me

Up the FBI

And find out if

My baby’s alive

Yeah, yeah, yeah

alt : http://www.youtube.com/v/p-4EZyPIsSY

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Wednesday, July 11, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #11: JORGE PALMA, «ONDE ESTÁS TU MAMÃ (A CANÇÃO DE LISBOA)» (1984)

                                                                                                Numa semana em que Lisboa estará na berlinda por motivos eleitorais, eis uma visão desencantada sobre «a cidade branca», sob a pena encantada de Jorge Palma.

Letra, composição e interpretação: Jorge Palma

Álbum de originais a que pertence: Asas e Penas

Os serões habituais

E as conversas sempre iguais

Os horóscopos, os signos e ascendentes

Mais a vida da outra sussurrada entre dentes

Os convites nos olhos embriagados

Os encontros de novo adiados

Nos ouvidos cansados ecoa

A canção de Lisboa

Não está só a solidão

Há tristeza e compaixão

Quando o sono acalma os corpos agitados

Pela noite atirados contra colchões errados

Há o silêncio de quem não ri nem chora

Há divórcio entre o dentro e o fora

Há quem diga que nunca foi boa

A canção de Lisboa

Mamã, mamã

Onde estás tu, mamã?

Nós sem ti não sabemos, mamã,

Libertar-nos do mal

Mamã, mamã

Onde estás tu, mamã?

Nós sem ti não sabemos, mamã,

Libertar-nos do mal

A urgência de agarrar

Qualquer coisa para mostrar

Que afinal nós também temos mão na vida

Mesmo que seja à custa de a vivermos fingida

O estatuto para impressionar o mundo

Não precisa de ser mais profundo

Que o marasmo que nos atordoa

Ó canção de Lisboa

As vielas de néon

E as guitarras já sem som

Vão mantendo viva a tradição da fome

Que a memória deturpa e o orgulho consome

Entre o orgasmo na gruta ainda fria

E o abandono da carne vazia

Cada um no seu canto entoa

A canção de Lisboa

Mamã, mamã

Onde estás tu, mamã?

Nós sem ti não sabemos, mamã,

Libertar-nos do mal

Mamã, mamã

Onde estás tu, mamã?

Nós sem ti não sabemos, mamã,

Libertar-nos do mal

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Wednesday, June 20, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS #10: THE DOORS, «THE END» (1967)

                                                                                                    «The End», dos Doors, permanece como uma das odisseias espirituais mais míticas da história do rock. E tornou-se num dos mais inspirados exercícios de escrita de Jim Morrison, recheado de metáforas, alienação e controvérsia. A inspiração das linhas maiores de polémica, da tragédia familiar de sangue e incesto, são colhidas na literatura grega clássica, a partir do livro de Sófocles, Édipo O Rei.

O tema tem ganho uma vida própria, com trajecto glorificado no clássico do cinema de guerra Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola - a canção sonoriza algumas das cenas mais marcantes do filme.

Letra: Jim Morrison

Composição e interpretação: The Doors

Álbum a que pertence: The Doors

 

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

 

Of our elaborate plans, the end

Of everything that stands, the end

No safety or surprise, the end

I’ll never look into your eyes…again

 

Can you picture what will be

So limitless and free

Desperately in need…of some…stranger’s hand

In a…desperate land

 

Lost in a Roman…wilderness of pain

And all the children are insane

All the children are insane

Waiting for the summer rain, yeah

 

There’s danger on the edge of town

Ride the King’s highway, baby

Weird scenes inside the gold mine

Ride the highway west, baby

 

Ride the snake, ride the snake

To the lake, the ancient lake, baby

The snake is long, seven miles

Ride the snake…he’s old, and his skin is cold

 

The west is the best

The west is the best

Get here, and we’ll do the rest

 

The blue bus is callin’ us

The blue bus is callin’ us

Driver, where you taken’ us

 

The killer awoke before dawn, he put his boots on

He took a face from the ancient gallery

And he walked on down the hall

He went into the room where his sister lived, and…then he

Paid a visit to his brother, and then he

He walked on down the hall, and

And he came to a door…and he looked inside

Father, yes son, I want to kill you

Mother…I want to…fuck you

 

C’mon baby, take a chance with us

C’mon baby, take a chance with us

C’mon baby, take a chance with us

And meet me at the back of the blue bus

Doin’ a blue rock

On a blue bus

Doin’ a blue rock

C’mon, yeah

 

Kill, kill, kill, kill, kill, kill

This is the end

Beautiful friend

This is the end

My only friend, the end

 

It hurts to set you free

But you’ll never follow me

The end of laughter and soft lies

The end of nights we tried to die

 

This is the end

alt : http://www.youtube.com/v/dbI5K0AzNHI

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Thursday, May 31, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: JOSÉ AFONSO, «A MORTE SAIU À RUA» (1972)

                                                                                       As letras de Zeca Afonso eram um misto brilhante de poesia popular com uma observação sensível de um país amordaçado que o cantautor conheceu bem no seu périplo pelo interior, sobretudo alentejano, como professor.

«A Morte Saiu à Rua» é das letras mais geniais e também mais corajosas, direitas à clandestinidade e à verdade mais incómoda. Mas nem diante da realidade mais deprimente e cruel de uma ditadura, Zeca deixa de lançar uma última farpa optimista, como acontece em «A Morte Saiu à Rua» - e teve razão. A pessoas como ele, devemos a liberdade de que ele nunca quis prescindir.

Letra, composição e interpretação: José Afonso

Álbum a que pertence: Eu Vou Ser Como a Toupeira

A morte saiu à rua num dia assim

Naquele lugar sem nome pra qualquer fim

Uma gota rubra sobre a calçada cai

E um rio de sangue dum peito aberto sai.

O vento que dá nas canas do canavial

E a foice duma ceifeira de Portugal

E o som da bigorna como um clarim do céu

Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu.

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual

Só olho por olho e dente por dente vale

À lei assassina à morte que te matou

Teu corpo pertence à terra que te abraçou.

Aqui te afirmamos dente por dente assim

Que um dia rirá melhor quem rirá por fim

Na curva da estrada há covas feitas no chão

E em todas florirão rosas duma nação.

Interpretação de «A Morte Saiu à Rua» naquele que foi um dos últimos concertos de Zeca Afonso, ocorrido no Coliseu dos Recreios, Lisboa, em 1983.

alt : http://www.youtube.com/v/2yZkC3YCU20

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Thursday, May 17, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: PIXIES, «I’VE BEEN TIRED» (1987)

Havia nas canções dos Pixies um paralelismo explosivo de golpes de asas sucessivos entre a sua estrutura musical que inverteu os parâmetros normais, e as letras destemidas e cortantes de Black Francis.

Raras vezes se encontra na história do rock um estado de arrebatamento criativo tão selvagem como o que abençoou Black no arranque dos Pixies, com o EP Come On Pilgrim e o álbum Surfer Rosa a alterarem os códigos de então como uma lufada de ar fresco furiosa. Antes de seguir um via lírica mais surrealista (sob os ímpetos do cineasta Luis Buñuel e do pintor Salvador Dali) e mais espacial (a que se seguiram outras bem interessantes na sua carreira a solo), Black revelou-se como um mensageiro de um imaginário imprevisível de sexo, incesto e violência. Uma das muitas letras absolutamente geniais de Black é esta, «I’ve Been Tired», onde o compositor recorre a uma mestria sua enquanto escritor de canções, a criação de um diálogo, deixando frases que marcam como «loosing my penis to a whore with disease», na conversa com uma prostituta. 

 

Letra e composição: Black Francis

Interpretação: Pixies

Disco a que pertence: Come On Pilgrim EP

One two three

She’s a real left winger ’cause she been down south

And held peasants in her arms

She said “I could tell you a story that could make you cry”

“What about you?”

I said “Me too”

“I could tell you a story that will make you cry”

And she sighed “Aaahh”

I said “I wanna be a singer like Lou Reed”

“I like Lou Reed” she said sticking her tongue in my ear

“Let’s go, let’s sit, let’s talk”

“Politics go so good with beer”

“And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?”

I said “Loosing my penis to a whore with disease”

“Just kidding” I said “Loosing my life to a whore with disease”

I said “Please… I’m a humble guy with a healthy desire”

“Don’t give me no shit because…”

I’ve been tired

I tell a tale of a girl, but I call her a woman

She’s a little bit older than me

Strong legs, strong face, voice like milk, breasts like a cluster of grapes

I can’t escape the ways she raise me

She’ll make you feel like Solomon be one of your babies even if you had no one

(And while we’re at it baby, why don’t you tell me one of your biggest fears?)

Took my sleep after setting my loins on fire

But that’s OK because…

I’ve been tired

I’ve been tired

T-i-r-e-d spells it

Spells it

alt : http://www.youtube.com/v/KZgYIgQ21Gk

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Monday, April 30, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: GNR, «DUNAS» (1985)

Não há registo de um fluxo tão criativo na pop portuguesa como o período dos GNR entre 1981 (o seu início) e 1986, que é abrilhantado pelos álbuns Independança (1982), Defeitos Especiais (1984), Os Homens Não Se Querem Bonitos (1985) e Psicopátria (1986), e por singles e maxis que nunca conseguiram a discrição pelas boas razões.

É também difícil encontrar na música moderna portuguesa uma figura criativa tão interessante como Rui Reininho - um espontâneo performer e um arrasador letrista, ou na súmula, como bem lhe caracterizou Paulo Varela Gomes, «o maior poeta português ao vivo». E se houve uma componente do trabalho que resistiu à decadência dos GNR, foi aquela que estava estritamente sob sua alçada: a escrita das letras.

Entre a sucessão de pérolas que os GNR foram dando, o público elegeu a canção «Dunas» como hino. Os GNR iam conseguindo concretizar a média invejável de uma nova forma de composição por canção, mas aquela pureza terna de «Dunas» escapou do seu berço experimental e encaminhou o grupo para um corta-mato inesperado para o sucesso, embelezando vidas de milhares de casais e testando sentimentos nostálgicos de outros corações com uma frescura primaveril ainda hoje intacta.

O cosmopolitismo dos GNR fazia interagir há muito as margens do Douro com o melhor que saiu das cave barulhentas da Nova Iorque intelectual pós-punk (os Talking Heads eram os repescados), mas a brisa nortenha de «Dunas» foi um ar que deu a Reininho na sua definição poética do humor mordaz, do atrevimento, da saudade e da inocência. Foi a penada perfeita para aquele charme sonoro de portugalidade além-fronteiras (que reclamava a entrada na CEE) da banda. Em «Dunas», ao sabor do acordeão, encontraram a chave de genialidade pop (a simplicidade) e romperam.    

Letra: Rui Reininho

Composição e interpretação: GNR

Álbum a que pertence: Os Homens Não Se Querem Bonitos

 

Dunas, são como divãs,

Biombos indiscretos de alcatrão sujo

Rasgados por cactos e hortelãs,

Deitados nas Dunas, alheios a tudo,

Olhos penetrantes,

Pensamentos lavados.

Bebemos dos lábios, refrescos gelados

Selamos segredos,

Saltamos rochedos,

Em câmara lenta como na TV,

Palavras a mais na idade dos “PORQUÊ”

Dunas, como que são divãs

Quem nos visse deitados de cabelos molhados bastante enrolados

Sacos camas salgados,

Nas Dunas, roendo maçãs

A ver garrafas de óleo boiando vazias nas ondas da manhã

Bebemos dos lábios, refrescos gelados,

nas dunas!

Em câmara lenta como na TV,

Nas dunas..

Nas dunas..

Nas dunas…

Nas dunas..

Refrescos gelados…

Como na TV.

Nas dunas…

alt : http://www.youtube.com/v/-DvtDLkIiTc

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Thursday, April 12, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: «SUZANNE», LEONARD COHEN (1968)

A letra da mais famosa canção de sempre de Leonard Cohen, «Suzanne», foi primeiro publicada como um poema, denominado «Suzanne Takes You Down», no seu livro Parasites of Heaven (de 1966). A canção de Cohen é primeiro revelada pela cantora folk Judy Collins, no álbum In My Life (1966). Dois anos depois, «Suzanne» é cantada pelo seu autor, no seu longo discográfico de estreia, The Songs of Leonard Cohen

O escrito é inspirado pelos vários encontros íntimos entre o poeta canadiano e a dançarina e coreógrafa Suzanne Verdal - mulher do amigo e escultor Armand Vaillancourt - ocorridos na roulotte da última e num apartamento de hotel, em Montreal, nos anos 60. Assente na relação não-carnal repleta de desejo, a letra da canção é desenvolvida pelo hábito de Cohen em ilustrar as suas próprias experiências com referências bíblicas.

Letra, composição e interpretação: Leonard Cohen   

Suzanne takes you down to her place newer the river

You can hear the boats go by

You can spend the night beside her

And you know that shes half crazy

But that’s why you want to be there

And she feeds you tea and oranges

That come all the way from china

And just when you mean to tell her

That you have no love to give her

Then she gets you on her wavelength

And she lets the river answer

That you’ve always been her lover

And you want to travel with her

And you want to travel blind

And you know that she will trust you

For you’ve touched her perfect body with your mind.

And jesus was a sailor

When he walked upon the water

And he spent a long time watching

From his lonely wooden tower

And when he knew for certain

Only drowning men could see him

He said all men will be sailors then

Until the sea shall free them

But he himself was broken

Long before the sky would open

Forsaken, almost human

He sank beneath your wisdom like a stone

And you want to travel with him

And you want to travel blind

And you think maybe you’ll trust him

For he’s touched your perfect body with his mind.

Now Suzanne takes you hand

And she leads you to the river

She is wearing rags and feathers

From salvation army counters

And the sun pours down like honey

On our lady of the harbour

And she shows you where to look

Among the garbage and the flowers

There are heroes in the seaweed

There are children in the morning

They are leaning out for love

And they will lean that way forever

While suzanne holds the mirror

And you want to travel with her

And you want to travel blind

And you know that she will trust you

For she’s touched your perfect body with her mind.

Depois do êxito da canção, os dois, Leonard e Suzanne, encontrar-se-iam mais duas vezes.

Nos anos 70, Suzanne Verdal vai ver um concerto de Cohen na cidade onde vivia então, Minneapolis, e ganha coragem para ir depois aos bastidores onde vê Leonard Cohen rodeado de fãs e jornalistas. Suzanne aproxima-se dele: «Olá! Grande concerto!». «Deste-me uma grande canção, miúda». A confusão de gente à volta interrompeu o curto diálogo.

Bastantes anos mais tarde, Suzanne vê com os seus próprios olhos o cantor. Ele viu uma mulher mais velha, mas não a reconheceu.

Suzanne Verdal continua fiel à sua vida nómada de hippie e vive hoje numa carrinha - foi encontrada há um ano por jornalistas da CBS numa comunidade de Venice Beach (Califórnia) - bastante aquém do conforto financeiro do cantor. A musa manteve-se igual a si mesma, o poeta prosseguiu a sua caminhada.

Abaixo, uma curta interpretação da canção por Leonard Cohen, no histórico Festival da Ilha de Wight, de 1970.

 

alt : http://www.youtube.com/v/L7WQtIDrgBA

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Thursday, March 29, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: «AQUARELA», DE TOQUINHO/VINíCIUS DE MORAES

                                                                    Onze anos de parceria entre o poeta e compositor (e ex-diplomata) Vinicius de Moraes e o músico e cantor Toquinho deram ao mundo maravilhas como a canção «Aquarela», um mimo de simplicidade e de genialidade no seu todo. A relação profícua entre Vinicius e Toquinho durou até ao último dia de vida do primeiro: 9 de Julho de 1980.

Letra: Vinicius de Moraes

Composição: Vinicius de Moraes e Toquinho

Interpretação: Toquinho

 

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo

E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo

Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva

E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva

Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel

num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu

Vai voando, contornando a imensa curva Norte e Sul

Vou com ela viajando Havaí, Pequim ou Istambul

Pinto um barco a vela branco navegando,

é tanto céu e mar num beijo azul

Entre as nuvens vem surgindo um lindo avião rosa e grená

Tudo em volta colorindo, com suas luzes a piscar

Basta imaginar e ele está partindo, sereno e lindo

e se a gente quiser ele vai pousar

Numa folha qualquer eu desenho um navio de partida

com alguns bons amigos bebendo de bem com a vida

De uma América a outra consigo passar num segundo

Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo

Um menino caminha e caminhando chega no muro

e ali logo em frente a esperar pela gente o futuro está

E o futuro é uma astronave que tentamos pilotar

Não tem tempo nem piedade nem tem hora de chegar

Sem pedir licença muda nossa vida,

depois convida a rir ou chorar

Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá

O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar

Vamos todos numa linda passarela

de uma aquarela que um dia enfim

Descolorirá

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo (que descolorirá)

e com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo (que descolorirá)

Giro um simples compasso e num círculo eu faço o mundo (e descolorirá)

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