ÁLBUM DE RECORDAÇÕES #13: RAINCOATS, «LOOKING IN THE SHADOWS» (1996)
Uma das muitas coisas engraçadas da música é o seu poder em nos dizer que as cabeças de homens e mulheres funcionam de forma consideravelmente diferente. A masculina é mais focada, como a música que cria. A feminina distribui-se por uma diversidade de pormenores.
Não conheço álbum que reflicta tão bem e de forma tão arrebatadora essa complexidade cerebral feminina como o longo de regresso das Raincoats, Looking in the Shadows. As melodias estão rodeadas por um contingente infinito de pequenas fantasias sonoras satélites (vocalizações distorcidas, o violino excitado da nova recruta Anne Wood, arranhadelas mais curiosas pela guitarra, o atrevimento nos teclados) que lhe dão uma outra volumetria. Este experimentalismo decorativo das Raincoats realçam uma sensibilidade feminina refinada que eleva aos píncaros Looking in the Shadows.
Tinham passado dez anos desde a primeira separação das Raincoats. E no entanto Gina Birch e Ana da Silva, a dupla sobrevivente do trio inglês, não os viveram em vão. As diferenças entre a rudeza selvagem e sôfrega da primeira vida do grupo e a serenidade deste regresso são flagrantes e surpreendentes.
Looking in the Shadows relembra-nos que não é preciso editar discos e dar concertos ano-após-ano para se crescer musicalmente. A frescura conquista-se (neste caso, reconquista-se) no anonimato da vida social normal - essa fonte de inspiração sem fim. Deve ser por isso que proliferam por aí carreiras musicais que progridem numa angustia gradual à medida que se distanciam da genuinidade do debute.
Mas as Raincoats não eram músicas de carreira. É esse desapego o charme de Looking in the Shadows, sempre com o tempo do seu lado. (Geffen)
Foi uma pena Kurt Cobain não ter vivido o tempo suficiente para assistir à consequência discográfica deste regresso que ele próprio incentivou de forma decisiva.
Mellow Gold é um autêntico certificado de habilitações de grande compositor americano, qualquer que ele fosse.
Desobedeçam neste caso em particular ao que os guias de música dizem, (demasiado) consensuais em tomar os dois primeiros álbuns, Modern Dance (1978) e Dub Housing (1978), como as obras maiores dos Pere Ubu. E não se fiem tanto na história do rock, que tende a elevar a feitos hercúleos, e com discriminação, as conjunturas e os arranques de carreira - pelo menos, neste caso em particular.
A leva de surrealismo sinistro, de visão do oculto da América e de crítica metafórica incisiva apanhou na rede de Ray Gun Suitcase alguns padrões rock mais convencionais (incluindo um radio friendly «Memphis» que só passou na nossa XFM), viagens sónicas mais deambulatórias e um delírio criativo que faz do álbum uma autêntica obra-prima. Não é preciso fazer a contagem de discípulos para se avaliar a qualidade do trabalho de David Thomas. Os anos passam e a excelência continua. (Cooking Vinyl)
Durante a sucessão de independências de Estados africanos, ocorrida nas décadas de 50 e de 60, vários governos procuraram incentivar a recuperação da identidade tradicional africana na música, sem descurar um olhar mais moderno e criativo. O governo maliano foi um dos que se sensibilizou com a questão, e criou um fundo de apoio para vários projectos, como a Rail Band que se tornou num portal de visita à cultura do país, tocando regularmente na famosa estação ferroviária de Bamaco (a capital do Mali).
Mory Kanté & Salif Keita é um delicioso documento da passagem meteórica destas duas grandes figuras pelo histórico balão de ensaio da Rail Band, onde se experimentava de tudo, de versões de clássicos pop, improvisações de jazz à própria música africana tradicional. Antes de voos maiores para viagens únicas, a Rail Band foi um ninho de aprendizagem fundamental para o maliano Salif Keita (antes de uma passagem pelos rivais vizinhos Les Ambassadeurs du Motel e de um caminho cada vez mais reflexivo) e para o guineense Mory Kanté (que é hoje um dos grandes mestres do kora, o mais famoso instrumento maliano de cordas, aclamado como a «harpa africana»).
Além da curiosidade histórica, o disco é revestido pelo gozo dos seus executantes que, com acordes minimalistas e o perfume de África, hipnotizam a atmosfera onde se situa o receptor.
Sob melodias orgulhosas da sua elegância, ouvem-se com redobrado fulgor castanholas a representar a raça do flamenco, marchas militares solenes e, ao fundo, o toque malandro de Don Juan. No posto de vigia, e também no centro de gravitação, claro, o trompete de Miles Davis, para mais sopros milagrosos a empurrar a música mais adiante.
Marisa Monte inaugurou a sua discografia com um álbum ao vivo, MM. E quando o fez, o seu nome já circulava nas bocas de algum mundo - o brasileiro.
Debaixo da aura noctívaga de femme fatale jazzística, Marisa Monte aproveitou o seu momento como pôde para seduzir. O flirt foi um sucesso e a paixão do público tornou-se irreversível. (World Pacific)
O resultado do levantamento dos melhores discos dos U2, e do pior, que a Mojo recentemente desafiou aos leitores, é a prova que as venerações a publicações de referência, como sem dúvida é a citada, devem ser sempre condicionais.
A caminhada artística galopante do grupo irlandês da primeira metade da década de 90 confirmava a idade dos trinta como a melhor para um artista pop, o ponto de encontro perfeito entre a frescura que resiste dos vinte e os sinais mais evidentes de maturidade que o tempo deve desenvolver. E em Original Soundtracks 1 a banda chegava à mais imprevisível das etapas, tão imprevisível que o grupo mudou excepcionalmente de designação. A culpa era Brian Eno, o produtor e, mais do nunca, esteta. A ele se devem as criativas explorações electrónicas do disco, o espírito enigmático de algumas músicas e o seu grau de abstracção, com uma maleabilidade de formas impossível de ser arrumada nas convenções. Brian Eno preparou a aventura e os U2 foram seus passageiros.
Jorge Palma é um dos músicos mais geniais e completos que temos. À sua cabeça não lhe faltam bons sentimentos e belas histórias que só ele, com destreza de poeta, é capaz de inventar. A humanidade com que enriquece as suas canções sugere uma alma generosa, amiga do amigo, que, com défice de egoísmo, atraiçoa a sua própria carreira às vezes.
Há coisa de quatro/cinco anos, escrevi para uma secção do Blitz, denominada Fundo de Catálogo, a seguinte prosa sobre o disco em referência que optei por não trair:
A escrita non-sense das letras revela uma preocupação maior nos efeitos melodiosos. Alison Statton dá uma entoação de suspense vocal hipnotizante a músicas como «Music for Evenings», «Wurlitzer Jukebox», «Credit in the Straight World» e «Brand - New - Life». O mesmo acorde de guitarra repete-se vezes sem conta mas é apaixonante. E, entretanto, parece que alguém anda a brincar com o órgão. Três notas é o uso máximo, e três minutos é a duração limite de uma canção.