AMARRADA AO CAIS: BJÖRK, «VOLTA»
O novo álbum de Björk encaixa literalmente no nome desta circunstancial rubrica. O disco teve como um dos locais de gravação o barco de Björk e de Matthew Barney. Porém, apesar das audíveis buzinas de partida da embarcação, a música de Björk não consegue navegar para lá do mesmo sítio.
A tripulação é mais do que respeitável (Toumani Diabaté, Antony, Mark Bell, Timbaland, Chris Corsano, e muitos outros), e o arsenal tecnológico e instrumental permite viagens longínquas (muita maquinaria computadorizada, muitos metais orquestrados, uma panóplia vasta percutida, e até instrumentos menos convencionais como o pípá e a kora), mas a voz de Björk está transformada numa amarra. A sua potencialidade natural, que dantes comandava e desbravava itinerários fantásticos, passou de solução a problema.
Björk sempre soube alimentar-se muito bem das pessoas com que se foi cruzando, incluindo companheiros de amores (Thor Eldon, Tricky, Goldie e o artista plástico Matthew Barney), mas continuando sempre a prosseguir o seu próprio, e único, caminho. Com os artistas pop Sugarcubes, coloriu uns anos 80 atraídos por tons mais mórbidos; a solo, deu alma à electrónica e converteu-a à pop; e soube fazer muito bem a metamorfose da extroversão (Debut) para a introversão (Post e sucessores). Hoje, Björk parece estar a lutar contra si própria. (One Little Indian, 2007)
Ainda assim, o primeiro sinal do disco, «Earth Intruders», é animador - teclados synth-pop à Gary Numan bem fundidos com a percussão galopante de Chris Corsano. Eis uma interpretação ao vivo no Festival de Coachella deste ano, que corresponde ao arranque daquele concerto.
