Monday, November 19, 2007

NO MEU CINEMA: «CONTROL» DE ANTON CORBIJN

                                                                          Está a surpreender-me a vaga de críticas positivas (que evidentemente respeito) em torno de Control, o filme biográfico sobre a vida de Ian Curtis (líder dos Joy Division que se suicidou em 1980). Achei-o profundamente mediano.

Nota 1: Control lembra-me que Anton Corbijn é um excelente fotógrafo e um realizador de videoclips com obra de autor, e não um realizador de cinema. As perspicazes opções de filmagem a preto e branco, o desenho cenográfico e quase poético dos subúrbios cinzentões de Manchester alusivos a um período cinzentão da vida social britânica (prenúncio e confirmação da chegada ao poder de Thatcher) ou aquelas captações musicais ao vivo quase reais, não fizeram Corbijn inventar a pólvora de modo a criar repentinamente ele mesmo cinema de corpo inteiro.

Nota 2: Control fica encravado durante as suas duas horas entre a opção de cinema de autor e a do filme biográfico encomendado. E de lá não saiu. Nunca foi bem uma coisa, nem outra. Control não é carne, nem peixe - o contrário do que se poderia dizer da música dos Joy Division.

Nota 3: Outro contraste muito chato com a realidade histórica é o actor que interpreta Ian Curtis, Sam Riley. Tem sido elogiado pelas parecenças físicas com o lendário cantor, mas a mim lembrou-me desde o início o baixista dos Ramones, Dee Dee Ramone (que apesar de mítico, era a caricatura do homem banal). A ausência de uma expressão forte de Sam Riley faz do Ian Curtis interpretado uma sombra apática daquele que existiu, que era brindado por um olhar marcante e por uma aura especial que fazia dele uma figura alienígena.    

Nota 4: A direcção de actores é, aliás, um dos pontos mais fracos do filme. As personagens parecem marionetas passivas, órfãs de vida própria, que se limitam a cumprir os clichés da história.

Nota 5: Que faceta desconhecida da personalidade complexa de Ian Curtis nos deu Corbijn a conhecer, além das suas famosas depressões e dos seus problemas de epilepsia? Onde está o lado mais humorado que os seus ex-colegas lembram, por exemplo? É talvez esse apoio na visão humorística que faz 24 Party People (o filme de Michael Winterbottom sobre a Factory) ganhar aos pontos este taciturno Control.

Nota 6: Para se seguir com um decalque rigoroso a linha factual tentando reproduzi-la com o máximo realismo, como acontece em Control, é preciso uma dinâmica profissional típica de uma indústria de topo como aquela que ergueu o biopic de Johnny Cash, Walk the Line, que tão bons resultados colheu. Entregar um filme desta natureza a um cineasta aprendiz como Anton Corbijn, mesmo que tivesse conhecido pessoal e profissionalmente Ian Curtis, tem efeitos poucos interessantes.

Nota 7: Há um desvio de salutar ao livro de Deborah Curtis, Touching from a Distance - Ian Curtis and Joy Division, que inspira este filme: o retrato que Corbijn faz de Annick Honoré, a amante belga de Curtis, é um pouco mais humano. Ao menos isso. 

PS - Abrandamento bloguista necessário por motivos alheios. A ver se não dura muito tempo…

Posted by Gonçalo Palma at 22:56:58 | Permalink | Comments (2)

Monday, May 21, 2007

VIDEOCLIP COM HISTÓRIA: DEPECHE MODE, «BEHIND THE WHEEL» (1987)

                                                                              O fotógrafo e videasta holandês Anton Corbijn tornou-se rapidamente numa espécie de quinto membro do então quarteto Depeche Mode - hoje o «quarto membro» do agora trio.

O encontro entre o realizador e a ascendente banda foi amor à primeira vista. A fotografia a preto-e-branco de Anton Corbijn era ensaiada e prolongada no formato de videoclip e, a partir de «A Question of Time» (1986), o holandês encontrou a sua banda sonora perfeita na música sombria e enigmática dos Depeche Mode. Com a experiência bem sucedida de «A Question of Time», o grupo percebeu que tinha descoberto o profissional certo para trabalhar a enorme potencialidade, que estava oculta, da imagem misteriosa do grupo. Tratava-se sem dúvida de um amor recíproco.

«Behind the Wheel» (música que abrilhanta o álbum Music for the Masses) é o quinto vídeo      que Corbijn realiza para os Depeche Mode, e assume-se talvez como o mais fascinante dos seis capítulos do projecto Strange - que agrupa outros telediscos contemporâneos (incluindo «A Question of Time» e «Never Let Me Down Again») ligados pelo mesmo conceito de imagem e pela mesma relação abstracta entre personagens e o cenário onde se movimentam.

O vídeo desenvolve a ideia de estranhos numa terra (que lhes é) estranha, que os estranha, vagueando Dave Gahan e uma mulher desconhecida numa motoreta por uma zona da Europa católica do sul. O silêncio cúmplice entre o casal ocasional antecipa o que o olhar local desconfiado (o do padre) já vê: o pecado, que se deseja através de palavras não ditas, e que o ar carregado da paisagem já avisadamente condena.

Com mãos de mestre, Corbijn vai deslumbrando o olhar com um cenário arrasador e objectos que cumprem ideais estéticos - a Vespa, as velhas bombas de gasolina, a roda da fortuna, o lenço dela, o vestuário de galã dele -, sabendo manipular a tensão do filme. E sabendo sobredimensionar a música - o que se pede a um grande realizador de videoclips.

É desta forma que um videasta participa na história de um grupo. E neste caso, no seu amadurecimento.

Anton Corbijn é o realizador de Control, o filme sobre a vida de Ian Curtis, o vocalista dos Joy Division, que abriu há poucos a Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes.

alt : http://www.youtube.com/v/HenggNxvQ5M

Posted by Gonçalo Palma at 00:19:48 | Permalink | No Comments »