ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Wednesday, May 21, 2008
EXCITAÇÃO DA SEMANA: MGMT, «ORACULAR SPECTACULAR»
Grande trip electro-psicadélica desta dupla nova-iorquina que apresenta a mecânica maquinal dos Kraftwerk ao espírito eufórico mais freak e hippie. (Columbia, 2008) Pode ler artigo desenvolvido no site do Cotonete.
Canção ao lado, fado por um triz, álbum em cheio. Cheio. Cheio de muita coisa. De jovialidade, brincadeira, graça, portugalidade, teatralidade e outras coisas.
EXCITAÇÃO DA SEMANA: THE GUTTER TWINS, «SATURNALIA»
Equilíbrio bicéfalo raro entre duas das almas mais torturadas do rock alternativo americano: Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) e Greg Dulli (ex-Afghan Whigs) fazem um retrato fascinante do negrume, com conhecimento de causa. (Sub Pop, 2008)
Terceiro álbum dos Portishead, terceiro furacão. Cada disco do trio de Beth Gibbons foi um vendaval com danos diferentes. O maior, porque completamente inesperado, continua a ser o primeiro, Dummy. Mas Third não é menos sombrio ou perturbador, com um tipo de devastação que contorna os dados dos temporais anteriores.
O espírito downtempo que afamou os Portishead nos anos 90 é secundado pela estrutura ensaísta de Third que experimenta mais avidamente formas alternativas como a irregularidade rítmica do afro-beat, a gaguez maquinal dos Neu ou o rock neurótico dos Radiohead de Kid A.
Cada canção segue um trajecto acidentado, de subidas e descidas, de curvas e contracurvas, que as podem levar no mesmo espaço de 4 minutos da folk melancólica mais pura (com referência a figuras como Karen Dalton ou Shelagh McDonald) à electrónica dos Kraftwerk - «The Rip» dispôs-se a isso tudo.
A voz de Beth Gibbons vai assegurando a marca reconhecível dos Portishead, mas a música dos Portishead desviou-se. Os mais de dez anos que separam Portishead (1997) de Third (2008) não foram em vão. (Island, 2008)
Se o som pós-punk de bandas tão diferentes como os Talking Heads ou os Joy Division é uma reflexão mais elaborada da revolução arrasadora de bandas punk masculinas como os Sex Pistols ou os Ramones, no domínio feminino esse balanço mais apurado do som rude de bandas dos anos 70 como as Raincoats os as Slits pode ser encontrado mais de 20 anos depois neste magnífico álbum das Breeders.
Mountain Battles merece a maior vénia de todas durante este período de obrigatória ausência.
EXCITAÇÃO DA SEMANA: VAMPIRE WEEKEND, «VAMPIRE WEEKEND»
Este álbum de estreia revela-nos mais uma pérola nova-iorquina, semelhante ao rock optimista de outros conterrâneos como os Clap Your Hands Say Yeah ou os Yeasayer, e atrás um fantasma de disposição nada moribunda: os Talking Heads.
Esticando-se do som maliano de Toumani Diabaté ao indie pop intelectual e provocador dos Hidden Cameras, aguentando sempre com o mesmo cheiro a Primavera, os Vampire Weekend fazem óptima música séria, disfarçada de foliona. (XL, 2008)
The Covers Record parte II ou um combinado explosivo de versões de gente de nomeada (de Hank Williams a Joni Mitchell) com dois originais de Cat Power (com dedicatória a Bob Dylan incluída) pelo meio.
Já se sabia que Cat Power tinha herança blues, mas neste disco a cantora não teve pudor nenhum em gastar parte substancial da dita fortuna. E que bem que o fez. (Matador, 2008)
Imagem YouTube: interpretação de «Lost Someone» (original de James Brown) no programa de TV Later with Jools Holland.
O aguardado álbum de estreia das Tucanas já anda por aí. E é uma delícia. Cinco mulheres jovens prestam devoção quase exclusiva às harmonias vocais, à percussão e ao acordeão, com uma personalidade forte que camufla simpaticamente intervenções exteriores como os de Amélia Muge ou do folião gangue de sopros Kumpania Algazarra.
Naquela estrutura artesanal tão desarmante que vai em segundos da folk nórdica aos ritmos africanos, as Tucanas não borram a pintura com complicações inúteis. (Farol, 2008)