
Poucas horas antes do concerto dos
Gorillaz na zona da Torre de Belém, no decurso do festival Isle of MTV, encontrei-me com Damon Albarn para uma entrevista que me deu imenso prazer. Do outro lado da mesa, sentado num largo sofá, estava um homem inteligente, bem mais maduro, que tinha vivido fases bem distintas nos
Blur, que experimentou o hip hop nos Gorillaz (e em projectos associados a Dan Nakamura como o fantástico álbum homónimo dos Deltron 3030), que fundou a sua própria editora, a Honest John's, que viajou ao continente africano para gravar um disco com músicos do Mali e que compôs uma banda sonora cinematográfica em co-autoria com Michael Nyman. Quando o entrevistei,
em Julho de 2002, Damon Albarn estava a debater-se com as complicações do processo de gravação do novo álbum dos Blur que provocaria uma saída de peso: o guitarra Graham Coxon. O álbum, que chamar-se-ia
Think Tank, tinha então o título provisório de
Don't Bomb When You're the Bomb. Curiosamente, Damon Albarn descrevia o disco como uma aproximação dos Blur ao som dos Clash - hoje, cinco anos depois, Damon Albarn toca com o baixista Paul Simonon (ex-Clash) no colectivo The Good, The Bad & The Queen.
Falou-se do 11 de Setembro, do Mali, de fado, e até da ciumeira dos músicos dos Blur face ao empenho de Albarn nos Gorillaz - «compreendo-os, quando o seu vocalista se envolve num projecto que vende mais de cinco milhões de cópias... Não é essa a escala de vendas dos Blur».
O que me impressionou mais foi a sua declaração anti-estrela contra uma possível carreira a solo.
«Não estou interessado em carreiras a solo. Prefiro sempre trabalhar com outras pessoas, para mim esse é um ponto fulcral para se ser músico. Nunca quererei ter nas lojas um álbum de Damon Albarn. Os álbuns serão sempre meus, porque as canções são escritas por mim, o que tenho feito desde sempre. Mas a carreira a solo não é uma questão para mim. Sinto-me bem mais à-vontade não sendo o centro das atenções; terei sempre isso de qualquer das formas, faz parte do meu emprego. Não acordo propriamente de manhã a rezar para ter as atenções em meu torno. Quanto muito, rezo de manhã para ir para estúdio descobrir novas formas de música. É a música que me atrai e não tanto a celebridade. Penso que os álbuns a solo são mais derivativos da pretensão da celebridade e não da boa música».