Saturday, December 22, 2007

DE MONTREAL: ARCADE FIRE

                                                                                   Não são apenas os embaixadores principais do som de Montreal, muitos defendem-nos como sendo a banda rock da década.

O casal Win Butler/Régine Chassagne forma o núcleo central de um grupo de seis elementos efectivos, formado em 2003. Win Butler, o principal compositor, e o seu irmão William cresceram em Dallas (estado do Texas), enquanto que Régine Chassagne viveu os primeiros anos da sua vida na ex-colónia francesa do Haiti, nas Caraíbas. Num daqueles dias especiais, Win entusiasma-se com uma performance vocal de jazz por parte de Chassagne: os Arcade Fire nasceriam pouco tempo depois em Montreal.

alt : http://www.youtube.com/v/x2sy2WfhHaU&rel=1

A progressão foi veloz: o EP homónimo de estreia (de 2003) cumpre muito mais do que o aquecimento de alguém que quer aparecer, com sete canções abrilhantadas por um nível acima da média (entre as quais a célebre «No Cars Go»).

Embalados como fenómeno ao vivo de culto nalgumas cidades canadianas e estado-unidenses, gravam o álbum que precipitaria a sua conquista do mundo: Funeral (de 2004), cujo título se deve à perca de vários familiares próximos dos músicos durante a gravação. O disco é uma sucessão de golpes de risco que marcou a imagem do grupo pela sua capacidade de vingar as letras mórbidas com uma música ferozmente positiva, ambiciosa e ousadamente épica.

alt : http://www.youtube.com/v/iydsuzCk4K0&rel=1

A fragmentação das músicas assinalada com vários pontos de viragem em cada uma das faixas, a rotatividade dos muitos instrumentos por cada um dos músicos, o uso pontual da língua francesa típico das bandas anglófonas de Montreal, a democratização da ribalta dos concertos muito para além de Win Butler, e as doses elevadas de energia e teatralidade devotamente empregues em palco contribuíram para que a imprensa e o público se rendessem ao grupo. E de uma forma nunca vista pela sua quase unanimidade, nem mesmo sentida por bandas como os White Stripes e os Strokes, Funeral coleccionou aclamações de álbum do ano em tudo o que fosse publicações de música.

Participaram depois com uma canção original, «Cold Wind», para a banda sonora da série televisiva de culto Sete Palmos de Terra, e compraram uma capela em Montreal onde gravaram o sucessor de Funeral, a que chamaram de Neon Bible. O som desse disco aparece menos filtrado às influências (Bruce Springsteen soa mais descarado nalgumas canções) e a estrutura das músicas é mais linear e menos sinuosa. Mas o grupo consolida a sua popularidade, conseguindo vencer o fantasma do segundo álbum sem caír na armadilha de tentar fazer um álbum semelhante a Funeral.

alt : http://www.youtube.com/v/o8lVkg4ecPk&rel=1

Post-scriptum: Os U2 abriram os concertos da sua digressão mundial de 2005 com «Wake Up» dos Arcade Fire - como se pôde confirmar no concerto da banda de Bono no Estádio de Alvalade XXI, em Lisboa.

Imagens YouTube de cima para baixo: «No Cars Go» (ao vivo, França, 2005), «Haiti» (ao vivo, Holanda, 2005), «Guns of Brixton» (versão de uma música dos Clash gravada para a BBC), «Neon Bible» (elevador, França, 2007).
Texto publicado no Cotonete.

alt : http://www.youtube.com/v/wjxef8AfVQg&rel=1

Posted by Gonçalo Palma at 12:43:39 | Permalink | No Comments »

Wednesday, July 4, 2007

FESTIVAL SBSR: 1º DIA DO ACTO INDIE

                                                                                      Talvez tenha visto dos Arcade Fire o melhor concerto do ano e no entanto estou a achar isso normal. Não consigo discutir se esta foi uma actuação melhor ou pior que a de Paredes de Coura. A estreia no Minho revelou-se como o início de uma relação amorosa entre a banda e o público português; o concerto de ontem foi a consumação dessa relação, com dados novos: mais canções no reportório e maior duração do concerto, uma cenografia que já não é rudimentar (várias telas com imagens, luzes néon, entre outras coisas) adequada à teatralidade do grupo, melhor som (embora o lado técnico persista como o elo fraco da apresentação ao vivo do grupo), e a voz de Win Butler melhorada.

O concerto, emblemático, foi uma descarga de êxtases e de coros uníssonos que uniram banda e público numa performance com milhares de almas. As canções, já de si maravilhosas (sobretudo as de Funeral), agigantam-se ainda mais em palco - mesmo as músicas de maior contenção de Neon Bible.

O grande impacto visual e sonoro do colectivo e o empenho religioso de cada um dos músicos em cada uma das canções voltaram a deixaram marcas que originaram mais um grande concerto em Portugal.

Numa escala menos transcendente, mas de óptima qualidade, estivem os Magic Numbers. Com um visual hippie e um som devedor das melodias dos Mamas & Papas e da face mais pop dos Jefferson Airplane (via Grace Slick), os Magic Numbers apresentaram óptimas harmonias, com cada um dos quatro músicos a contribuir criativamente para um interessantíssimo puzzle de country-pop.

Na escala do giro, mas lúdico, estiveram, e bem, os Klaxons e os Bloc Party. Os primeiros enfiaram-se pelos anos 80 adentro, com um naipe de canções candidatas a hit (incluindo as menos divulgadas) oriundas do espectro do electro-pop. Os segundos provaram estar acima da sua apetência para um público mais adolescente, com um curioso set de rock musculoso e muito urbano, a que não faltaram alguns números ensaiados de Kele Okereke na arte de incentivar o público.

Contas feitas do que vi, o saldo do primeiro indie é bastante positivo.

Posted by Gonçalo Palma at 15:14:44 | Permalink | No Comments »

Monday, July 2, 2007

NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #10: FESTIVAL PAREDES DE COURA DE 2005

                                                                                                 Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano. alt : http://www.youtube.com/v/viEKLS1lCtE

O movimento de gentes era saudável. Nunca, num festival português, me havia cruzado com tantos estrangeiros (sobretudo espanhóis), nem nunca havia sentido tanto frenesim das pessoas em descobrir bandas novas. À semelhança do que constatava lá fora, em Paredes de Coura a música esteve primeiro, e a razão da peregrinação da maior parte daqueles festivaleiros dependeu do conteúdo musical do evento e não de um gozo meramente lúdico. Havia felicidade no ar, alimentada e regenerada pelos sons que saíam do palco e que obrigavam a uma descida naquele anfiteatro natural bem maior do que o inicialmente calculado - e foram várias as vezes que acabei colado ao palco.

alt : http://www.youtube.com/v/8HAwHd9HS4M

Cheguei ouvindo elogios convictos sobre a actuação do duo Death From Above 1979. Os !!! não me deram tempo para ficar triste quanto à perdida anterior, absolutamente intrigado que estava a ficar com aquela fusão nos mesmos acordes do som cortante e matemático da Factory com a animação “disco” de um clube nova-iorquino dos anos 70. O nível de motim manteve-se com os Kaiser Chiefs, meninos foliões da pop britânica com queda para óptimos refrões e criação de hits, e nem o tropeção que pôs a coxear o saltitante vocalista Ricky Wilson, qual Damon Albarn dos velhos tempos, quebrou o humor e o embalo daquele entusiasmado set. A actuação mais maquinal dos Bravery reduziu o nível de empatia registado até então entre palco e audiência, mas não baixou o profissionalismo, rigoroso, do grupo nova-iorquino, que não deixou passar nada do melhor da pop britânica dos anos 70/80 que figura na árvore genealógica dos Kraftwerk (Gary Numan, Human League, Depeche Mode). Quando a música se reduziu à mera vertente física, com os Foo Fighters, uma das cabeças que já não lá estava era a minha.

Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.

Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.

alt : http://www.youtube.com/v/kec42OJ28OU

De cima para baixo: Nick Cave, !!!, Kaiser Chiefs (momento em que Ricky Wilson torce o pé), Pixies, Woven Hand e Arcade Fire (as duas últimas músicas do concerto).

Posted by Gonçalo Palma at 04:39:46 | Permalink | Comments (3)

Monday, April 30, 2007

ORFANATO: ARCADE FIRE, «COLD WIND» (2005)

O mais importante tema dos Arcade Fire gravado entre os dois álbuns da banda (Funeral e Neon Bible), «Cold Wind», foi expressamente composto para a quinta e última série (talvez aquela que é a melhor de todas) de Sete Palmos de Terra.

Para infortúnio de todos os que gostam da canção e dos Arcade Fire (se calhar, para infortúnio de todos), «Cold Wind» está perdido numa banda sonora de conceito opaco, Six Feet Under, Vol. 2: Everything Ends, que é uma salada de temas seleccionados de forma acrítica.

A contenção outonal da primeira metade do tema e a sua euforia colectiva final simboliza a cronologia estética, de forma invertida, do grupo: «Cold Wind» começa com a anunciação do que viria a seguir, Neon Bible, e termina com as cinzas (bem agitadas) de Funeral. A canção merecia melhor companhia no disco longo - ou músicas também especialmente escritas para o efeito da série, ou uma coordenação com preocupações mais musicais.

Faltam pouco mais de 60 dias para o regresso dos Arcade Fire a Portugal - 3 de Julho, Festival SBSR, às portas norte de Lisboa. 

Interpretação de «Cold Wind» filmada tortuosamente durante o concerto em Porchester Hall, Londres, em 1 de Fevereiro de 2007. alt : http://www.youtube.com/v/1ZVsjPyez7E

Posted by Gonçalo Palma at 16:13:52 | Permalink | Comments (2)

Monday, March 19, 2007

LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: ARCADE FIRE, «NEIGHBORHOOD #2 (LAIKA)»

A propósito da recente edição do seu álbum Neon Bible e da vinda próxima do grupo a Portugal (3 de Junho, no Parque Tejo, em Lisboa), os Arcade Fire vão estar na berlinda por aqui. Uma das capacidades do grupo que os coloca numa outra dimensão respeita à excelente articulação narrativa das letras das canções. Neste campo, «Neighborhood #2 (Laika)», da obra-prima Funeral (2004), é uma das mais fascinantes. Vale a pena ler.

Letra e composição: Win Butler

Interpretação: Arcade Fire

Álbum a que pertence: Funeral

Alexander, our older brother,

set out for a great adventure.

He tore our images out of his pictures,

he scratched our names out of all his letters.

Our mother shoulda just named you Laika!

Come on Alex, you can do it.

Come on Alex, there’s nothin’ to it.

If you want somethin’ don’t ask for nothin,

if you want nothin’ don’t ask for somethin’!

Our mother shoulda just named you Laika!

It’s for your own good,

it’s for the neighborhood!

Our older brother bit by a Vampire!

For a year we caught his tears in a cup.

And now we’re gonna make him drink it.

Come on Alex don’t die or dry up!

Our mother shoulda just named you Laika!

It’s for your own good,

it’s for the neighborhood!

When daddy comes home you always start a fight,

so the neighbors can dance in the police disco lights.

The police disco lights.

Now the neighbors can dance!

Look at ‘em dance.

alt : http://www.youtube.com/v/Q1F1CZP_Qao

Posted by Gonçalo Palma at 11:15:49 | Permalink | Comments (1) »

Saturday, March 10, 2007

EXCITAÇÃO DA SEMANA: ARCADE FIRE, «NEON BIBLE»

Neon Bible, o segundo álbum dos Arcade Fire, não está à altura do mágico debutante Funeral porque se exclui para outro universo. Os Arcade Fire não caíram na célebre armadilha do segundo álbum. Evitaram-na.

Funeral é um conjunto de viagens em curvas e contracurvas, de relevo acidentado, que nos fornece a cada canção as mais variadas e deslumbrantes paisagens - como se estivéssemos nos Alpes ou no Gerês.

Neon Bible, muito diferente, é antes uma reunião de viagens em estradas rectas e planas que, em cada música, nos dá a mesma vista do início ao fim - como se estivéssemos no Texas ou no Alentejo.

A regra de Neon Bible tem apenas duas excepções. A antiga canção «No Cars Go», repescada da fase alpina pré-Funeral, é uma delas. A outra é «Black Waves/Bad Vibrations», onde a meio-percurso acontece um eclipse solar total: a passagem de testemunho do manifesto new wave de Régine Chassagne para o dramatismo épico de Win Bulter origina uma mudança de cores e de cenários tal que dá a sensação de termos atravessado a fronteira para um país de uma civilização completamente diferente. «Black Waves/Bad Vibrations» não é só o ponto criativo máximo de Neon Bible, a música bipartida assume-se também como o «A Day in the Life» (a famosa canção dos Beatles) dos Arcade Fire.

Neon Bible não é tão exaltante, tão surpreendente, tão apaixonante quanto Funeral. O novo disco do grupo canadiano não tem a mesma capacidade de ruptura, e mesmo que gravado numa igreja dos arredores de Montreal com o órgão de tubos local, nem sequer consegue ter a mesma intensidade.

A banda não soa com o mesmo charme colectivista de outrora, com a ribalta agora demasiado centrada em Win Bulter e de menos na sua mulher, o que provoca um défice de imprevisibilidade. Também a máquina de filtragem do grupo não funcionou tão bem, com o Bruce Springsteen de The River a cair directamente no álbum dos Arcade Fire em dois temas consecutivos - «(Antichrist Television Blues)» e «Windowsill» - sem o habitual corte e costura da pop/rock barroca do grupo, que havia personalizado tão bem os danos da referência dos Pixies em Funeral.

Desta vez, os Arcade Fire foram comuns mortais. Mas ainda assim autores de um disco respeitoso que poucos conseguirão ultrapassar este ano. Ficámos mal habituados a tamanhos caprichos sonoros. E, mesmo que sem a dose generosa anterior, continuamos demasiado mimados. Será que ninguém os consegue substituir? alt : http://www.youtube.com/v/1LZ9z71ErWA

Posted by Gonçalo Palma at 15:54:05 | Permalink | Comments (2)