20º Besnard Lakes, The Besnard Lakes Are Dark Horse
21º Laura Veirs, Saltbreakers
22º The Aliens, Astronomy for Dogs
23º Keren Ann, Keren Ann
24º Robert Wyatt, Comicopera
25º Nina Nastasia & Jim White, You Follow Me
26º Arcade Fire, Neon Bible
27º Neil Young, Chrome Dreams II
28º Blonde Redhead, 23
29º Jamie T, Panic Prevention
30º Lavender Diamond, Imagine Our Love
Imagens fixas de cima para baixo: Bill Callahan, Au Revoir Simone e Burial.
Imagens YouTube de cima para baixo: «Icky Thump» (White Stripes, Later with Jools Holland), «Body Baby» (Pharoahe Monch) e «Lay Your Head Down» (Keren Ann).
A música canadiana tradicional tem três grandes fontes: a cultura índia inuit, a folk francófona e a folk britânica (em especial, irlandesa e escocesa).
Dos indígenas nativos têm vindo hábitos de throat singing (cantos polifónicos que puxam da garganta) e de uma música fortemente percussiva.
Quanto à influência francófona (restrita ao Quebeque), houve mestres na linha da melhor chanson française como Gilles Vigneault, Felix Leclerc e RobertCharlebois, mas no que concerne à raiz mais profunda da música gaulesa, os fogosos La Bottine Souriante têm sido a grande instituição há mais de 30 anos. Do espectro anglo-saxónico, Buffy Sainte-Marie deu alma ao período áureo da redescoberta da folk americana, na primeira metade dos anos 60, como o comprovou em acontecimentos como o Newport Folk Festival. E as harmoniosas Kate & Anna McGarrigle são há muito a grande força viva canadiana no que toca à secção de world music, e representam bem o misto linguístico da sua Montreal, que tem sido a chave da duradoira saúde criativa do duo.
No mundo extenso da pop, o papel do Canadá é subtil mas influente. Sem contar com o fenómeno de sucesso adolescente do jovem Paul Anka, que gozou vários 15 minutos de fama quando aproveitou o buraco de transição entre a elvismania e a beatlemania, o país do norte deu ao mundo gigantes da música com uma dimensão musical muito para lá das crises de borbulhas. Um dos melhores exemplos canadianos é Leonard Cohen, sem dúvida o músico mais lendário de Montreal e o grande singer-songwriter galã da história da música que, como escritor experiente, fez das suas melodias os mais belos poemas alguma vez musicados. Outra lenda tem sido Neil Young, que sempre se portou como uma autêntica formiga trabalhadora, com uma criatividade que não coube em super-bandas por onde passou como os Buffalo Springfield ou o dream-team Crosby, Stills, Nash & Young, produzindo antes uma carreira a solo de uma integridade invejável e actual. O seu habitat estende-se da garagem rock & roll (onde se reúne com os amigos Crazy Horse) ao terreno mais árido do country e do singer-songwriting, nunca renegando aventuras como o jazz, o gospel ou, como acidente de cálculo, a electrónica. Como é hábito nos seus colegas compatriotas, Neil Young passa por estado-unidense, país onde há muito reside. Mas bastou levantar a voz contra Bush no seu álbum mais político, “Living with War”, para a Casa Branca se defender e lembrar a todos que o músico não passa de um estrangeiro, de um canadiano.
Outro percurso que fez algumas tesouradas à linha da história pertence a Joni Mitchell, pela coragem e pelo estímulo que exerceu para outras mulheres seguirem a música de autor. E Mitchell nunca estagnou, parecendo que aquela jovem hippie que brilhou nos grandes festivais de música dos anos 60 e a senhora madura de hoje que exibe uma música perfumada de avant-garde pop e de jazz não são a mesma e única pessoa. Mary Margaret O’ Hara também é um nome a ser sublinhado dos últimos 20 anos nos domínios dapop artistiscamente mais ousada, assim como a andrógina KD Lang, que tem também derivado a sua paixão para o country. Mas o peso da folk canadiana é igualmente relembrado pela banda de culto Cowboy Junkies, onde enquadram o som dos Velvet Underground, com resultados memoráveis na versão de ‘Sweet Jane’. Ron Sexsmith tem sido o cavaleiro solitário das trovas folk-pop à guitarra, há uns bons 15 anos.
Em domínios mais pragmáticos, o Canadá também tem uma palavra a dizer. Seja no pop/rock orelhudo transvestido de alternativo (os Crash Test Dummies), no rock com acne (Alanis Morissette), napop (Celine Dion, Nelly Furtado), ou no rock sucedâneo de Bruce Springsteen (Bryan Adams, claro), os dólares canadianos também contam. No jazz, o Canadá não se tem distraído. É de lá que veio o maior arranjador de sempre do género, Gil Evans (quadro-superior da Columbia que gravou discos míticos de Miles Davis como Sketches of Spain). É também a norte dos Estados Unidos que vem a mais mediática cantora de jazz do mundo, Diana Krall.No hip hop mestiço e académico, através dos Bran Van 3000, ou na electrónica, através de Kid Koala, o Canadá também assinou o ponto. Fotografias de cima para baixo: Leonard Cohen, Buffy Sainte-Marie, Neil Young, Cowboys Junkies e Gil Evans. Imagens YouTube de cima para baixo: «Entre Deux Joints» de Robert Charlebois (1974), «The Stranger Song» de Leonard Cohen (1967), «Big Yellow Taxi» de Joni Mitchell (1970), «Drinkin’ in LA» dos Bran Van 3000 (1997). Texto publicado no Cotonete.
Os Dears representam a piscadela de olho de Montreal à facção de fãs dos Smiths. Mas a apetência vocal do grupo para o cabaret-pop familiar a Serge Gainsbourg e a tendência orquestral do seu indie-rock (de que os admiradores dos Divine Comedy podem gostar) são mais do que dois bónus.
A banda existe desde 1995, mas só a partir da presente década começou a marcar presença nas prateleiras das lojas de discos.
As reacções exclamativas ao seu segundo álbum de originais, No Cities Left, descentralizaram a sua música muito para lá de um efeito local. E talvez por isso, os Dears estabilizaram uma formação de seis membros (entre os quais, duas teclistas) que até então tinha sido muito flutuante. O poderio das suas actuações ao vivo e o carisma do seu vocalista e guitarrista Murray Lightburn também têm ajudado à crescente popularidade dos Dears.
No ano passado, seguiu-se um novo contributo para a ascensão do grupo: o terceiro álbum Gang of Loosers, mais demarcado do rebuscamento de cordas e mais frontal e eléctrico do que o seu antecessor, voltou a ganhar novos admiradores.
A reputação da banda já chegou aos talk-shows mais populares dos Estados Unidos (como no programa de David Letterman) onde têm marcado presença. Post-scriptum: tal como acontece com os Arcade Fire e os Besnard Lakes, também é possível encontrar nos Dears um casal registado legalmente: o líder Murray Lightburn e a teclista Natalia Yanchak são marido e mulher. Imagem YouTube: «Ticket to Immortality» (vídeo oficial). Texto publicado no Cotonete.
Não são apenas os embaixadores principais do som de Montreal, muitos defendem-nos como sendo a banda rock da década.
O casal Win Butler/Régine Chassagne forma o núcleo central de um grupo de seis elementos efectivos, formado em 2003. Win Butler, o principal compositor, e o seu irmão William cresceram em Dallas (estado do Texas), enquanto que Régine Chassagne viveu os primeiros anos da sua vida na ex-colónia francesa do Haiti, nas Caraíbas. Num daqueles dias especiais, Win entusiasma-se com uma performance vocal de jazz por parte de Chassagne: os Arcade Fire nasceriam pouco tempo depois em Montreal.
A progressão foi veloz: o EP homónimo de estreia (de 2003) cumpre muito mais do que o aquecimento de alguém que quer aparecer, com sete canções abrilhantadas por um nível acima da média (entre as quais a célebre «No Cars Go»).
Embalados como fenómeno ao vivo de culto nalgumas cidades canadianas e estado-unidenses, gravam o álbum que precipitaria a sua conquista do mundo: Funeral (de 2004), cujo título se deve à perca de vários familiares próximos dos músicos durante a gravação. O disco é uma sucessão de golpes de risco que marcou a imagem do grupo pela sua capacidade de vingar as letras mórbidas com uma música ferozmente positiva, ambiciosa e ousadamente épica.
A fragmentação das músicas assinalada com vários pontos de viragem em cada uma das faixas, a rotatividade dos muitos instrumentos por cada um dos músicos, o uso pontual da língua francesa típico das bandas anglófonas de Montreal, a democratização da ribalta dos concertos muito para além de Win Butler, e as doses elevadas de energia e teatralidade devotamente empregues em palco contribuíram para que a imprensa e o público se rendessem ao grupo. E de uma forma nunca vista pela sua quase unanimidade, nem mesmo sentida por bandas como os White Stripes e os Strokes, Funeral coleccionou aclamações de álbum do ano em tudo o que fosse publicações de música.
Participaram depois com uma canção original, «Cold Wind», para a banda sonora da série televisiva de culto Sete Palmos de Terra, e compraram uma capela em Montreal onde gravaram o sucessor de Funeral, a que chamaram de Neon Bible. O som desse disco aparece menos filtrado às influências (Bruce Springsteen soa mais descarado nalgumas canções) e a estrutura das músicas é mais linear e menos sinuosa. Mas o grupo consolida a sua popularidade, conseguindo vencer o fantasma do segundo álbum sem caír na armadilha de tentar fazer um álbum semelhante a Funeral.
Post-scriptum: Os U2 abriram os concertos da sua digressão mundial de 2005 com «Wake Up» dos Arcade Fire - como se pôde confirmar no concerto da banda de Bono no Estádio de Alvalade XXI, em Lisboa.
Imagens YouTube de cima para baixo: «No Cars Go» (ao vivo, França, 2005), «Haiti» (ao vivo, Holanda, 2005), «Guns of Brixton» (versão de uma música dos Clash gravada para a BBC), «Neon Bible» (elevador, França, 2007). Texto publicado no Cotonete.
EXCITAÇÃO DA SEMANA: BOB DYLAN, «THE OTHER SIDE OF THE MIRROR»
The Other Side of the Mirror - Live at the Newport Folk Festival 1963-65, filmado por Murray Lerner, é um compêndio das três passagens de Bob Dylan por aquele evento, que estava condenado a sair em DVD mais tarde ou mais cedo. Saiu agora, e por isso está condenado também a ser um dos grandes DVDs do ano.
Como se sabe, o Festival Folk de Newport era o grande acontecimento anual que celebrava o revivalismo das raízes da música norte-americana que se vivia então. Lendas como Pete Seeger, Johnny Cash ou Odetta eram vistos por lá, mas o período folk deste festival (que substitui a fase jazz dos anos 50) ganha uma segunda vida quando Bob Dylan, a Voz da Nova Geração, passa a figurar no cartaz daquele célebre acontecimento.
1963, o ano da primeira participação de Dylan no Festival de Newport, foi um momento de revelação - para o músico e para os que o ouviam. A velha guarda e a nova geração encontravam-se e ouviam-se, mas Dylan passa a desequilibrar a balança a seu favor. O programa era clássico: um workshop vespertino espalhado em vários pontos do recinto e uma actuação nocturna no grande palco. As coisas correram tão bem a Dylan que a sua participação naquela edição do festival termina com «Blowin’ In the Wind» cantado em uníssono pelos outros músicos do cartaz (onde constavam a incontornável Joan Baez, o grupo Peter, Paul & Mary e o patrono Pete Seeger).
1964 é o ano da edição da paz podre entre Dylan e os peregrinos de Newport. Todos o aclamavam e elogiavam, todos os músicos tocavam uma canção sua ou lhe pediam que subisse ao palco. E Dylan a todos acudia - e a todos sorria. Lá tocou as suas célebres canções folk (como Mr. Tambourine Man ou Chimes of Freedom) para gáudio dos fãs e colegas - logo, não desapontou. Mas o espírito que ocupava aquele corpo já não era mais o de um jovem prodígio encantado pela inocência de tudo aquilo, mas o de uma estrela.
1965 é o ano da traição/progressão/adeus. O filho pródigo do festival tornou-se no seu carrasco. A veneração de massas que o invadiu no workshop acústico da tarde teve qualquer coisa de asfixiante - o momento em que Dylan, após a breve actuação, é apreciado de dentro da carrinha como um boneco de cera pelos rostos de jovens sedentos que esmagavam os vidros da viatura, é muito mais do que um pormenor voyeurista.
E assim o festival fez dele um rei, e assim Dylan retribuiu com um xeque-mate, através daquele set eléctrico da noite do dia seguinte. Maggie’s Farm e Like a Rolling Stone foram tocados em volume alto, com uma banda onde brilhava o exímio guitarrista de blues Mike Bloomfield. E em dez minutos, o muro entre géneros musicais caiu como um castelo de cartas. Afinal, a folk e o rock & roll eram parte do mesmo todo: da música, e da música de Dylan. Os que se desiludiram e o apuparam eram fãs de um só género, os que o aplaudiram provavam ser fãs de Dylan de corpo inteiro.
O regresso de Dylan para um encore acústico era fraco consolo e não esquecia os danos do arrasamento eléctrico dos minutos anteriores. Já não havia nada a fazer, a história tinha sido mudada. Texto publicado no Cotonete.
O seu segundo álbum The Besnard Lakes Are the Dark Horse está a fazer dos Besnard Lakes uma das grandes revelações de 2007.
À semelhança dos Arcade Fire, os cabecilhas do grupo são um casal: o guitarrista e vocalista Jace Lasek e a baixista Olga Goreas. Os dois já viram vários colegas de bandas entrarem e saírem, e tiveram que ter um pouco mais de paciência que os Arcade Fire para sobressaírem, já que existem desde 2001 e só agora vêem o seu nome a exigir gasto condigno de tinta em tudo o que seja publicações de música.
À semelhança dos Arcade Fire, a sua pop está aprumada por vestimentas de seda, mas tem muitas outras complexidades: um certo ambientalismo espacial, algum psicadelismo enigmático, procuras inconstantes pela utopia dream-pop e descargas rockeiras mais prosaicas que fazem lembrar os bons tempos dos Smashing Pumpkins. É uma banda arisca a rótulos que está a causar o bichinho de atracção aos ouvidos que são atravessados pelo seu som. E estão a ajudar a aquecer ainda mais a cena de Montreal.
Post-scriptum: os Besnard Lakes são comparados repetidamente aos Beach Boys.