Tuesday, June 3, 2008

O FALSO TRADICIONALISTA

                                                                                                 Bela noite de domingo no Santiago Alquimista. Depois de uma primeira parte com o cantor folk escocês Alasdair Roberts, que vai fazendo o que pode para mostrar que vale mais que o de ser o crónico músico de aquecimento, Bill Callahan arremessou para o alinhamento parte substancial do seu primeiro álbum a solo, Woke on a Whaleheart (melhor álbum internacional de 2007 para A Pedreira), com a ajuda de uma banda de mais três músicos que com o ex-Smog contabilizavam o formato de quarteto clássico do rock (dois guitarristas, um baixista e um baterista).

Bill Callahan, provando-se distinto membro do crème de la crème da indie-folk, foi o mestre de ilusões.

O rosto inexpressivo do músico não era mais que um truque de charme do músico, parte de uma soma que resultava num cenário musical elegante - do mais fino recorte que se tem ouvido.

O conservadorismo americano das canções tocadas no Santiago Alquimista era apenas aparente porque sofria um abanão de católico progressista que não se ficava pelas memórias da América de Bonnie & Clyde. O perfume country, com a serenidade vocal de Callahan a invocar algum Townes Van Zandt, vai sofrendo as provocações da escola de rock irreverente dos Velvet Underground aqui e ali.

Tudo aquilo soa tão bonito ao vivo que Bill Callahan tenta segurar o plano daqueles acordes até à exaustão (noutro golpe de magia sonoro e visual). Como a exaustão não aparece e a beleza sonora se agarra ao momento (e ao seguinte), Bill Callahan & Co parecem os Wire com os seus métodos de repetição, mas num filme pós-punk muito pouco britânico com vista para a velhinha e mui americana estrada 66, a partir da modernidade. A partir para a modernidade. Uma modernidade clássica.

alt : http://www.youtube.com/v/zv8BY44sBzc&hl=en

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Tuesday, April 22, 2008

NICK CAVE EM SALA PARA FUMADORES

                                                                     A ferrugem típica de um arranque de digressão impôs a contra-regra aos Bad Seeds de tocarem as suas músicas num estado inferior ao da eternidade imutável da gravação de estúdio - sabemos há muito que costuma ser o contrário, que o palco é um espaço de superação para Nick Cave e seus acólitos.

Mas nem isso impediu que a noite do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, fosse de contentamento geral, graças a uma dose generosa de canções, em quase duas horas e meia de uma actuação muito arranhada e pouco teclada. A falar português ou cantar e tocar, Nick Cave esforçou-se. Valeu a pena.

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Monday, February 18, 2008

MÚM + PERE UBU: A GALHOFA E O AMUO

                              A noite de sábado na Sala 2 da Casa da Música do Porto, intitulada de “Clubbing”, foi bipolar: da galhofa dos islandeses Múm ao amuo que levou David Thomas, líder dos históricos existencialistas Pere Ubu, a abandonar o palco a meio do concerto e a quase desistir.
O segundo concerto da noite, o dos Pere Ubu, foi de tal forma rocambulesco que podia dar por si só um livro. Não um romance dos bons mas um relato biográfico sensacionalista.
alt : http://www.youtube.com/v/sYX6sSZMnvY&rel=1

A actuação dos Pere Ubu podia ter durado vinte minutos - quando ocorre o abandono de David Thomas - como podia ter durado mais de três horas - quando o cantor, num estado ébrio mais avançado e bonacheirão, parecia maleável a qualquer pedido de mais outro encore. Mas o esgotamento físico do baterista obrigou o concerto a ficar-se pelas duas horas.
O número de incidências merece uma lista:
- A entrada de David Thomas pela sala nos minutos anteriores ao concerto é de impossível indiscrição. O homem atravessa a arena com a sua figura espaçosa e carismática a lembrar o forte Orson Welles, vestindo gabardina e um chapéu e puxando uma maleta de rodas. Chamou a atenção de todos, mesmo aqueles que o desconheciam (que talvez não fossem assim tão poucos).
- Após a primeira música, David Thomas, com o escudo dos seus modos teatrais, refila contra o som: “só consigo ouvir os malditos sintetizadores!”. O público ficou indeciso, sem saber se rir seria o mais conveniente. Talvez ainda desse para rir.

- Após a quarta música da noite, David Thomas chama todos os elementos da banda para uma reunião em roda a que todo o público assistiu: os músicos mais experientes ouviam com uma calma de humildes servidores, mas o baterista, mais jovem, parecia assustado. O episódio lembrava a rudeza dos famigerados “talks” do manipulador Captain Beefheart para com os seus subordinados de banda. O dilema quanto à certeza do dramatismo de David Thomas começava a esbater-se. A banda, irreconhecível, estava a tocar mal demais para a escala a que Thomas nos tinha habituado.
- A meio da quinta música, David Thomas sai do palco e a banda continua a tocar… até a música acabar. Os súbditos de Thomas ficam a olhar uns para ou outros e, às tantas, saem também. O palco fica vazio.
- Durante o amuo, outro momento degradante: um engraçadinho sobe ao palco, rouba as duas latas de cerveja alinhadas para consumo do mestre de cerimónias e ergue-as para o povo aplaudir.    
- Pouco tempo após o regresso ao palco, quando ainda se sentiam sinais de tempestade, uma baqueta foge das mãos do baterista e David Thomas, de frente para o público, sente de imediato uma falta de ritmo naqueles segundos, virando a sua teatralidade para cima do amedrontado baterista que já se encontrava à beira de um colapso nervoso. Assim que a música terminou, o jovem instrumentista não aguentou mais e levantou-se, farto de tudo aquilo. Mas não saiu de palco.
- Após a ingestão de várias latas de cerveja e de um líquido de um frasquinho metalizado tirado do bolso das suas calças, David Thomas confessa o seu estado ébrio à multidão, e apresenta-o como a razão da sua tolerância para com “a péssima acústica, mas não desistimos”.
- David Thomas acrescenta à letra de uma das suas músicas um raspanete a uma mais distraída e conversadora espectadora na fila da frente: “presta atenção!”
- A mesma fã sobe ao palco e emite um berro enorme diante do grande e estupefacto David Thomas. Não teve graça.
- A confissão de impotência sexual do cantor é um momento de delicioso mas assustador humor, com um aviso à multidão: “o tempo apanhar-vos-á”.
- Além de referências com piada a Justin Timberlake e a Britney Spears, houve insultos baratos contra Thom Yorke, “Fuck Thom Yorke!”, e uma pergunta que tenta limpar o seu orgulho: “Acham que ele alguma vez seria capaz de abandonar um concerto a meio?”.
alt : http://www.youtube.com/v/WD0J2fqvQOg&rel=1

Mas houve muito mais, num concerto que investiu a sério naquela que é a obra-prima do grupo, Ray Gun Suitcase (de 1995), e que não ignorou outros clássicos como «Non Alignment Pact» (a música mais célebre do álbum que revelou os Pere Ubu ao mundo, The Modern Dance).
O absurdo da música dos Pere Ubu, no seu melhor, tomou conta da realidade daquele concerto, no seu pior. A desafinação e alguma desconexão entre os cinco músicos tornavam irreconhecíveis os padrões exigentes a que as bandas de David Thomas nos habituaram e esta formação que passou pela Casa da Música provocou saudades de outras equipas de músicos que responderam pelo nome de Pere Ubu no passado. E David Thomas não tem fair-play para dar maus concertos e amuou.
Antes, passou pela Sala 2 da Casa da Música a folia mais inocente dos simpáticos Múm, que, espicaçados pelo ambiente receptivo, divertiram-se à grande. Tanto que, na metade final do concerto, divertiram-se mais do que divertiram.
O grupo actuou em septeto com um arsenal que incluía piano, melódica, violoncelo, violino, violinhas compradas nalguma loja de brinquedos ou os portáteis Mackintosh. E demonstrou merecer hoje aquela atenção que tiveram no passado, quando corriam os dias de Yesterday Was Dramatic ­ Today Is OK (de 2000) e de Finally We Are No One (de 2002).
Num alinhamento que passou muito ao lado do reportório mais antigo e que favoreceu as músicas de Go Go Smear the Poison Ivy (o último álbum), os Múm não ofereceram apenas aquela dose musical idílica que os identifica com a ilha da Utopia musical: a Islândia. Às canções pop de embalo desenhadas num cenário electrónico ambiental, acrescentaram novos ares, como uma pop mais orelhuda e efusiva a lembrar bandas indie suecas como os Wannadies, e uma ou outra excentricidade pontual, como o toque balcânico devedor das bandas sonoras compostas por Goran Bregovic ou os aromas de electro-tango.
As evasões à sua pop mais compenetrada e circunspecta ajudaram a glorificar a sua actuação portuense e desculparam os excessos de galhofa do grupo.
Pode ler artigo mais resumido no site Cotonete.

 

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Tuesday, October 30, 2007

PATTI SMITH: 7 RAZÕES PARA A CHAMARMOS DE GRANDE

Vivo ainda, como outras 3 mil pessoas, a ressaca de uma noite memorável de domingo no Coliseu dos Recreios por culpa de Patti Smith. Sem dúvida um dos concertos da minha vida.

Ultrapassado a custo o pasmo, e escusando-me a fazer uma descrição minuciosa de uma actuação com demasiadas incidências para isso, destaco 7 situações que muito dizem sobre a dimensão da senhora, numa ordem cronológica grosseira.

Momento 1 - Lenny Kaye, o seu guitarrista de há muito, tem os seus minutos de protagonismo vocal. Patti Smith ultrapassa o grande palco e começa a dançar sozinha junto das filas da frente. Dança freneticamente e bem com a garra de uma miúda de 16 anos. A multidão entusiasma-se e levanta-se. E consegue acompanhá-la. Patti Smith estava a declarar-se uma fã daquela banda com quem tocava. Àquilo chama-se de camaradagem. Foi bonito.

Momento 2 - Patti Smith nunca esquece os amigos. Nunca. Homenageia-os com palavras de um calor humano que nunca se esgota porque a alma de Patti é um poço que não tem fundo. Como aconteceu com Tom Verlaine (o líder dos Television) e o mítico bar nova-iorquino CBGB antes de tocar a velhinha canção «We Three». Os grandes momentos e as grandes bandas com quem Patti Smith se cruzou contarão com o agradecimento perpétuo.

Momento 3 - a força brutal da ode poética de Patti Smith a Kurt Cobain dirigido aos céus, na parte final de uma versão arrasadora de «Smells Like Teen Spirit», a música charneira dos Nirvana. Fiquei boquiaberto.

Momento 4 - a plateia do Coliseu estava composta por cadeiras, como que preparada para alguma ópera. O espectador que se sensibilizasse mais e se levantasse para prestar tributo à grandeza do que ouvia, era de imediato convidado a sentar-se por um empregado de fato e gravata mais zeloso. Típico. Normal. Mas estávamos num concerto de Patti Smith e fronteiras (limitações, timidez, vergonha) não são muito com ela. Abandona uma das músicas a meio - «Dancing Barefoot» -, a banda é obrigada a inventar uma fase instrumental mais prolongada, e aquela mulher magra de cabelos grisalhos percorre sozinha todos os corredores da plateia, acena e cumprimenta todos os espectadores e, debaixo das luzes altas do Coliseu, levanta toda uma sala que nunca mais fica no lugar.

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Momento 5 - a conjuntura é esta: uma sociedade cada vez mais medrosa e oligárquica que engole silenciosamente o crescimento de desigualdades. Cada vez menos direitos e menos liberdades. E um poder de dissuasão terrível: o desemprego ou a sua ameaça. Por isso, o discurso de Patti Smith anti-«Starbucks» e contra as grandes corporações que dela ouvimos no domingo tem um impacto muito maior hoje do que em 1975, quando se revelou ao mundo com a sua obra-prima Horses. Aquilo que ela diz não é poesia, é a verdade. É por isso que Patti Smith não perde a sua importância e renova o seu público (como se viu no Coliseu): porque é destemida. O seu discurso não está sustentado em vacuidades porque é demasiado realista.

Momento 6 - «Gloria»! Eu no balcão lateral, os que me rodeavam e todos os outros já não só estávamos de pé, já não só dançávamos. Pulávamos, num estado anímico alterado pelo encadeamento do crescendo daquela música, de outras que se ouviram e que se iriam ouvir («Because the Night», «Ghost Dance», «People Have the Power», «Rock N Roll Nigger»). Patti Smith é uma das poucas que pode sempre puxar mais um bocadinho por uma música, sabe abusar dela dando-nos vontade de que ela não acabe. A glória do momento pode sempre subir um bocadinho mais alto. A seguir a um pico alto, pode-se galgar para um pico ainda maior… E Patti Smith novamente de punhos erguidos. 

Momento 7 - Patti Smith pega no seu casaco e lança-o sobre as costas, despedindo-se de um público que sente ser seu compatriota espiritual (como disse noutro discurso sentido). É um momento ad eternum aquele: com aquele ar cuidadamente descuidado - figura esguia de ar atraentemente assexuado, cabelos desgrenhados, t-shirt simples, calças jeans, botas e o casaquinho à mão - que sobrevive tão fresco e carismático quanto a sua música. Até à próxima.

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Monday, September 10, 2007

O MEU AVANTE!

Sábado, dia de maior confusão. Como um dos muitos apartidários que garante à Festa do Avante! o seu carácter supra, não escapei à azáfama do acontecimento e misturei-me naquele alegre frenesim.

Quando finalmente quebrei com as distracções gastronómicas - que tiveram como melhor um delicioso mojito na barraca cubana e como pior uma pouco apurada moamba que me ocupou quase uma hora na fila - a caminhada musical começou tarde. 1ª etapa: a actuação raçuda e foliona dos multinacionais Fanfare Ciocarlia, ao modo cigano, no Palco 25 de Abril. Os romeno-búlgaros-mais qualquer-coisa proporcionaram uma festa ao preceito de um fã dos filmes do eslavo sulista (isto é, ex-jugoslavo) Kusturica em que só faltaram os tiros de metralhadora para o ar. A secção de metais dos velhotes ordenava a soltura dos membros da multidão. A empatia grassava, e aquela dançarina-cantadora cigana era a única que assumia os minutos de hipnótica lucidez no meio daquela bebedeira colectiva que animava os dois lados. Quando o canto cigano descansou, a festa dos metais pareceu atravessar o Atlântico para uma celebração cubana de rumba.

2ª etapa: Carlos Barretto no Auditório 1º Maio. Era para ser uma rapidinha, mas Barreto (no contrabaixo), Sassetti (nas teclas) e restante combo agarraram-me às suas vocações e não me deixaram apreciar um pouco de Chicago Blues Harp All Stars. Não me importei. Já vi Barretto, Sassetti a tocarem juntos vezes sem conta. Mas vê-los 23 vezes é muito diferente de só vê-los 22. Porque a 23ª vez soa melhor que a 22ª. O charme do jazz cresce à medida da idade dos seus intervenientes, mas Barretto ou Sassetti parecem já usufruir de uma veterania precoce.

3ª e última etapa: Toumani Diabaté & Symmetric Orchestra, no Auditório 1º Maio. Senti as notas de uma cultura milenar centro-africana, anterior à escrita mas nunca pré-histórica (ou lá o que isso seja), que fez da comunicação oral e sonora uma forma refinada, designada como música, sem a intervenção de caracteres. Diabaté, o didáctico orador, ia vigiando a irreverência pura dos acompanhantes. Às tantas, o cabecilha intervém e demonstra num delicioso solo por que razão lhe louvam tanto os seus dedos e o chamam mestre do kora, o mágico instrumento da zona do Mali das mais de vinte cordas. Eis como se faz em pouco ocidentais notas um belo desenho chamado África, que se sente, se ouve e se cheira.

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Friday, July 6, 2007

FESTIVAL SBSR: 2º E 3º DIAS DO ACTO INDIE

                                                                                           Os LCD Soundsystem corresponderam aos pergaminhos de um cabeça-de-cartaz, e foram os senhores da segunda noite. James Murphy ocupa muito bem o seu papel de patrão de banda, não dando folgas físicas aos seus parceiros, mas dando o exemplo, em nome de uma boa causa: um concerto corporal e musicalmente exigente e intenso. A música é um sumário dos anos 80, dos sons mecânicos dos Human League à estrutura rítmica revolucionária dos Gang of Four, mas através de uma filtragem com a assinatura muito pessoal de Murphy, que usa a sua absorção de ouvinte de longa data como ponto de partida para uma exploração mais criativa. James Murphy não parece, mas ele é tudo: criador, intérprete, instrumentista e, também, entertainer.

Os Jesus & Mary Chain são mais um caso de pouca imunidade perante a epidemia da nostalgite que alastra por várias bandas regressadas. O grupo dos irmãos Reid apresenta vários sintomas dessa doença como palidez, uma desvantagem visual e sonora enorme perante o passado e uma notória preguiça criativa presente (incluindo na interpretação dos clássicos). Apesar de tudo isso, o concerto funcionou. O set contínuo denunciava fobia a intervalos (isto é, a banda ter que dizer qualquer coisa), a banda finge não gostar de estar ali (ao mesmo que se sente que eles no fundo adoram tudo aquilo), e Jim parece um cantor de karaoke contrariado que podia ser substituído pelo fã de Jesus mais banal (quando, na verdade, só Jim Reid pode ser Jim Reid porque a aura ainda o cerca). Fazer dos defeitos virtudes tem um nome: estilo. E os Jesus têm-no. A receita de três acordes, que liga Velvet Underground a Sex Pistols e inaugura o conceito indie que hoje conhecemos, continua a ser uma invenção fabulosa que lhes pertence. E que vai sacudindo os deméritos - como aconteceu no SBSR.

Os Mäximo Park oscilam entre o melhor e o pior. Isto é, entre Kinks e James Blunt. Desta intermitência tem que se desconfiar, mas não há dúvida  que o simpático vocalista Paul Smith (com fato vitoriano completo) fartou-se de saltar. Ainda bem para ele.

Os Clap Your Hands Say Yeah embelezaram o final de tarde e revelaram inteligência ao preferirem dar prioridade no alinhamento às música mais geométricas e inocentes do álbum de estreia, de título homónimo, do que aos temas mais sinuosos do também interessantíssimo segundo disco, Some Loud Thunder. O quinteto nova-iorquino é mais fraco na primeira impressão do que na substância. Ou seja, expõem de forma caricatural as suas influências (quase sempre Talking Heads, raramente Bob Dylan). A sua individualidade e romantismo, que os torna numa das bandas pop/rock da actualidade, necessita de maior intimismo e de tempo para os apreender e dar conta da sua existência. 50 minutos foram suficientes para um bom concerto, mais outros 50 e talvez tivéssemos tido uma actuação inesquecível.

Se o segundo dia do acto indie teve um rei nocturno (James Murphy) e os seus LCD Soundsystem, o terceiro dia teve uma rainha diurna: Beth, a vocalista de medidas largas (físicas, vocais, de carisma, em todo o sentido do palco) dos Gossip. Tem garra de Janis Joplin, mas inserida numa banda punk minimalista, socorrida apenas por mais um guitarrista (também baixista) e uma baterista. Que bela prestação de blues-punk!

Os TV on the Radio tiveram duas contrariedades que não conseguiram contrariar: o sol que ainda pairava no céu sem discrição e as condições técnicas de som muito más que abafaram o grande potencial do grupo. Terão sido contrariedades suficientes para provocar um mau concerto? Não, a intensidade da banda não o deixou. A estranheza sonora do grupo (isto é, a pertinência) torna-os difíceis de arrumar nalguma prateleira referencial, e isso é dos melhores elogios que se pode fazer a um artista em qualquer texto crítico que seja.

Depois, o nível baixou. Os Scissor Sisters foram uma festa disco de falsetes na qual não participei. Os Interpol trouxeram as suas variações de Joy Division, em porte atlético mas criativamente muito pouco flexível. Foram mais profissionais do que interessantes.

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Wednesday, July 4, 2007

FESTIVAL SBSR: 1º DIA DO ACTO INDIE

                                                                                      Talvez tenha visto dos Arcade Fire o melhor concerto do ano e no entanto estou a achar isso normal. Não consigo discutir se esta foi uma actuação melhor ou pior que a de Paredes de Coura. A estreia no Minho revelou-se como o início de uma relação amorosa entre a banda e o público português; o concerto de ontem foi a consumação dessa relação, com dados novos: mais canções no reportório e maior duração do concerto, uma cenografia que já não é rudimentar (várias telas com imagens, luzes néon, entre outras coisas) adequada à teatralidade do grupo, melhor som (embora o lado técnico persista como o elo fraco da apresentação ao vivo do grupo), e a voz de Win Butler melhorada.

O concerto, emblemático, foi uma descarga de êxtases e de coros uníssonos que uniram banda e público numa performance com milhares de almas. As canções, já de si maravilhosas (sobretudo as de Funeral), agigantam-se ainda mais em palco - mesmo as músicas de maior contenção de Neon Bible.

O grande impacto visual e sonoro do colectivo e o empenho religioso de cada um dos músicos em cada uma das canções voltaram a deixaram marcas que originaram mais um grande concerto em Portugal.

Numa escala menos transcendente, mas de óptima qualidade, estivem os Magic Numbers. Com um visual hippie e um som devedor das melodias dos Mamas & Papas e da face mais pop dos Jefferson Airplane (via Grace Slick), os Magic Numbers apresentaram óptimas harmonias, com cada um dos quatro músicos a contribuir criativamente para um interessantíssimo puzzle de country-pop.

Na escala do giro, mas lúdico, estiveram, e bem, os Klaxons e os Bloc Party. Os primeiros enfiaram-se pelos anos 80 adentro, com um naipe de canções candidatas a hit (incluindo as menos divulgadas) oriundas do espectro do electro-pop. Os segundos provaram estar acima da sua apetência para um público mais adolescente, com um curioso set de rock musculoso e muito urbano, a que não faltaram alguns números ensaiados de Kele Okereke na arte de incentivar o público.

Contas feitas do que vi, o saldo do primeiro indie é bastante positivo.

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Monday, June 11, 2007

OEIRAS ALIVE!: THE BEASTIES SHOW

                                                                     Ontem, para além de uma ou outra espionagem, só consegui ver dois concertos inteiros, os Wraygunn e os grandes Beastie Boys. Apesar de não ter seguido todas as etapas sugeridas pela carta de mesa, fiquei feliz e de barriga cheia.

Após ver os Wraygunn, dou comigo a pensar até onde e quando irá parar Paulo Furtado, o líder. Até hoje, o homem não tem feito outra coisa senão progredido.

Ontem, eu e a multidão apanhámo-los em cheio num ponto de cruzamento perfeito - sempre com a assinatura muito pessoal Paulo Furtado a sobressair - entre o blues-punk e os fenómenos femininos da Motown - as Ronettes, por exemplo, vieram-me à cabeça, muito por obra da mímica e das vozes (mas acima de tudo da mímica) das meninas Raquel Ralha e Selma Uamusse, mas também porque a música criada pelo ex-Tédio Boys permite-lhes essa acomodação.

De palco em palco, de cidade em cidade, com ou sem os numerosos Wraygunn, o músico a tempo inteiro Paulo Furtado vai arrasando. O homem tem trabalho diário, e para quem tem dúvidas, as horas extraordinárias, que o são diante de nós, estão marcadas nesse livro de ponto chamado palco.

Depois, seguiram-se os mais de vinte anos de expectativas acumulados naqueles momentos de ansiedade para ver finalmente os Beasties, que frequentam a minha casa desde os meus 11 anos - em televisão (gramando os Adam Currys e os Ninos deste planeta) e, com um pouco de precisão nos meus tempos de desportista enquanto carregador do Rec, em formato VHS. Aquele som vigiado por Rick Rubin que encontrou os milímetros certos para encaixar o hard-rock no hip hop, adaptou-se bem a um miúdo tímido que andava no 6º ano de escolaridade. Depois fui crescendo, e eles também, e a relação a milhares de quilómetros de distância foi continuando, sem enfados e alargando-me horizontes para lá formato de banda de guitarras de que sempre gostei. E nenhum disco subsequente, nenhum mesmo, me desapontou, muito menos o ainda último To the 5 Boroughs. E depois de me sentir cidadão de uma Albânia onde nada acontece, ontem estava a minutos de concretizar finalmente uma ocasião ao vivo por que esperava há muito.

Quando chegou o momento, percebeu-se que os Beasties continuam um pouco patetas - sobretudo Mike D e Adam Horowitz, sobretudo Adam Horowitz - como se recomenda. O visual gangster tira-os do sério, e isso desarma qualquer um. Sem serem necessárias grandes aventuras de destreza instrumentista, tornam o espírito de rua do hip hop, o punk-hardcore e as viagens instrumentais mais funky parte de um só mundo, o dos Beasties, provando que as suas mais de duas décadas não têm corrido em vão. Mas não é isso que lhes retira a vontade de dar umas gargalhadas - sobretudo Mike D e Adam Horowitz, sobretudo Mike D por causa de Adam Horowitz. O gozo perdura, e a festa das crianças continua, correndo o corredor do palco de um lado para o outro, brincando às roupas aprumadas da gente graúda, e consagrando a sua história («No Sleep till Brooklin», «So What’cha Want», «Sabotage», «Intergalactic», o rol de clássicos não termina) sem nunca serem demasiado nostálgicos.

Divertiram e divertiram-se. E apesar de alguma da sua energia colectiva se perder naqueles hectares a céu aberto, sem o devido retorno, os Beastie Boys deixaram saudades.

Hoje, para quem pode, há um concerto instrumental dos Beasties na Aula Magna.  

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Sunday, June 3, 2007

LOW: DEVAGAR SE FOI LONGE

Para a pequena mas muito sólida base de fãs do grupo em Portugal, sobretudo para aqueles que desde cedo (desde o magnífico debute, I Could Live in Hope, em 1994) se começaram a familiarizar com o seu som arrastado, a noite de ontem, no Santiago Alquimista (Lisboa), foi como uma matança de um resistente borrego - segundo modos lentos e pacíficos como convém.

O repertório já é longo, e por culpa desse mérito, os Low dão a sensação que é fácil darem um concerto melhor - por muito bom que ele seja - e que é fácil convencerem o seu público - tantas as boas canções por onde escolher. As margens de eficiência são enormes e talvez por isso, a actuação tenha parecido desafogada, tendo bastado uma guitarra eléctrica, um baixo e uma cinéfila bateria, além das canções (sempre boas) e de um pouco de profissionalismo.

A banda sonora de Twin Peaks (que Angelo Badalamenti compôs para a série televisiva de David Lynch) começou por ser uma influência, mas oito álbuns e uns quantos EPs marcantes tornaram-nos os proprietários legítimos daquele som. Os Low são hoje a banda sonora de Twin Peaks. Ela continuou sem guião e sem ser necessário desvendar quem matou Laura Palmer. O sinal de vida da bizarra «telenovela» prolongou-se com várias e diversas flutuações - ora ainda mais lúgubres, ora mais positivas, ora mais noise & roll - na própria música dos Low. E por terem sabido manter esse espírito, sabendo actualizá-lo e renová-lo, o trio tem hoje garantido um fértil circuito ao vivo de pequenos clubes e de cafés, e um público rendido antes de ser necessário tocar o primeiro acorde - como sucedeu ontem.

   A lynchiana cortina avermelhada da sala foi uma coincidência cenográfica proporcional para um concerto condenado à partida ao sucesso, em que era fácil as coisas correrem bem. Mesmo sem os préstimos do baixista de longa data Zak Sally, com Matt Livingston no seu lugar, os catorze anos de disciplina produtiva exemplar que o grupo já leva, aliados ao talento (mesmo que sem pontos altos de génio), tem que produzir resultados que só podem ser bons: as brilhantes harmonias vocais entre o guitarrista e líder Alan Sparhawk e a baterista de pé Mimi Parker, a maleabilidade instrumental que os permite improvisar e corrigir os alinhamentos a meio do concerto, e um sentimento confortável com o seu estatuto de banda fúnebre. Tudo isto conduzi-os a novos louvores e a um segundo encore não previsto.

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Thursday, May 3, 2007

JOANNA NEWSOM: CONTOS E (EN)CANTOS DE FADA NA AULA MAGNA

A bela e frágil Joanna Newsom deixou ontem uma imagem de transcendência na Aula Magna da Cidade Universitária de Lisboa. Do imaginário mitológico das suas canções para a realidade, bastou a sua voz de sereia e as suas mãos mágicas de fada que beliscavam as cordas da sua harpa e provocavam, com a ajuda do seu músico do bandolim (e por vezes do banjo), uma utopia irreal de uma folk tão espalhada pelo tempo que aquela música poderia ser tocada para uma corte do século XVIII. 

Enquanto Joanna Newsom, qual potencial protegida que apaixona um rei absolutista, vai enamorando ouvidos longínquos no seu canto cristalino, a sua Ys Street Band (um trocadilho com a E Street Band de Bruce Springsteen) - um bandolinista, uma violinista e um baterista - confere à sua música uma dimensão mais real e plebeia que alarga o âmbito artístico da coisa para a western-folk.

Da estrutura musical hercúlea das canções de Ys (2006) à maior brevidade de temas circundantes (incluindo «Colleen» do EP mais recente Joanna Newsom & the Ys Street Band), a magia de Newsom não deu tréguas.

Antes, brilhou o escocês Alasdair Roberts, fiel ao papel solitário de cantautor que tem a guitarra como único escudo. Também sob desígnios líricos ancestrais, mas centrados na sua Escócia e na vizinha Irlanda, Roberts cantou fados, mas em folk puramente britânica.

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