LETRAS QUE MERECEM SER LIDAS: «SUZANNE», LEONARD COHEN (1968)
A letra da mais famosa canção de sempre de Leonard Cohen, «Suzanne», foi primeiro publicada como um poema, denominado «Suzanne Takes You Down», no seu livro Parasites of Heaven (de 1966). A canção de Cohen é primeiro revelada pela cantora folk Judy Collins, no álbum In My Life (1966). Dois anos depois, «Suzanne» é cantada pelo seu autor, no seu longo discográfico de estreia, The Songs of Leonard Cohen.
O escrito é inspirado pelos vários encontros íntimos entre o poeta canadiano e a dançarina e coreógrafa Suzanne Verdal - mulher do amigo e escultor Armand Vaillancourt - ocorridos na roulotte da última e num apartamento de hotel, em Montreal, nos anos 60. Assente na relação não-carnal repleta de desejo, a letra da canção é desenvolvida pelo hábito de Cohen em ilustrar as suas próprias experiências com referências bíblicas.
Letra, composição e interpretação: Leonard Cohen
Suzanne takes you down to her place newer the river
You can hear the boats go by
You can spend the night beside her
And you know that shes half crazy
But that’s why you want to be there
And she feeds you tea and oranges
That come all the way from china
And just when you mean to tell her
That you have no love to give her
Then she gets you on her wavelength
And she lets the river answer
That you’ve always been her lover
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For you’ve touched her perfect body with your mind.
And jesus was a sailor
When he walked upon the water
And he spent a long time watching
From his lonely wooden tower
And when he knew for certain
Only drowning men could see him
He said all men will be sailors then
Until the sea shall free them
But he himself was broken
Long before the sky would open
Forsaken, almost human
He sank beneath your wisdom like a stone
And you want to travel with him
And you want to travel blind
And you think maybe you’ll trust him
For he’s touched your perfect body with his mind.
Now Suzanne takes you hand
And she leads you to the river
She is wearing rags and feathers
From salvation army counters
And the sun pours down like honey
On our lady of the harbour
And she shows you where to look
Among the garbage and the flowers
There are heroes in the seaweed
There are children in the morning
They are leaning out for love
And they will lean that way forever
While suzanne holds the mirror
And you want to travel with her
And you want to travel blind
And you know that she will trust you
For she’s touched your perfect body with her mind.
Depois do êxito da canção, os dois, Leonard e Suzanne, encontrar-se-iam mais duas vezes.
Nos anos 70, Suzanne Verdal vai ver um concerto de Cohen na cidade onde vivia então, Minneapolis, e ganha coragem para ir depois aos bastidores onde vê Leonard Cohen rodeado de fãs e jornalistas. Suzanne aproxima-se dele: «Olá! Grande concerto!». «Deste-me uma grande canção, miúda». A confusão de gente à volta interrompeu o curto diálogo.
Bastantes anos mais tarde, Suzanne vê com os seus próprios olhos o cantor. Ele viu uma mulher mais velha, mas não a reconheceu.
Suzanne Verdal continua fiel à sua vida nómada de hippie e vive hoje numa carrinha - foi encontrada há um ano por jornalistas da CBS numa comunidade de Venice Beach (Califórnia) - bastante aquém do conforto financeiro do cantor. A musa manteve-se igual a si mesma, o poeta prosseguiu a sua caminhada.
Abaixo, uma curta interpretação da canção por Leonard Cohen, no histórico Festival da Ilha de Wight, de 1970.
Foi, sem qualquer saudosismo, mas com alguma emoção, que acabei de ler este post sobre Leonard Cohen. Por intermédio de um amigo, conheci o Poeta antes de conhecer o Cantor, li Parasites of Heaven antes de ter escutado Suzanne. E depois, recordo como durante anos se aguardava o novo album de Cohen como se aguardava o novo filme de Bergman, Fellini, Antonioni, Godard e outros ou, o novo livro de Sartre, Moravia, Ginsberg e outros. Foi sublime na forma como, tão simplisticamente, quase atingiu o Belo Absoluto. Vi-o 3 vezes, a primeira das quais entre a assistência deste clip do u tbe que acompanha o post e a última no Coliseu, já lá vão uns anitos. Os concertos são indefiníveis, quase inclassificáveis. Ia-se a um concerto de Cohen como quem vai à Tate, ao Pompidou ou ao Guggenheim. Escuta-se com a mesma emoção com que se observa um Van Gogh ou um Picasso. A qualidade não depende da energia, da electricidade, do improviso. A qualidade do concerto é, simplesmente, a qualidade da Obra.
E, por aqui me fico, fazendo votos para que este excelente blog se mantenha pelo tempo que continuares a sentir prazer em fazê-lo.
Obrigado pelos votos, João. Prazer não falta, de certeza.
Quanto à tua presença no Festival da Ilha de Wight, a momentânea ilha da Utopia, a minha inveja é enorme por muitos, muitos motivos…
Um abraço!