ÁLBUM DE RECORDAÇÕES: PASSENGERS, «ORIGINAL SOUNDTRACKS 1» (1995)
O resultado do levantamento dos melhores discos dos U2, e do pior, que a Mojo recentemente desafiou aos leitores, é a prova que as venerações a publicações de referência, como sem dúvida é a citada, devem ser sempre condicionais.
Nunca será de esperar muitos do resultado da votação de fãs dos U2 que não seja a classificação do mais mediático Joshua Tree (1987) à frente de uma obra infinitamente mais interessante como Achtung Baby! (1991), ou que os mais recentes e banalíssimos How to Dismantle an Atomic Bomb (2004) e All That You Can’t Leave Behind (2000) ultrapassem com grande margem manifestos artísticos bem mais pertinentes como Zooropa (1993) ou War (este, de 1983, nem sequer figura na lista). As opiniões valem o que valem, e aquela colectiva não é seguramente a minha.
Faltava a adenda venenosa da secção How to Buy: o prezado jornalista Danny Eccleston alerta como disco a evitar Original Soundtracks 1, que os U2 fizeram com Brian Eno sob o nome Passengers. A intervenção discutível do escriba tem como remate facilitista a consideração de que o disco «faz Zooropa soar a Pussycat Dolls».
Isto tudo leva-me a sugerir exactamente o contrário: é de evitar que não se oiça o disco único dos Passengers - a não ser que se prefira Joshua Tree a Achtung Baby!.
Original Soundtracks 1 é o capítulo final da melhor fase artística do grupo, iniciada com Achtung Baby, continuada com Zooropa e ainda com trajectos autónomos muito curiosos como a parceria entre Bono e Gavin Friday na composição de dois temas fundamentais da banda sonora do recomendável filme Em Nome do Pai (In the Name of te Father), do realizador político irlandês Jim Sheridan.
O disco aqui homenageado é um composto cinéfilo de várias músicas para filmes imaginários, intrigante, complexo, intimista e surpreendente.
A caminhada artística galopante do grupo irlandês da primeira metade da década de 90 confirmava a idade dos trinta como a melhor para um artista pop, o ponto de encontro perfeito entre a frescura que resiste dos vinte e os sinais mais evidentes de maturidade que o tempo deve desenvolver. E em Original Soundtracks 1 a banda chegava à mais imprevisível das etapas, tão imprevisível que o grupo mudou excepcionalmente de designação. A culpa era Brian Eno, o produtor e, mais do nunca, esteta. A ele se devem as criativas explorações electrónicas do disco, o espírito enigmático de algumas músicas e o seu grau de abstracção, com uma maleabilidade de formas impossível de ser arrumada nas convenções. Brian Eno preparou a aventura e os U2 foram seus passageiros.
Com o incentivo de Eno, Original Soundtracks 1 é o maior grito de liberdade de um grupo comprometido com audiências de estádio como os U2. E que resiste hoje como a sua despedida dos grandes discos. (Island)