FESTIVAL SBSR: 2º E 3º DIAS DO ACTO INDIE
Os LCD Soundsystem corresponderam aos pergaminhos de um cabeça-de-cartaz, e foram os senhores da segunda noite. James Murphy ocupa muito bem o seu papel de patrão de banda, não dando folgas físicas aos seus parceiros, mas dando o exemplo, em nome de uma boa causa: um concerto corporal e musicalmente exigente e intenso. A música é um sumário dos anos 80, dos sons mecânicos dos Human League à estrutura rítmica revolucionária dos Gang of Four, mas através de uma filtragem com a assinatura muito pessoal de Murphy, que usa a sua absorção de ouvinte de longa data como ponto de partida para uma exploração mais criativa. James Murphy não parece, mas ele é tudo: criador, intérprete, instrumentista e, também, entertainer.
Os Jesus & Mary Chain são mais um caso de pouca imunidade perante a epidemia da nostalgite que alastra por várias bandas regressadas. O grupo dos irmãos Reid apresenta vários sintomas dessa doença como palidez, uma desvantagem visual e sonora enorme perante o passado e uma notória preguiça criativa presente (incluindo na interpretação dos clássicos). Apesar de tudo isso, o concerto funcionou. O set contínuo denunciava fobia a intervalos (isto é, a banda ter que dizer qualquer coisa), a banda finge não gostar de estar ali (ao mesmo que se sente que eles no fundo adoram tudo aquilo), e Jim parece um cantor de karaoke contrariado que podia ser substituído pelo fã de Jesus mais banal (quando, na verdade, só Jim Reid pode ser Jim Reid porque a aura ainda o cerca). Fazer dos defeitos virtudes tem um nome: estilo. E os Jesus têm-no. A receita de três acordes, que liga Velvet Underground a Sex Pistols e inaugura o conceito indie que hoje conhecemos, continua a ser uma invenção fabulosa que lhes pertence. E que vai sacudindo os deméritos - como aconteceu no SBSR.
Os Mäximo Park oscilam entre o melhor e o pior. Isto é, entre Kinks e James Blunt. Desta intermitência tem que se desconfiar, mas não há dúvida que o simpático vocalista Paul Smith (com fato vitoriano completo) fartou-se de saltar. Ainda bem para ele.
Os Clap Your Hands Say Yeah embelezaram o final de tarde e revelaram inteligência ao preferirem dar prioridade no alinhamento às música mais geométricas e inocentes do álbum de estreia, de título homónimo, do que aos temas mais sinuosos do também interessantíssimo segundo disco, Some Loud Thunder. O quinteto nova-iorquino é mais fraco na primeira impressão do que na substância. Ou seja, expõem de forma caricatural as suas influências (quase sempre Talking Heads, raramente Bob Dylan). A sua individualidade e romantismo, que os torna numa das bandas pop/rock da actualidade, necessita de maior intimismo e de tempo para os apreender e dar conta da sua existência. 50 minutos foram suficientes para um bom concerto, mais outros 50 e talvez tivéssemos tido uma actuação inesquecível.
Se o segundo dia do acto indie teve um rei nocturno (James Murphy) e os seus LCD Soundsystem, o terceiro dia teve uma rainha diurna: Beth, a vocalista de medidas largas (físicas, vocais, de carisma, em todo o sentido do palco) dos Gossip. Tem garra de Janis Joplin, mas inserida numa banda punk minimalista, socorrida apenas por mais um guitarrista (também baixista) e uma baterista. Que bela prestação de blues-punk!
Os TV on the Radio tiveram duas contrariedades que não conseguiram contrariar: o sol que ainda pairava no céu sem discrição e as condições técnicas de som muito más que abafaram o grande potencial do grupo. Terão sido contrariedades suficientes para provocar um mau concerto? Não, a intensidade da banda não o deixou. A estranheza sonora do grupo (isto é, a pertinência) torna-os difíceis de arrumar nalguma prateleira referencial, e isso é dos melhores elogios que se pode fazer a um artista em qualquer texto crítico que seja.
Depois, o nível baixou. Os Scissor Sisters foram uma festa disco de falsetes na qual não participei. Os Interpol trouxeram as suas variações de Joy Division, em porte atlético mas criativamente muito pouco flexível. Foram mais profissionais do que interessantes.
Talvez tenha visto dos Arcade Fire o melhor concerto do ano e no entanto estou a achar isso normal. Não consigo discutir se esta foi uma actuação melhor ou pior que a de Paredes de Coura. A estreia no Minho revelou-se como o início de uma relação amorosa entre a banda e o público português; o concerto de ontem foi a consumação dessa relação, com dados novos: mais canções no reportório e maior duração do concerto, uma cenografia que já não é rudimentar (várias telas com imagens, luzes néon, entre outras coisas) adequada à teatralidade do grupo, melhor som (embora o lado técnico persista como o elo fraco da apresentação ao vivo do grupo), e a voz de Win Butler melhorada.

O descanso de Verão tem duas concepções filosóficas, ambas legítimas: o do turista e o do viajante. O primeiro prefere a segurança de hábitos rotineiros (se for para a praia) ou de um pacote em que sabe de antemão o que vai fazer exactamente em cada dia (se for em excursão). O segundo dá prioridade à aventura e à surpresa, estando aberto a tudo, incluindo às contingências. O turista, quando parte, já tem as folhas do diário quase todas escritas; no momento de embarque, as folhas do diário do viajante estão quase todas por escrever.
Festival Sudoeste