DE MONTREAL: ARCADE FIRE
Não são apenas os embaixadores principais do som de Montreal, muitos defendem-nos como sendo a banda rock da década.
O casal Win Butler/Régine Chassagne forma o núcleo central de um grupo de seis elementos efectivos, formado em 2003. Win Butler, o principal compositor, e o seu irmão William cresceram em Dallas (estado do Texas), enquanto que Régine Chassagne viveu os primeiros anos da sua vida na ex-colónia francesa do Haiti, nas Caraíbas. Num daqueles dias especiais, Win entusiasma-se com uma performance vocal de jazz por parte de Chassagne: os Arcade Fire nasceriam pouco tempo depois em Montreal.
A progressão foi veloz: o EP homónimo de estreia (de 2003) cumpre muito mais do que o aquecimento de alguém que quer aparecer, com sete canções abrilhantadas por um nível acima da média (entre as quais a célebre «No Cars Go»).
Embalados como fenómeno ao vivo de culto nalgumas cidades canadianas e estado-unidenses, gravam o álbum que precipitaria a sua conquista do mundo: Funeral (de 2004), cujo título se deve à perca de vários familiares próximos dos músicos durante a gravação. O disco é uma sucessão de golpes de risco que marcou a imagem do grupo pela sua capacidade de vingar as letras mórbidas com uma música ferozmente positiva, ambiciosa e ousadamente épica.
A fragmentação das músicas assinalada com vários pontos de viragem em cada uma das faixas, a rotatividade dos muitos instrumentos por cada um dos músicos, o uso pontual da língua francesa típico das bandas anglófonas de Montreal, a democratização da ribalta dos concertos muito para além de Win Butler, e as doses elevadas de energia e teatralidade devotamente empregues em palco contribuíram para que a imprensa e o público se rendessem ao grupo. E de uma forma nunca vista pela sua quase unanimidade, nem mesmo sentida por bandas como os White Stripes e os Strokes, Funeral coleccionou aclamações de álbum do ano em tudo o que fosse publicações de música.
Participaram depois com uma canção original, «Cold Wind», para a banda sonora da série televisiva de culto Sete Palmos de Terra, e compraram uma capela em Montreal onde gravaram o sucessor de Funeral, a que chamaram de Neon Bible. O som desse disco aparece menos filtrado às influências (Bruce Springsteen soa mais descarado nalgumas canções) e a estrutura das músicas é mais linear e menos sinuosa. Mas o grupo consolida a sua popularidade, conseguindo vencer o fantasma do segundo álbum sem caír na armadilha de tentar fazer um álbum semelhante a Funeral.
Post-scriptum: Os U2 abriram os concertos da sua digressão mundial de 2005 com «Wake Up» dos Arcade Fire - como se pôde confirmar no concerto da banda de Bono no Estádio de Alvalade XXI, em Lisboa.
Imagens YouTube de cima para baixo: «No Cars Go» (ao vivo, França, 2005), «Haiti» (ao vivo, Holanda, 2005), «Guns of Brixton» (versão de uma música dos Clash gravada para a BBC), «Neon Bible» (elevador, França, 2007).
Texto publicado no Cotonete.
Talvez tenha visto dos Arcade Fire o melhor concerto do ano e no entanto estou a achar isso normal. Não consigo discutir se esta foi uma actuação melhor ou pior que a de Paredes de Coura. A estreia no Minho revelou-se como o início de uma relação amorosa entre a banda e o público português; o concerto de ontem foi a consumação dessa relação, com dados novos: mais canções no reportório e maior duração do concerto, uma cenografia que já não é rudimentar (várias telas com imagens, luzes néon, entre outras coisas) adequada à teatralidade do grupo, melhor som (embora o lado técnico persista como o elo fraco da apresentação ao vivo do grupo), e a voz de Win Butler melhorada.

Para mim, o melhor festival português de sempre da era regular pós-1995 correspondeu à edição de 2005 de Paredes de Coura - ainda melhor que o Sudoeste de 1998 (Portihead, PJ Harvey, Sonic Youth, Yo La Tengo, e outros). O programa do festival era invejável, mesmo para os cartazes dos eventos similares estrangeiros daquele ano.
Dia seguinte. Os mais que convincentes Futureheads faziam um itinerário interessante que apanhava, entre várias direcções, os Clash, os Jam ou Billy Bragg. Depois, seguiu-se o eclipse total com os Arcade Fire, que foram mestres de uma missa extravagante, que combinou espiritualidade com alegria. Não pareciam autores de um disco com o título de Funeral. Se alguém reclamou aquele como o álbum da década, teve seguramente razão por um dia, aquele em que os Arcade Fire tocaram em Paredes de Coura. Não tive pulmão (nem barriga cheia) para acompanhar os Roots como devia. O concerto eficiente e duro, mas pouco flexível e frio, dos Queens of the Stone Age foi outra hora boa para recarregamento de baterias. E quando os Pixies quarentões andaram pelo palco, estive à altura das exigências. E eles também, que foram conduzindo muito bem um alinhamento acústico em subida eléctrica gradual até à catarse. A belíssima história deu uma ajuda.
Último dia. Os National começaram a alterar as emoções do menos fresco público com uma reflexão madura do som joydivisiano. David Eugene Edwards, enquanto líder dos Woven Hand, foi brutal nas suas preces fanáticas ao além, parecendo o saldo do pesadelo de uma banda gótica como os Mission num cenário western spaguetti. Com os seus Licks, actriz Juliette Lewis interpretou muito bem o papel de Iggy Pop, e ainda experimentou o stage diving. O actor Vincent Gallo não fez nada bem o seu papel de músico - o concerto parecia um pedido de desculpas muito simpático quanto à falta de vocação para estar num festival daqueles. E Nick Cave & The Bad Seeds encerraram o festival com um concerto de arromba, no qual o cantor australiano exibiu o seu excelente coro gospel e fracturou mais umas quantas almas com uma performance demolidora e carismática que expressou uma saúde invulgar que fez esquecer o abandono recente de Blixa Bargeld. Inesquecível.
O mais importante tema dos Arcade Fire gravado entre os dois álbuns da banda (Funeral e Neon Bible), «Cold Wind», foi expressamente composto para a quinta e última série (talvez aquela que é a melhor de todas) de Sete Palmos de Terra.
A propósito da recente edição do seu álbum Neon Bible e da vinda próxima do grupo a Portugal (3 de Junho, no Parque Tejo, em Lisboa), os Arcade Fire vão estar na berlinda por aqui. Uma das capacidades do grupo que os coloca numa outra dimensão respeita à excelente articulação narrativa das letras das canções. Neste campo, «Neighborhood #2 (Laika)», da obra-prima Funeral (2004), é uma das mais fascinantes. Vale a pena ler.
Neon Bible, o segundo álbum dos Arcade Fire, não está à altura do mágico debutante Funeral porque se exclui para outro universo. Os Arcade Fire não caíram na célebre armadilha do segundo álbum. Evitaram-na.
A banda não soa com o mesmo charme colectivista de outrora, com a ribalta agora demasiado centrada em Win Bulter e de menos na sua mulher, o que provoca um défice de imprevisibilidade. Também a máquina de filtragem do grupo não funcionou tão bem, com o Bruce Springsteen de The River a cair directamente no álbum dos Arcade Fire em dois temas consecutivos - «(Antichrist Television Blues)» e «Windowsill» - sem o habitual corte e costura da pop/rock barroca do grupo, que havia personalizado tão bem os danos da referência dos Pixies em Funeral.