O FALSO TRADICIONALISTA
Bela noite de domingo no Santiago Alquimista. Depois de uma primeira parte com o cantor folk escocês Alasdair Roberts, que vai fazendo o que pode para mostrar que vale mais que o de ser o crónico músico de aquecimento, Bill Callahan arremessou para o alinhamento parte substancial do seu primeiro álbum a solo, Woke on a Whaleheart (melhor álbum internacional de 2007 para A Pedreira), com a ajuda de uma banda de mais três músicos que com o ex-Smog contabilizavam o formato de quarteto clássico do rock (dois guitarristas, um baixista e um baterista).
Bill Callahan, provando-se distinto membro do crème de la crème da indie-folk, foi o mestre de ilusões.
O rosto inexpressivo do músico não era mais que um truque de charme do músico, parte de uma soma que resultava num cenário musical elegante - do mais fino recorte que se tem ouvido.
O conservadorismo americano das canções tocadas no Santiago Alquimista era apenas aparente porque sofria um abanão de católico progressista que não se ficava pelas memórias da América de Bonnie & Clyde. O perfume country, com a serenidade vocal de Callahan a invocar algum Townes Van Zandt, vai sofrendo as provocações da escola de rock irreverente dos Velvet Underground aqui e ali.
Tudo aquilo soa tão bonito ao vivo que Bill Callahan tenta segurar o plano daqueles acordes até à exaustão (noutro golpe de magia sonoro e visual). Como a exaustão não aparece e a beleza sonora se agarra ao momento (e ao seguinte), Bill Callahan & Co parecem os Wire com os seus métodos de repetição, mas num filme pós-punk muito pouco britânico com vista para a velhinha e mui americana estrada 66, a partir da modernidade. A partir para a modernidade. Uma modernidade clássica.



Sem grandes perturbações e com alguma discrição, Bill Callahan vai ensaiando mudanças. Começou por ir escondendo entre parêntesis o nome do seu projecto unipessoal de há muito, Smog, até operar agora a sua entrada em cena sob o seu nome; e foi tornando cada vez menos ostensivo o rock experimental de surrealistas como os Pere Ubu.
O olhar vigilante de Neil Hagerty (ex-Royal Trux) vai acompanhando na mesa de produção uma violinista em trabalhos, comunicando espiritualmente com acordes bucólicos que fazem da guitarra eléctrica um objecto tão pastoral quanto a ceifa. Ao lado, Bill Callahan segreda umas coisas que vai imaginando ao microfone, repetindo-as até à exaustão. E a banda encaixa-se naquela perseverança do seu maestro nos mesmos três ou quatro versos, nos mesmos três ou quatro sons, esticando-os no maior tempo possível.