AMESTERDÃO, MAIO DE 2008
Comércio tradicional
É frequente encontrar lojas tradicionais de discos em Amesterdão e, sobretudo, na pequena cidade de Ultreque (ou Utrecht). E é praticamente impossível deparar-me com uma megastore (eu, pelo menos, não vi nenhuma).
Quase todas as casas me pareceram boas e criteriosas, havendo de tudo: lojas de jazz (umas quantas), de electrónica, de world music e de música indie, quase todas com uma vocação específica.
O cheiro a moribundo do CD é mais nauseabundo na Holanda (o que pessoalmente lamento), sendo já claramente predominante o formato físico do belo vinil por aquelas bandas (aqui, nada contra).
Como sempre, a música portuguesa está bem representada nas prateleiras da world music. Só que com uma diferença: a primazia é de Cristina Branco e não de Mariza, de Amália Rodrigues ou dos Madredeus.Onde está a cena de criação holandesa?
A Holanda é uma espécie de conto de fábulas, afirmando-se hoje como uma concretização mais actualizada do sonho hippie dos anos 60.
Este país, bem habituado ao uso de energias alternativas, intriga por ter uma população tão cultivada e poliglota mas incapaz de suscitar grandes ninhos de criação no mundo das artes menos geométricas, incluindo na música.
Mas pensemos na mutação das cidades que dá origem a grandes movimentos de criação locais, como o caso crónico de Berlim, do bairro nova-iorquino do Bronx nos anos 60-70 que ergueria o hip hop, ou na Amesterdão em expansão acelerada do século XVII (aquele que nos deu o mestre da luz da pintura, Rembrandt, e outros digníssimos representantes), e talvez encontremos parte da resposta. Olhemos para a Amesterdão de hoje que, por muito fantástica que seja (e é), está estagnada na arquitectura dos tempos dourados da expansão holandesa.Bon Iver
Tive que esbanjar algumas opções ao vivo como os Black Keys ou os Castanets, em favor do homem indie-folk do momento: Bon Iver. Em Amesterdão, numa sala secundária do belo Paradiso (uma antiga igreja que serve hoje como a grande sala histórica da cidade), o hype não atormentou o músico. Idílios à Will Oldham, refrões intempestivos, alguns ataques rock & roll e um talento impossível de esconder.

