Tuesday, June 3, 2008

O FALSO TRADICIONALISTA

                                                                                                 Bela noite de domingo no Santiago Alquimista. Depois de uma primeira parte com o cantor folk escocês Alasdair Roberts, que vai fazendo o que pode para mostrar que vale mais que o de ser o crónico músico de aquecimento, Bill Callahan arremessou para o alinhamento parte substancial do seu primeiro álbum a solo, Woke on a Whaleheart (melhor álbum internacional de 2007 para A Pedreira), com a ajuda de uma banda de mais três músicos que com o ex-Smog contabilizavam o formato de quarteto clássico do rock (dois guitarristas, um baixista e um baterista).

Bill Callahan, provando-se distinto membro do crème de la crème da indie-folk, foi o mestre de ilusões.

O rosto inexpressivo do músico não era mais que um truque de charme do músico, parte de uma soma que resultava num cenário musical elegante - do mais fino recorte que se tem ouvido.

O conservadorismo americano das canções tocadas no Santiago Alquimista era apenas aparente porque sofria um abanão de católico progressista que não se ficava pelas memórias da América de Bonnie & Clyde. O perfume country, com a serenidade vocal de Callahan a invocar algum Townes Van Zandt, vai sofrendo as provocações da escola de rock irreverente dos Velvet Underground aqui e ali.

Tudo aquilo soa tão bonito ao vivo que Bill Callahan tenta segurar o plano daqueles acordes até à exaustão (noutro golpe de magia sonoro e visual). Como a exaustão não aparece e a beleza sonora se agarra ao momento (e ao seguinte), Bill Callahan & Co parecem os Wire com os seus métodos de repetição, mas num filme pós-punk muito pouco britânico com vista para a velhinha e mui americana estrada 66, a partir da modernidade. A partir para a modernidade. Uma modernidade clássica.

alt : http://www.youtube.com/v/zv8BY44sBzc&hl=en

Posted by Gonçalo Palma at 23:09:42 | Permalink | Comments (2)

Thursday, December 27, 2007

2007: OS MELHORES ÁLBUNS INTERNACIONAIS

1º  Bill Callahan, Woke on a Whaleheart

2º  Richard Thompson, Secret Warrior

3º  White Stripes, Icky Thump

4º  Joni Mitchell, Shine

5º  Dinosaur Jr, Beyond

alt : http://www.youtube.com/v/SbJPwu07O7Y&rel=1

6º  Built to Spill, You in Reverse

7º  Clap Your Hands Say Yeah, Some Loud Thunder

8º  Au Revoir Simone, The Bird of Music

9º  Iron & Wine, The Shepherd’s Dog

10º PJ Harvey, White Chalk

11º Yeasayer, All Hour Cymbals

12º Radiohead, In Rainbows

13º Pharoahe Monch, Desire

14º New Pornographers, Challengers

15º Kristin Hersh, Learn to Sing Like a Star

alt : http://www.youtube.com/v/anHjPUjD7q8&rel=1

16º Burial, Untrue

17º Alberta Cross, The Thief & The Heartbreaker

18º Kevin Ayers, The Unfairgound

19º Electrelane, No Shouts No Calls

20º Besnard Lakes, The Besnard Lakes Are Dark Horse

21º Laura Veirs, Saltbreakers

22º The Aliens, Astronomy for Dogs

23º Keren Ann, Keren Ann

24º Robert Wyatt, Comicopera

25º Nina Nastasia & Jim White, You Follow Me

alt : http://www.youtube.com/v/Zqydhl1TGU4&rel=1

26º Arcade Fire, Neon Bible

27º Neil Young, Chrome Dreams II

28º Blonde Redhead, 23

29º Jamie T, Panic Prevention

30º Lavender Diamond, Imagine Our Love

Imagens fixas de cima para baixo: Bill Callahan, Au Revoir Simone e Burial.
Imagens YouTube de cima para baixo: «Icky Thump» (White Stripes, Later with Jools Holland), «Body Baby» (Pharoahe Monch) e «Lay Your Head Down» (Keren Ann).
 

Posted by Gonçalo Palma at 21:55:26 | Permalink | No Comments »

Saturday, May 12, 2007

EXCITAÇÃO DA SEMANA: BILL CALLAHAN, «WOKE ON A WHALEHEART»

Sem grandes perturbações e com alguma discrição, Bill Callahan vai ensaiando mudanças. Começou por ir escondendo entre parêntesis o nome do seu projecto unipessoal de há muito, Smog, até operar agora a sua entrada em cena sob o seu nome; e foi tornando cada vez menos ostensivo o rock experimental de surrealistas como os Pere Ubu.

Bill Callahan parece estar a encontrar um mundo antigo ao seu, de máquinas jukebox e da Route 66, no qual vive cada vez mais, como se tivesse sido um músico anterior e de referência para Townes Van Zandt e não o contrário.

Os ritmos arcaicos dos Velvet Underground ainda resistem, e às vezes dá a sensação que é a baterista Maureen Tucker que está a tocar no disco de Callahan. Mas o que o enamora e o concentra é um tipo de country idealista tocado noutro tempo, com umas ninfas a cantar ao lado, convocando as memórias de um idílio que une a soul áurea da Motown à fase mais folk de Leonard Cohen.

O olhar vigilante de Neil Hagerty (ex-Royal Trux) vai acompanhando na mesa de produção uma violinista em trabalhos, comunicando espiritualmente com acordes bucólicos que fazem da guitarra eléctrica um objecto tão pastoral quanto a ceifa. Ao lado, Bill Callahan segreda umas coisas que vai imaginando ao microfone, repetindo-as até à exaustão. E a banda encaixa-se naquela perseverança do seu maestro nos mesmos três ou quatro versos, nos mesmos três ou quatro sons, esticando-os no maior tempo possível.

Porém, Bill Callahan parece que está preso no mesmo sítio mas não está. Voltou a mover-se adiante, cada vez mais próximo da dianteira dos grandes compositores americanos de hoje, cada vez mais longe do resto do pelotão. O isolamento é silencioso. (Drag City, 2007)

Na foto de cima, a sombra é pertença da fotógrafa em serviço Joanna Newsom, a parceira de amores de Bill Callahan. alt : http://www.youtube.com/v/20ulXOegTig

Posted by Gonçalo Palma at 15:58:19 | Permalink | Comments (2)