ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Sunday, April 13, 2008
A HISTÓRIA VEM AÍ
Começa a ser uma fartura. Em Lisboa, Porto e arredores. A história da música popular invade Portugal nos próximos tempos. Leonard Cohen, Bob Dylan, Neil Young, Lou Reed, B-52’s, Young Marble Giants, Nick Cave, Einstürzende Neubauten, Meredith Monk, Duran Duran, documentários no IndieLisboa sobre Joe Strummer, Joy Division, Scott Walker ou Patti Smith, um filme-concerto dos Rolling Stones dirigido por Martin Scorsese. Há de tudo, de repetentes a estreantes, para muitos gostos e formatos.
Eis a primeira amostra de Dig, Lazarus, Dig!!!: o vídeo oficial do tema-título do próximo álbum de Nick Cave & The Bad Seeds (que sai a 3 de Março). Promete.
ANTÓNIO SÉRGIO: O RADAR DEVOLVIDO AO MESTRE A PARTIR DE HOJE
97.8: passa a ser aqui a residência dessa enigmática e monstruosa voz que identificamos imediatamente como sendo a de António Sérgio: a partir de hoje, entre segunda e sexta, entre as 23h00 e a 1h00. O novo habitat do grande radialista é, muito ajustadamente, a Rádio Radar. O seu programa principal intitula-se Viriato 25.
O radar radiofónico das transgressões sonoras reencontra um dos seus sábios mestres. Agora, há que refugiar no quentinho lar ou no frágil automóvel porque o «Lobo» vai voltar a ser ouvido do seu abrigo eremita.
Vivo ainda, como outras 3 mil pessoas, a ressaca de uma noite memorável de domingo no Coliseu dos Recreios por culpa de Patti Smith. Sem dúvida um dos concertos da minha vida.
Ultrapassado a custo o pasmo, e escusando-me a fazer uma descrição minuciosa de uma actuação com demasiadas incidências para isso, destaco 7 situações que muito dizem sobre a dimensão da senhora, numa ordem cronológica grosseira.
Momento 1 - Lenny Kaye, o seu guitarrista de há muito, tem os seus minutos de protagonismo vocal. Patti Smith ultrapassa o grande palco e começa a dançar sozinha junto das filas da frente. Dança freneticamente e bem com a garra de uma miúda de 16 anos. A multidão entusiasma-se e levanta-se. E consegue acompanhá-la. Patti Smith estava a declarar-se uma fã daquela banda com quem tocava. Àquilo chama-se de camaradagem. Foi bonito.
Momento 2 - Patti Smith nunca esquece os amigos. Nunca. Homenageia-os com palavras de um calor humano que nunca se esgota porque a alma de Patti é um poço que não tem fundo. Como aconteceu com Tom Verlaine (o líder dos Television) e o mítico bar nova-iorquino CBGB antes de tocar a velhinha canção «We Three». Os grandes momentos e as grandes bandas com quem Patti Smith se cruzou contarão com o agradecimento perpétuo.
Momento 3 - a força brutal da ode poética de Patti Smith a Kurt Cobain dirigido aos céus, na parte final de uma versão arrasadora de «Smells Like Teen Spirit», a música charneira dos Nirvana. Fiquei boquiaberto.
Momento 4 - a plateia do Coliseu estava composta por cadeiras, como que preparada para alguma ópera. O espectador que se sensibilizasse mais e se levantasse para prestar tributo à grandeza do que ouvia, era de imediato convidado a sentar-se por um empregado de fato e gravata mais zeloso. Típico. Normal. Mas estávamos num concerto de Patti Smith e fronteiras (limitações, timidez, vergonha) não são muito com ela. Abandona uma das músicas a meio - «Dancing Barefoot» -, a banda é obrigada a inventar uma fase instrumental mais prolongada, e aquela mulher magra de cabelos grisalhos percorre sozinha todos os corredores da plateia, acena e cumprimenta todos os espectadores e, debaixo das luzes altas do Coliseu, levanta toda uma sala que nunca mais fica no lugar.
Momento 5 - a conjuntura é esta: uma sociedade cada vez mais medrosa e oligárquica que engole silenciosamente o crescimento de desigualdades. Cada vez menos direitos e menos liberdades. E um poder de dissuasão terrível: o desemprego ou a sua ameaça. Por isso, o discurso de Patti Smith anti-«Starbucks» e contra as grandes corporações que dela ouvimos no domingo tem um impacto muito maior hoje do que em 1975, quando se revelou ao mundo com a sua obra-prima Horses. Aquilo que ela diz não é poesia, é a verdade. É por isso que Patti Smith não perde a sua importância e renova o seu público (como se viu no Coliseu): porque é destemida. O seu discurso não está sustentado em vacuidades porque é demasiado realista.
Momento 6 - «Gloria»! Eu no balcão lateral, os que me rodeavam e todos os outros já não só estávamos de pé, já não só dançávamos. Pulávamos, num estado anímico alterado pelo encadeamento do crescendo daquela música, de outras que se ouviram e que se iriam ouvir («Because the Night», «Ghost Dance», «People Have the Power», «Rock N Roll Nigger»). Patti Smith é uma das poucas que pode sempre puxar mais um bocadinho por uma música, sabe abusar dela dando-nos vontade de que ela não acabe. A glória do momento pode sempre subir um bocadinho mais alto. A seguir a um pico alto, pode-se galgar para um pico ainda maior… E Patti Smith novamente de punhos erguidos.
Momento 7 - Patti Smith pega no seu casaco e lança-o sobre as costas, despedindo-se de um público que sente ser seu compatriota espiritual (como disse noutro discurso sentido). É um momento ad eternum aquele: com aquele ar cuidadamente descuidado - figura esguia de ar atraentemente assexuado, cabelos desgrenhados, t-shirt simples, calças jeans, botas e o casaquinho à mão - que sobrevive tão fresco e carismático quanto a sua música. Até à próxima.
Eis uma excelente sugestão de férias na costa alentejana que junta, numa conciliação idílica, maravilhosas praias (de dia) à excelente música (de noite). Talvez ainda possam ir a tempo.
Relembre-se o programa:
DIA 20 (Porto Côvo) - Galandum Galundaina (Portugal), Darko Rundek & Cargo Orkestar (Croácia/França) e Etran Finatawa (Níger).
DIA 21 (Porto Côvo) - Don Byron a interpretar Junior Walker (Estados Unidos), Mamani Keita & Nicolas Repac (Mali/França) e Deti Picasso (Rússia/Arménia).
DIA 22 (Porto Côvo) - Djabe (Hungria), Rão Kyao & Karl Seglem (Portugal/Noruega) e Haydamaky (Ucrânia).
DIA 23 (Centro de Artes de Sines) - Marcel Kanche (França) e Ttukunak (Espanha, País Basco).
DIA 24 (Centro de Artes de Sines) - Lula Pena (Portugal) e Jacky Molard Acustic Quartet (Bretanha, França).
DIA 25, Castelo de Sines - Trilok Gurtu & Arkè String Quartet (Índia/Itália), Bellowhead (Reino Unido) e Kasaï Allstars (Rep. Dem. Congo).
Av. Praia, Sines - Oki Dub Ainu Band (Japão), António Pires & Gonçalo Frota (DJ set).
DIA 26, Castelo de Sines - Carlos Bica & Azul (Portugal), Tartit (Mali), Mahmoud Ahmed (Etiópia) e Bitty McLean.
Av. Praia, Sines - Harry Manx (Canadá), Bitty McLean (Inglaterra), Raquel Bulha & Álvaro Costa (DJ set).
DIA 27, Castelo de Sines - Hamilton de Holanda Quinteto (Brasil), World Saxophone Quartet (Estados Unidos) e Rachid Taha (Argélia).
Av. Praia, Sines - Aronas (Nova Zelândia/Austrália), La Etruria Criminale Banda (Itália), DJ Mankala & Freestylaz (DJ set).
DIA 28, Castelo de Sines - Erika Stucky (Suíça/EUA), K’Naan (Somália) e Gogol Bordello (Estados Unidos/Ucrânia).
Av. Praia, Sines - Norkst (Bretanha, França), Señor Coconut (Chile/Alemanha) e Bailarico Sofisticado (DJ set).
Compro-a com um entusiasmo de criança. Devoro-a, mesmo discordando. Poupo muito poucas páginas à voracidade dos meus dedos - quase sempre as da secção de cinema que considero o seu calcanhar de Aquiles (e o reflexo britânico de uma visão cinéfila muito curta do planeta, afunilada aos antigos países do Império e completamente submissa perante o domínio despótico dos Estados Unidos, como se nada mais se passasse à volta).
Há umas boas horas passei-me orgulhoso com a fresquinha edição comemorativa do 10º aniversário da sapiente revista (que começou a ser publicada em Maio de 1997): uma capa de cartão a abrigar a publicação, o obrigatório CD (este inspirado no programa de rádio que Bob Dylan apresenta, Theme Time Radio Hour, na americana XM Radio) e um compêndio de factos e considerações musicais. Não falta sequer uma página inteira dedicada ao guru da imprensa musical que ergueu a Uncut: Allan Jones, o equivalente de John Peel mas ao serviço das letras, ou como a existência de um homem, com a sua generosidade e paixão na escrita, torna a vida dos outros um bocadinho mais interessante, mesmo que à distância de milhares de quilómetros.
Nos conteúdos a vitalidade do costume: testemunhos históricos fantásticos presos ao mesmo agrupamento de folhas onde brilham críticas de divulgação dos novos sons, e a mesma utilidade da revista tanto para acompanhar um café à pressa (enquanto se lê um rubrica com piada) como para ser colocada junto à mesa de cabeceira (e ler um artigo histórico mais aprofundado).
É agradável saber de vez em quando que há instituições de referência com uma idade jovial como aquela. Ainda por cima, têm concorrência à altura.
O descanso de Verão tem duas concepções filosóficas, ambas legítimas: o do turista e o do viajante. O primeiro prefere a segurança de hábitos rotineiros (se for para a praia) ou de um pacote em que sabe de antemão o que vai fazer exactamente em cada dia (se for em excursão). O segundo dá prioridade à aventura e à surpresa, estando aberto a tudo, incluindo às contingências. O turista, quando parte, já tem as folhas do diário quase todas escritas; no momento de embarque, as folhas do diário do viajante estão quase todas por escrever.
O festival Rock in Rio Lisboa tem um perfil turístico e cumpre-o muito bem. O programa é uma confortável repetição do itinerário da edição anterior para agrado de toda a família.
Os 3 grandes festivais deste Verão (se excluirmos o Oeiras Alive! e o incluirmos na estação pertencente) estão rendidos ao conceito de viajante - que a minha disposição meramente pessoal saúda. Os seus cartazes estão à altura de um público ávido pela descoberta, sempre disponível e atento à novidade, e bem preparado para os altos e baixos que vierem do palco. Ainda que o programa de Paredes de Coura esteja incompleto, estamos diante de três cartazes bastante dignos.
Festival SBSR (Parque Tejo, Lisboa)
03 de Julho
00h00-01h30: Arcade Fire
22h25- 23h40: Bloc Party
21h05-22h05: Magic Numbers
19h45-20h45: Klaxons
18h35-19h25: The Gift
17h30-18h15: Bunnyranch
17h00-17h15: Banda Pre-Load
04 de Julho
00h20-01h35: LCD Soundsystem
22h45-00h00: The Jesus & Mary Chain
21h25-22h25: Maximo Park
20h05- 21h05: The Rapture
18h45-19h45: Clap Your Hands Say Yeah
17h45-18h25: Linda Martini
17h00-17h30: Mundo Cão
05 de Julho
00h45-00h02: Underworld
23h05-00h25: Interpol
21h20-22h35: Scissor Sisters
20h10-21h00: Tv On The Radio
19h05-19h50: The Gossip
18h10-18h50: X-Wife
17h35-17h55: Micro Audio Waves
17h00-17h20: Anselmo Ralph
Festival Sudoeste
2 de Agosto
PALCO TMN
Damian Marley
Editors
Gilberto Gil
Mayra Andrade
I’m from Barcelona
Cassius (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Rui Vargas
The Noissetes
Camera Obscura
Ojos de Brujo
3 de Agosto
PALCO TMN
Cypress Hill
The Cinematics
Just Jack
Outlandish
Armandinho
Buraka Som Sistema (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Mary Ann Hobbs
Bonde do Rolé
Data Rock
Balla
Os Lambas
Nastio
POSITIVE VIBES
General Levy + Robbo Ranx
Steel Pulse
Soldiers of Jah Army
Manif3stos
4 de Agosto
PALCO TMN
Groove Armada
The Streets
Sam The Kid
Sérgio Godinho
Air Traffic
Australian Pink Floyd (After-Hours)
TENDA PLANETA SUDOESTE
Koop
Patrick Wolf
Sondre Lerche
Sonic Junior
Vanessa da Mata
Tiago Bettencourt
Eta Carinae
POSITIVE VIBES
Sounds Portuguese
Saian Supa Crew
Martin Jondo
Stepacide
5 DE AGOSTO
PALCO TMN
James
Mika
Phoenix
Razorlight
Babylon Circus
TENDA PLANETA SUDOESTE
The National
Of Montreal
Trail Of Dead
Tara Perdida
2008
Rui Vargas
Stereo Addiction
POSITIVE VIBES
Pow Pow Movement
Tiken Jah Fakoly
Yellowman
Alioune K
Festival de Paredes de Coura (os nomes até hoje confirmados)
Dia 12
Devotchka
Dia 13
Mando Diao
Sparta
Blasted Mechanism
Dia 14
Dinosaur Jr.
New York Dolls
Mão Morta
Architecture In Helsinki
Gogol Bordello
Spoon
Dia 15
Sonic Youth
Cansei de Ser Sexy
Sunshine Underground
Electrelane
Nas fotos, de cima para baixo: TV on the Radio, Camera Obscura e Electrelane.
É bom saber que um novo festival de música como o Oeiras Alive!, com os mínimos de interesse adquiridos, se vai estabelecer na agenda cultural de Verão. A confirmação de segunda edição é um sintoma de saúde.
No único dia em que lá estive, constatei vários aspectos positivos. O movimento humano interessante matou à partida a iminência de um festival-fantasma (uma epidemia portuguesa que, infelizmente, tem afectado muitos baptismos festivaleiros). A escolha das bandas portuguesas foi feliz, e ajustada à natureza dos dias da programação. O recinto do Passeio Marítimo de Algés, que já conhecíamos de outros campeonatos (o Festival SBSR de 1997, as várias Queimas de Fitas lisboetas), está bem arrumado e tem uma localização interessante e de fácil acesso. Mas o maior trunfo do Oeiras Alive! foi o facto do festival ter trazido pela primeira vez a Portugal dois projectos de créditos musicais indubitáveis que pertencem já à constelação de estrelas: os Whites Stripes (na foto) e os Beastie Boys (este último, um borrego que estava difícil de matar).
Como críticas construtivas destaco os preços elevadíssimos dos bilhetes - €45 para um dia, e €90 (!) para um passe é muitíssimo -, os problemas sonoros nos dois palcos, e a excessiva concentração da atracção do festival em três ou quatro nomes mediáticos e a contrastante magreza do restante cartaz, sobretudo internacional.
Para a pequena mas muito sólida base de fãs do grupo em Portugal, sobretudo para aqueles que desde cedo (desde o magnífico debute, I Could Live in Hope, em 1994) se começaram a familiarizar com o seu som arrastado, a noite de ontem, no Santiago Alquimista (Lisboa), foi como uma matança de um resistente borrego - segundo modos lentos e pacíficos como convém.
O repertório já é longo, e por culpa desse mérito, os Low dão a sensação que é fácil darem um concerto melhor - por muito bom que ele seja - e que é fácil convencerem o seu público - tantas as boas canções por onde escolher. As margens de eficiência são enormes e talvez por isso, a actuação tenha parecido desafogada, tendo bastado uma guitarra eléctrica, um baixo e uma cinéfila bateria, além das canções (sempre boas) e de um pouco de profissionalismo.
A banda sonora de Twin Peaks (que Angelo Badalamenti compôs para a série televisiva de David Lynch) começou por ser uma influência, mas oito álbuns e uns quantos EPs marcantes tornaram-nos os proprietários legítimos daquele som. Os Low são hoje a banda sonora de Twin Peaks. Ela continuou sem guião e sem ser necessário desvendar quem matou Laura Palmer. O sinal de vida da bizarra «telenovela» prolongou-se com várias e diversas flutuações - ora ainda mais lúgubres, ora mais positivas, ora mais noise & roll - na própria música dos Low. E por terem sabido manter esse espírito, sabendo actualizá-lo e renová-lo, o trio tem hoje garantido um fértil circuito ao vivo de pequenos clubes e de cafés, e um público rendido antes de ser necessário tocar o primeiro acorde - como sucedeu ontem.
A lynchiana cortina avermelhada da sala foi uma coincidência cenográfica proporcional para um concerto condenado à partida ao sucesso, em que era fácil as coisas correrem bem. Mesmo sem os préstimos do baixista de longa data Zak Sally, com Matt Livingston no seu lugar, os catorze anos de disciplina produtiva exemplar que o grupo já leva, aliados ao talento (mesmo que sem pontos altos de génio), tem que produzir resultados que só podem ser bons: as brilhantes harmonias vocais entre o guitarrista e líder Alan Sparhawk e a baterista de pé Mimi Parker, a maleabilidade instrumental que os permite improvisar e corrigir os alinhamentos a meio do concerto, e um sentimento confortável com o seu estatuto de banda fúnebre. Tudo isto conduzi-os a novos louvores e a um segundo encore não previsto.