ressonâncias do meu quarto, reflexos da minha sala
Sexta-feira, 06 de Junho de 2008
AS MELHORES OBRAS EM DVD
Lista em contagem decrescente, inspirada num trabalho de selecção dos 50 melhores DVDs de música para votação que decorreu no Cotonete.
82º Bob Dylan - The Other Side of the Mirror
Reprodução de todas as actuações de Bob Dylan no Festival de Newport, entre 1963 e 1965.
81º Ella Fitzgerald - Live in '57 and '63 (Jazz Icons)
Apanhado de vários concertos da diva do jazz.
PS - Lista pessoal elaborada no dia 20 de Abril de 2008, que inclui DVDs não formatados para a Região Europeia e exclui obras de ficção (exemplos: ‘biopics' ou musicais).
É frequente encontrar lojas tradicionais de discos em Amesterdão e, sobretudo, na pequena cidade de Ultreque (ou Utrecht). E é praticamente impossível deparar-me com uma megastore (eu, pelo menos, não vi nenhuma).
Quase todas as casas me pareceram boas e criteriosas, havendo de tudo: lojas de jazz (umas quantas), de electrónica, de world music e de música indie, quase todas com uma vocação específica.
O cheiro a moribundo do CD é mais nauseabundo na Holanda (o que pessoalmente lamento), sendo já claramente predominante o formato físico do belo vinil por aquelas bandas (aqui, nada contra).
Como sempre, a música portuguesa está bem representada nas prateleiras da world music. Só que com uma diferença: a primazia é de Cristina Branco e não de Mariza, de Amália Rodrigues ou dos Madredeus.
Onde está a cena de criação holandesa? A Holanda é uma espécie de conto de fábulas, afirmando-se hoje como uma concretização mais actualizada do sonho hippie dos anos 60.
Este país, bem habituado ao uso de energias alternativas, intriga por ter uma população tão cultivada e poliglota mas incapaz de suscitar grandes ninhos de criação no mundo das artes menos geométricas, incluindo na música.
Mas pensemos na mutação das cidades que dá origem a grandes movimentos de criação locais, como o caso crónico de Berlim, do bairro nova-iorquino do Bronx nos anos 60-70 que ergueria o hip hop, ou na Amesterdão em expansão acelerada do século XVII (aquele que nos deu o mestre da luz da pintura, Rembrandt, e outros digníssimos representantes), e talvez encontremos parte da resposta. Olhemos para a Amesterdão de hoje que, por muito fantástica que seja (e é), está estagnada na arquitectura dos tempos dourados da expansão holandesa.
Bon Iver
Tive que esbanjar algumas opções ao vivo como os Black Keys ou os Castanets, em favor do homem indie-folk do momento: Bon Iver. Em Amesterdão, numa sala secundária do belo Paradiso (uma antiga igreja que serve hoje como a grande sala histórica da cidade), o hype não atormentou o músico. Idílios à Will Oldham, refrões intempestivos, alguns ataques rock & roll e um talento impossível de esconder.
Bela noite de domingo no Santiago Alquimista. Depois de uma primeira parte com o cantor folk escocês Alasdair Roberts, que vai fazendo o que pode para mostrar que vale mais que o de ser o crónico músico de aquecimento, Bill Callahan arremessou para o alinhamento parte substancial do seu primeiro álbum a solo, Woke on a Whaleheart (melhor álbum internacional de 2007 para A Pedreira), com a ajuda de uma banda de mais três músicos que com o ex-Smog contabilizavam o formato de quarteto clássico do rock (dois guitarristas, um baixista e um baterista).
Bill Callahan, provando-se distinto membro do crème de la crème da indie-folk, foi o mestre de ilusões.
O rosto inexpressivo do músico não era mais que um truque de charme do músico, parte de uma soma que resultava num cenário musical elegante - do mais fino recorte que se tem ouvido.
O conservadorismo americano das canções tocadas no Santiago Alquimista era apenas aparente porque sofria um abanão de católico progressista que não se ficava pelas memórias da América de Bonnie & Clyde. O perfume country, com a serenidade vocal de Callahan a invocar algum Townes Van Zandt, vai sofrendo as provocações da escola de rock irreverente dos Velvet Underground aqui e ali.
Tudo aquilo soa tão bonito ao vivo que Bill Callahan tenta segurar o plano daqueles acordes até à exaustão (noutro golpe de magia sonoro e visual). Como a exaustão não aparece e a beleza sonora se agarra ao momento (e ao seguinte), Bill Callahan & Co parecem os Wire com os seus métodos de repetição, mas num filme pós-punk muito pouco britânico com vista para a velhinha e mui americana estrada 66, a partir da modernidade. A partir para a modernidade. Uma modernidade clássica.
Grande trip electro-psicadélica desta dupla nova-iorquina que apresenta a mecânica maquinal dos Kraftwerk ao espírito eufórico mais freak e hippie. (Columbia, 2008) Pode ler artigo desenvolvido no site do Cotonete.
Lista em contagem decrescente, inspirada num trabalho de selecção dos 50 melhores DVDs de música para votação que decorreu no Cotonete.
84º James Brown - Live at Chastain Park
Registo filmado de uma actuação do cantor em 1985.
83º Duran Duran - Greatest - The DVD
Compilação de todos os vídeos do grupo até 2003.
PS - Lista pessoal elaborada no dia 20 de Abril de 2008, que inclui DVDs não formatados para a Região Europeia e exclui obras de ficção (exemplos: ‘biopics' ou musicais).
Lista em contagem decrescente, inspirada num trabalho de selecção dos 50 melhores DVDs de música para votação que decorreu no Cotonete.
86º Dead Kennedys - The Early Years Live
Compilação de várias filmagens de concertos da banda de Jello Biafra entre 1978 e 1981.
85º The Wire - Scottish Play: 2004
Captação de um concerto dos Wire numa sala de Glasgow, em 2004.
PS - Lista pessoal elaborada no dia 20 de Abril de 2008, que inclui DVDs não formatados para a Região Europeia e exclui obras de ficção (exemplos: ‘biopics' ou musicais).
OUTRA EXCITAÇÃO: SCARLETT JOHANSSON, «ANYWHERE I LAY MY HEAD»
"Pá, vai para cantora!": duvida-se que Scarlett Johansson alguma vez tenha ouvido este conselho durante a sua fase de crescimento. Figuras tão diversas de um divisão musical superior como Bob Dylan, Joe Strummer (líder dos Clash) ou Ian Brown (vocalista dos Stone Roses), escolhidas aleatoriamente só para exemplificação, também não devem ter recebido este conselho durante a sua adolescência.
Ninguém ousará colocar Scarlett Johansson no mesmo campeonato musical de Dylan, Strummer ou Brown, mas os quatro têm dois pontos em comum essenciais: além de não terem sido abençoados com uma grande voz, são personagens cool. A aura que as suas personalidades transportam para as músicas respectivas são demasiado fascinantes para não relegarem para uma questiúncula mesquinha a limitação natural das suas cordas vocais.
A pop, no seu sentido global, também sabe retirar a vantagem de ser a música mais democrática do mundo. Há espaço para todos serem louvados: os com grande voz e os sem ela; os com formação musical e os sem ela. E por isso é permitido a bandas como os Sex Pistols (limitados a 3 acordes) gozarem o mesmo espaço mediático que um Eric Clapton (rapaz instruído musicalmente). É essa a grandeza da pop. E nela cabem as aventuras musicais de uma celebridade como a actriz Scarlett Johansson.
Para o álbum que motiva este artigo, a grande sex-symbol da presente década escolheu a dedo o músico de quem pretendia fazer um álbum de versões. Nada mais, nada menos que Tom Waits, lenda viva americana que permite a imediata comunicação entre música e cinema, da música para o cinema. E agora, desde Anywhere I Lay My Head, Tom passou a ter um correspondente, do sexo oposto, que o homenageia, comunicando do cinema para a música.
Tendo como produtor e braço-direito David Sitek (dos TV on the Radio) e sendo apadrinhado em duas das dez versões pela voz acompanhante de David Bowie, Scarlett Johansson desilude os voyeuristas da desgraça que aguardavam mais um espalhanço de uma figura do cinema no campo da música.
Scarlett Johansson dá o corpo e a voz pela saudável metamorfose de canções que pareciam muito bem num habitat macabro e muito terreno, o de Tom Waits, e que agora passam para um cenário etéreo e não-táctil, de música pouco tocada e de canções pouco cantadas. A partir de cautelas que contornem as fraquezas de Scarlett Johansson, Anywhere I Lay My Head ganha o mérito estético de ser um álbum meticulosamente calculado e pensado.
Tudo isto dá um charme fugidio geral ao disco, em que cada tema soa a uma passagem circunstancial impossível de se agarrar, como se fosse um sonho. Por cima de um ruido de teclados e de guitarras, ecoa a voz evasiva de Scarlett Johansson (e uma breve participação vocal de Bowie de um universo sensorial ainda mais longínquo, na categoria de fantasma de que apenas se pressente e não se vê), num contexto musical que cita a pop idílica dos Cocteau Twins, a eletro-pop amosférica dos Orchestral Manoeuvres in the Dark e o romantismo sónico de bandas shoegazer como os My Bloody Valentine.
Quem não tiver uma noção de apreciação meramente técnica e se render às noções conceituais da música dos This Mortal Coil, às orgias visuais dos filmes de David Lynch ou até à película de Sofia Coppola, Lost in Translation, que cotou Scarlett Johansson para um nível irreversível de credibilidade, está habilitado a gostar deste álbum.
Anywhere I Lay My Head tem, aliás, muito de Lost in Translation. A estrutura narrativa evasiva da longa-metragem, a noção de amor impossível entre os dois personagens principais e a muralha de distorções dos Jesus & Mary Chain que assinala parte da banda sonora, encontram grande compatibilidade artística com este exercício musical de Scarlett Johansson.
A actriz soube dar um toque feminino a canções habituadas a tonalidades mais escuras, envolvendo-as em tons rosados. E venceu o exame de submissão pontual ao novo mundo da música. (Warner, 2008)
Canção ao lado, fado por um triz, álbum em cheio. Cheio. Cheio de muita coisa. De jovialidade, brincadeira, graça, portugalidade, teatralidade e outras coisas.
Os R.E.M. colocaram rock & roll no despertador e acordaram. No álbum anterior, Around the Sun (2004), o trio norte-americano não foi rigoroso em relação à origem do nome: falamos do rápido movimento de olhos que corresponde à fase cerebral mais activa do sono, onde ocorrem os sonhos mais fortes. A banda foi apanhada em Around the Sun num momento de hibernação mais vegetal, em que produziu um álbum ausente, mais aborrecido que calmo e, lástima para qualquer fã dos REM, sem uma única grande canção. O disco nunca desperta.
Accelerate é diferente, tem a entrega física de um álbum do tudo ou nada. A guitarra eléctrica de Peter Buck volta a estar bem amplificada, a bateria recupera a teimosia de outros tempos e o vocalista Michael Stipe passa a ter mais dificuldades em segurar o microfone no mesmo sítio. Accelerate é um disco de alta pressão, gravado em tempo 'record', dentro dos parâmetros de uma banda punk (menos de um mês, sem contar com as misturas que também não duraram muito). Os REM sentiram-se sacudidos pela indiferença de Around the Sun, e que bem o desabafaram.
Mas a transpiração de Accelerate tem uma companhia essencial para os elogios: a inspiração. Ainda para mais num disco eléctrico, ao qual os REM sabem acrescentar sempre aquela meiguice pop com direito a marca de autor. Ter sobre aquela execução musical rude a poderosa voz de Michael Stipe, é como iluminar o dinamismo rockeiro com uma sensibilidade pop transcendente. Os corinhos do baixista Mike Mills a adocicar os refrões são o golpe de asa que falta para assegurarem o voo do rock para a pop ao modo rápido de servir de Accelerate.
Será este álbum o verdadeiro sucessor do seu concorrente eléctrico Monster (1994)? Não. Monster é antes uma reflexão pós-grunge e uma reposta espiritual à morte imprevisível do amigo de Stipe, Kurt Cobain (o mítico líder dos Nirvana) - há uma façanha paralela de Neil Young nesse ano, Sleeps with Angels, que consegue ser ainda melhor.
Accelerate é o regresso mais genuíno dos REM ao seu percurso dos anos 80, como nunca aconteceu desde Out of Time (1991). O frenesim eléctrico da maioria das faixas de Accelerate (como 'Horse to Water', 'I'm Gonna DJ' ou o tema-título do álbum) é reconhecível naquela vontade de conquistar o mundo audível em Green (1988). E mesmo as canções pop mais contemplativas ('Hollow Man' ou 'Houston') são viagens directas ao tempo dos serões de tarde melancólicos que produziram pérolas como Lifes Rich Pageant (1986) ou Document (1987).
Será Accelerate um álbum com um estado de espírito nostálgico? Não se sabe. O rock está a ficar sem data e subiu há muito um degrau para a escala de intemporal, graças a bandas da estatura dos R.E.M., que ao fim de mais de 25 anos ainda conseguem produzir álbuns da envergadura deste. (Warner Bros, 2008)