ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Friday, November 2, 2007
ORFANATO #14: REBEKAH DEL RIO, «LLORANDO (CRYING)» (2001)
Quando a actriz e cantora Rebekah del Rio visita a casa de David Lynch por sugestão de amigos comuns, a artista hispânica levava na manga uma versão corajosa e exclusivamente vocal do clássico de Roy Orbinson, «Crying», na língua castelhana.
Num só take, o perplexo David Lynch guarda o momento da vida da pouco conhecida hispânica para a posteridade, na banda sonora do filme Mulholland Drive. O filme, então em preparação, teria que ter, de súbito, uma cena adicional. Uma cena que se adaptasse a Rebekah e à «sua» canção.
Aquele fôlego de pulmão de Del Rio em «Llorando» antecede a grande metamorfose de Mulholland Drive.
VIDEOCLIP COM HISTÓRIA: THIS MORTAL COIL, «SONG TO THE SIREN» (1984)
A editora de culto 4AD teve dois braços de prolongamento vitais à sua estética pop etérea e vanguardista: o atelier do artista e designer Vaughan Oliver, na V23, onde se concebiam as capas dos discos; e a fabulosa videografia de clips cuja dignidade se espalhou por várias fases posteriores da 4AD como o período indie norte-americano (Pixies, Throwing Muses, Red House Painters) ou a abertura ao mundo dee-jay (Gus Gus, Thievery Corporation).
Os This Mortal Coil eram o projecto idealizado por Ivo Watts-Russell, o grande mentor da 4AD, que reunia o casting de músicos da sua editora para interpretar algumas das canções preferidas dos seus ídolos. Os Big Star, John Cale, ou Tim Buckley eram artistas na berlinda dos This Mortal Coil, interpretando temas dos seus reportórios segundo os conceitos muito pessoais de Watts-Russel.
A versão de «Song to the Siren», de Tim Buckley - que Ivo Watts-Russell defende como sendo a melhor canção de sempre alguma vez escrita - tem o feitiço da interpretação poderosíssima de Elizabeth Fraser, a vocalista dos Cocteau Twins. O impacto da gravação foi de tal forma que se percebeu que não poderia ficar confinado ao lado-b do single para o qual fora primeiro planeado. A versão figura com excelência na obra-prima absoluta dos This Mortal, It’ll End in Tears (1984).
Além de single, a canção mereceu este vídeo, de uma deslumbrante simplicidade, que coloca em primeiro plano a sua figura principal: Elizabeth Fraser. Ao seu lado, circulam apenas pequenos pormenores celestiais: efeitos especiais aquáticos, muitas folhas, e Robin Guthrie (colega de banda de Fraser e participante activo nos This Mortal Coil) em rotação, com um penteado de cabelo a lembrar a estranha figura Henry Spencer, do filme de estreia de David Lynch, Eraserhead.
David Lynch adorou a versão e pediu a autorização a Ivo Watts-Russell para a sua utilização no filme que estava então a escrever, Blue Velvet (1986), mas sem efeito. A teimosia de Lynch manteve-se, e mais de dez anos depois o cineasta veria concretizado o seu desejo de utilização da canção num filme seu. A longa-metragem abençoada foi Estrada Perdida (Lost Highway), na qual a música dos This Mortal Coil passa obsessivamente.
A música ecoa por vários fragmentos visuais arrebatadores ao longo do filme, com um tratamento mágico de Lynch que muito orgulhou Ivo Watts-Russell. «Song to Siren» foi contaminado pelo grande cinema de David Lynch. A dimensão emocional do tema não podia ter tido melhor reciprocidade por parte da sétima arte.
É difícil perdoar a ausência desta música na banda sonora do filme editada em disco.
Se há coisa que não se deve pedir a David Lynch, é que explique os seus filmes. Explicar seria uma tentação demasiado infantil. Seria estragar tudo. É um verbo que não entra no dicionário de Lynch, não conjuga com segredo. Está a mais neste tipo de cinema. Para quê explicar? Explicar o quê?
As pistas de Lynch estão cada vez mais baralhadas, e as poucas a que o espectador se pode agarrar em Inland Empire esfumam-se nas suas próprias mãos como se de um sonho se tratassem (e talvez fossem): Laura Dern obtém um papel de um filme que está ensombrado pela morte dos seus próprios protagonistas e, às tantas, ficção e realidade misturam-se sem se saber onde começam e acabam, e o que são. E quem são aquelas pessoas afinal?
Inland Empire é um filme que começou noutro anterior, mas que continua em aberto depois do mesmo, na cabeça do espectador que também o cria, ou na outra longa-metragem de Lynch que há de vir. Inland Empire passou, por exemplo, por Mulholland Drive, pegando na metamorfose entre o sonho e o pesadelo, entre a ode fascinante ao cinema e os escombros dos seus corredores, dividindo as personagens entre os que sonham e os que se alimentam dos sonhos, entre os que sonham e os que deixam de sonhar.
Da pensão onde se chega ao bordel onde se acaba vão dois passos, e para David Lynch, em Inland Empire, estas coisas não acontecem só em Hollywood, ou no cinema. Também podem acontecer numa zona remota do leste da Europa, ou numa outra área do espectáculo. As cortinas de Lynch, em Inland Empire, escondem afinal um mundo ainda maior, de sonhos e de mistérios soturnos, muito mais transversais ao que se poderia supor, e afectam afinal toda a natureza humana.
As histórias de sonhos destruídos repetem-se ciclicamente, como se fossem um ponteiro de relógio, só mudam as personagens e os nomes. Quem não se repete é David Lynch, embora o simule (mas simulações é com ele). Ele mantém-se em movimento - mas não numa rotação de 360º - que o coloca outra vez mais adiante, num plano fisicamente já virtual. Agora em filme digital, Lynch desenvolve os mesmos prazeres, em novas orgias de imagens de luzes e de sombras que são autênticos poemas visuais. A carnalidade anda por lá, e David Lynch tem a mestria de grande realizador na arte de saber fazer da sua actriz o cume do desejo - Laura Dern está esplendorosa.
Inland Empire é uma obra maior, tão grande que não cabe nos limites de uma narrativa.