AMARRADO AO CAIS: BLACK FRANCIS, «BLUEFINGER»
(OU UMA REFLEXÃO SOBRE A CRISE DE MEIA-IDADE)

Frank Black voltou a ser Black Francis. Depois de falhar uma segunda vida nos Pixies que retomasse a discografia de inéditos, Black quer voltar a rockar.
O nome Black Francis é pesado e corresponde à sua encarnação de fera indomável a liderar a banda de Boston na pele de mais uma estrela de rock invulgar e fascinante a intelectualizar o descendente mais demoníaco dos blues.
Quando Black se tornou Frank, fê-lo com razão, podendo orgulhar-se de que o rompimento com os Pixies fora um trabalho completo - o divórcio não foi só legal, foi também musical.
O seu encanto passou a ser a de uma fera domesticada que se passou a interessar mais pelos pequenos prazeres mundanos que a Terra oferece do que em ser mais um ícone da religião rock candidato à canonização pelos seus peregrinos mais fiéis. Soube argumentar muito bem a sua mudança de filosofia, passando a cantar mais do que a berrar, mas mantendo o princípio sagrado de fertilidade criativa que preservasse o seu nome no altar dos grandes cérebros da música urbana.
Depois, gradualmente, foi-se vulgarizando, denotando uma preguiça e um desinteresse crescentes face a ginásticas de maior calibre criativo, as tais que ajudaram a fazer dele um nome respeitadíssimo, como se esses esforços maiores já não fossem mais com ele - mesmo que assim o dissesse com um mínimo de brio profissional.
Hoje, quando Black assume o seu primeiro nome artístico, debate-se com um percurso individual que, analisado no seu todo, é cada vez mais crítico. No seu périplo a solo, a lógica da quantidade (12 álbuns de originais em 14 anos!) atropela a de qualidade - e os Pixies fizeram tão bem o contrário. Confunde trabalhar muito com trabalhar bem - e os Pixies fizeram tão bem as duas coisas. E substitui a obstinação inicial por uma teimosia narcisista, chegando a um ponto insuportável que nos obriga a perguntar: para quem estará a tocar Black que não para ele próprio?
Hoje, 2007, em 12 álbuns a solo (a contar com o novo), só se consegue defender calorosamente a sua carreira pós-Pixies com quatro dedos de uma só mão: Frank Black (1993), Teenager of the Year (1994), Black Letter Days (2002) e Honeycomb (2005).
Os dois primeiros discos são dois brilhantes canais-mosaico que sugerem os novos caminhos a trilhar no futuro por Black (country, o punk mais puro, o vaudeville), fazendo o ex-Pixies folk com hábitos arrojadamente pop, num híbrido que desnorteou os próprios fãs dos Pixies. Frank Black e Teenager of the Year foram a pós-graduação e o doutoramento do grande compositor americano que era cada vez mais Black, com teses singulares de uma complexidade e uma cultura musical que exigiam disponibilidade (e nem todos a tiveram).
Black Letter Days é a obra-prima country de Black que o balão de ensaio Dog in the Sand (2001) prenunciava com menor especificidade - e um justo prémio para a sua armada Catholics que se ia adaptando com prontidão e polivalência às mudanças de humores do seu patrão, sem nunca ensombrar a sua autoridade.
Honeycomb é o delicioso álbum que Black desejava fazer com Phil Spector - mas com o próprio Black a fazer de Spector. O disco brilha como o único raio luminoso dos últimos cinco anos desastrosos do músico norte-americano.
A despedida dos Catholics é tratada com um disco inconsistente, Show Me Your Tears (2003). Depois, resolve manchar o livro imaculado dos Pixies, até então sem pecados e com um prazo de vida de lucidez rara, com uma digressão nostálgica em que os Pixies pareciam uma banda de covers (e uma sombra bem pesada) de si mesmos. Como se não bastasse, Black prescindiu do poder de síntese de que antes podia ser elogiado para se lançar a um álbum duplo de atmosfera country, Fast Man Raider Man, e a mais um espalhanço ao comprido, quando nem sequer tinha meia-dúzia de canções com o mínimo de interesse para o efeito.
Bluefinger agrava a estatística. Depois de durante grande parte da sua carreira vender fruta de mau aspecto mas saborosa, o processo agora inverte-se.
A energia nova sugerida pelo single «Threshold Apprehension» - num curioso misto entre Pixies e a secção lúdico-rockeira dos Beastie Boys - não passa de uma aparência. E a própria canção não se desenvolve muito mais além da boa impressão inicial. É aliás a primeira vez que se ouve Black a solo a tentar fazer um refrão à Pixies. Seria esta uma das músicas novas que Black engendrava para um álbum novo dos Pixies? Se sim, então Kim Deal tem razão em se opor à publicação de composições inéditas com o nome sagrado de Pixies. Manchar mais o bom nome para quê?
No resto, o disco alude a um Black a mascarar-se ao ídolo Iggy Pop, num rock furioso comprometido com costumes country já adquiridos, e acompanhado pontualmente por cândidas vozes femininas. Na teoria, isto soa bem. Mas não em Bluefinger. Os bons momentos do disco não passam de esperanças que se esvaziam nos conteúdos frágeis daquilo que descobrimos serem musiquinhas e cantilenas - e nunca as músicas de corpo inteiro que assinava com o nome de Black Francis.
Este Black Francis vocifera, mas não consegue ser a fera indomável de outrora. Em Bluefinger, ele é apenas um cão que ladra, e que ladra muito, mas que não morde. (Cooking Vinyl, 2007)
O que fazer quando uma banda se move muito além do seu próprio público? Para os Manic Street Preachers não houve hesitação, a sua existência sem megafone não fazia sentido e por isso decidiram dar um passo atrás para recuperar o som clássico e o impacto público de outrora.
Send Away the Tigers parece um pedido de desculpa pelo passado recente que a banda não devia fazer. Primeiro porque a matéria resultante dos dois discos anteriores é demasiado graúda para ser vista com arrependimento. Segundo, a tentativa de aproximação ao que o público quer para interromper a necessária evolução da identidade do grupo dá quase sempre maus resultados. Terceiro, a tentativa do novo álbum em recuperar o efeito de Everything Must Go, embora prescindindo dos preceitos épicos deste, cai em pano roto porque, ao contrário dos velhos tempos, faltam canções marcantes (e isso o velho fã também exige) ao demasiado pálido Send Away the Tigers.
O novo álbum de Björk encaixa literalmente no nome desta circunstancial rubrica. O disco teve como um dos locais de gravação o barco de Björk e de Matthew Barney. Porém, apesar das audíveis buzinas de partida da embarcação, a música de Björk não consegue navegar para lá do mesmo sítio.
A tripulação é mais do que respeitável (Toumani Diabaté, Antony, Mark Bell, Timbaland, Chris Corsano, e muitos outros), e o arsenal tecnológico e instrumental permite viagens longínquas (muita maquinaria computadorizada, muitos metais orquestrados, uma panóplia vasta percutida, e até instrumentos menos convencionais como o pípá e a kora), mas a voz de Björk está transformada numa amarra. A sua potencialidade natural, que dantes comandava e desbravava itinerários fantásticos, passou de solução a problema.