NO LOCAL CERTO, NO MOMENTO CERTO #11: PATTI SMITH, PAV. CARLOS LOPES, LISBOA (2001)
2ª edição do Número Festival. O cartaz de música electrónica estava interessantíssimo (Fisherspooner, Miss Kittin, Bentley Rhytm Ace). E gente com história na música urbana portuguesa, como Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) e Flak (Rádio Macau), mostrava à massa de curiosos um paralelismo mais maquinal, através de novos projectos que soavam excitantes como os Mécanosphère (no caso de Adolfo) e os Micro Audio Waves (no caso de Flak).
Mas no meio do turbilhão criativo digital, um grande parêntesis: Patti Smith. O seu arsenal era outro, de demarcação psicológica. Livros de Pessoa (lidos em interlúdios de spoken word), outras palavras (algumas delas suas), o namorado ao lado com a guitarra acústica, as canções, os clássicos, e ao alto o punho cerrado. Dela. Foi um furacão humano que passou e arrasou.
Patti Smith regressa a Portugal, para um concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 28 de Outubro.
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Pessoa e muito Blake, William Blake.
“Se um dia aqui regressar, e hei-de regressar, prometo que não haverá nem barreiras nem seguranças entre mim e vocês”. Estas palavras de Patti Smith ditas quando o memorável concerto caminhava para o final, ainda hoje me bailam na memória. O prometido regresso já tem data anunciada. Encontramo-nos a 28 de Outubro no Coliseu. Quanto às barreiras, aguardemos.
Permite-me que, a propósito deste post, deixe aqui o meu “No local certo, no momento certo”.
11 de Setembro de 2006, Queen Elizabeth Hall, Londres. O cenário recreava uma íntima e confortável sala de estar; ao fundo, projectavam-se imagens a preto e branco filmadas(Jem Cohen) por uma câmera imóvel, que nos remetia para Andy Wharol, dirigida a uma longínqua e fantasmagórica New York que parecia mergulhar num anoitecer permanente, e nos mostrava o longo rescaldo da tragédia; o mar separava a câmera da cidade , e a fraca ondulação refulgia em tons prateados que contrastavam com o fumo negro que, no horizonte, subia da cratera para o céu. Patti entra com uma folha de jornal na mão e inicia a leitura da quantificação das vítimas. Começa pelas do 11/9, continua com as baixas militares no Iraque e Afeganistão e prossegue com as civis, subdividindo-as em adultos e crianças. Os números são impressionantes. Amarrota a folha numa bola de papel, lança-a para longe e termina: “Dor de uma mãe que perde um filho na guerra (pausa prolongada)…inquantificável” e arranca para outro memorável concerto. Desta vez, as canções, mas não os clássicos. Nem um. “Gone Again” é o album priveligiado: “The Wing”, “My Madrigal”(estreia ao vivo) e “Beneath The Southern Cross”; estreia absoluta de “Whithout Chains” sobre os prisioneiros de Guantánamo e de “Qana” sobre o massacre israelita nesta cidade libanesa (ambas compostas cerca de 2 semanas antes), “Peaceable Kingdom” de Trampin´ e “Wild Leaves” de Dream of Life(Jason Pierce, dos Spiritualized, na guitarra durante esta 1ª parte). 15 minutos de intervalo e reentrada com “The Coral Sea” na mão, a elegia em prosa rimada que escreveu em memória de Robert Mapplethorpe. Sentado no grande sofá, rodeado de 7 guitarras, Kevin Shields. Fico-me por aqui. A leitura integral da obra e o acompanhamento improvisado de KS foram pura magia. Indescritível! O concerto foi gravado e Patti garantiu a sua edição em CD. Aguardemos de novo.
um abraço e um pedido de desculpas por esta longa prosa.
jP
Ora essa.