UMA EXCITAÇÃO RECENTE: R.E.M., «ACCELERATE»
Os R.E.M. colocaram rock & roll no despertador e acordaram. No álbum anterior, Around the Sun (2004), o trio norte-americano não foi rigoroso em relação à origem do nome: falamos do rápido movimento de olhos que corresponde à fase cerebral mais activa do sono, onde ocorrem os sonhos mais fortes. A banda foi apanhada em Around the Sun num momento de hibernação mais vegetal, em que produziu um álbum ausente, mais aborrecido que calmo e, lástima para qualquer fã dos REM, sem uma única grande canção. O disco nunca desperta.
Accelerate é diferente, tem a entrega física de um álbum do tudo ou nada. A guitarra eléctrica de Peter Buck volta a estar bem amplificada, a bateria recupera a teimosia de outros tempos e o vocalista Michael Stipe passa a ter mais dificuldades em segurar o microfone no mesmo sítio. Accelerate é um disco de alta pressão, gravado em tempo ‘record’, dentro dos parâmetros de uma banda punk (menos de um mês, sem contar com as misturas que também não duraram muito). Os REM sentiram-se sacudidos pela indiferença de Around the Sun, e que bem o desabafaram.

Mas a transpiração de Accelerate tem uma companhia essencial para os elogios: a inspiração. Ainda para mais num disco eléctrico, ao qual os REM sabem acrescentar sempre aquela meiguice pop com direito a marca de autor. Ter sobre aquela execução musical rude a poderosa voz de Michael Stipe, é como iluminar o dinamismo rockeiro com uma sensibilidade pop transcendente. Os corinhos do baixista Mike Mills a adocicar os refrões são o golpe de asa que falta para assegurarem o voo do rock para a pop ao modo rápido de servir de Accelerate.
Será este álbum o verdadeiro sucessor do seu concorrente eléctrico Monster (1994)? Não. Monster é antes uma reflexão pós-grunge e uma reposta espiritual à morte imprevisível do amigo de Stipe, Kurt Cobain (o mítico líder dos Nirvana) - há uma façanha paralela de Neil Young nesse ano, Sleeps with Angels, que consegue ser ainda melhor.
Accelerate é o regresso mais genuíno dos REM ao seu percurso dos anos 80, como nunca aconteceu desde Out of Time (1991). O frenesim eléctrico da maioria das faixas de Accelerate (como ‘Horse to Water’, ‘I’m Gonna DJ’ ou o tema-título do álbum) é reconhecível naquela vontade de conquistar o mundo audível em Green (1988). E mesmo as canções pop mais contemplativas (’Hollow Man’ ou ‘Houston’) são viagens directas ao tempo dos serões de tarde melancólicos que produziram pérolas como Lifes Rich Pageant (1986) ou Document (1987).
Será Accelerate um álbum com um estado de espírito nostálgico? Não se sabe. O rock está a ficar sem data e subiu há muito um degrau para a escala de intemporal, graças a bandas da estatura dos R.E.M., que ao fim de mais de 25 anos ainda conseguem produzir álbuns da envergadura deste. (Warner Bros, 2008)
Texto publicado no Cotonete no dia 4 de Abril.


Toumani Diabaté, The Mandé Variations

Equilíbrio bicéfalo raro entre duas das almas mais torturadas do rock alternativo americano: Mark Lanegan (ex-Screaming Trees) e Greg Dulli (ex-Afghan Whigs) fazem um retrato fascinante do negrume, com conhecimento de causa. (Sub Pop, 2008)




Bruce Springsteen & The E Street Band, Hammersmith Odeon, London 75
omnipresença vendo o filme-concerto Lou Reed’s Berlin, de Julian Schnabel (que convivia no círculo de Andy Warhol), que tem tudo a ver com o que se vai passar na digressão que o traz: a interpretação ao vivo da sua obra mais ambiciosa, Berlin, acompanhado por uma orquestra. O filme, demasiado estático, não compensou de todo.
Seria um exagero dizer que me senti deslumbrado com o novo disco dos Dead Combo; mas convencido fiquei. (Universal, 2008)